Temática

Chamado Realista

Há um chamado realista em parte significativa da produção brasileira recente, com filmes baseados em personagens e vidas anteriores aos filmes, com a ficcionalização de situações de vida, com documentários que escutam, observam e provocam gente de carne e osso em seus cotidianos menos ou mais comuns.  O contemporâneo parece apontar para novas buscas estéticas de contato com o real e, principalmente, em uma representação que traz na sua forma e estilo um desejo de uma dramaturgia, no caso da ficção, calcado no lastro da experiência de mulheres e homens. O trabalho para chegar até essa experiência realista inclui muitas vezes métodos e perspectivas diretoriais que baseiam a sua dramaturgia na vida real dos atores e atrizes, uma combinação entre ficção e fatos da vida refletida no perfil naturalista de muitas das atuações contemporâneas.  No documentário, o lastro dessa experiência é muitas vezes alcançado pela observação insistente e atenta, um artifício que se vale de uma matização dos discursos prévios sobre o que se retrata, um silenciamento que somente engana, pois o gesto de "somente observar" traz mais potência para a expressão do mundo social vivido.

Este chamado realista não tem apenas as características tradicionais do realismo, com sua busca de um certo apagamento das mediações de linguagem  e da  representação de um olhar sobre algum aspecto da vida social, muito pelo contrário. É comum a sensação de estarmos diante de documentários que fabulam e ficções que documentarizam a vida. Os gêneros e os modos dessa aproximação tangenciam experiências tão diversas como filmes de terror e documentários subjetivos, ora apenas fazendo acontecer mais uma vez para as câmeras e com algum apelo espetacular algumas situações "denunciadas", ora procurando um novo modo de criar um fato fílmico sem reduzir em imagens o que se deseja combater. O filme de montagem, mais presente na produção de curtas-metragens, também traz na sua pesquisa com materiais de arquivos históricos ou no saque de imagens da mídia a conformação de um cenário midiático que também invade e modula as novas perspectivas realistas. Neste sentido, o gesto do amador, da câmera urgente, próxima dos fatos e dos acontecimentos, inconstante e incessante no eterno registrar das câmeras digitais, se constitui traço formal realista, estando presente no cinema de forma auto-reflexiva ou como estilo. A percepção e as investidas formais que apelam para o efeito de real hoje em dia não podem ser pensadas fora deste novo contexto.

Existe, portanto, neste chamado todo tipo de transversalidade formal, nem sempre em busca de apagamentos nesta aproximação entre acontecimentos recorrentes em sociedade e diferentes modos de expressão dos mesmos. CHAMADO REALISTA é o tema da 21 Mostra de Tiradentes. Procuramos focar e ampliar a discussão sobre as relações intercambiáveis entre cinema e vida,  que em muitos filmes, peças, performances e exposições têm pressionado produtores e criadores a pensar suas estéticas a partir da vida social, de maneira menos ou mais direta, menos ou mais simbolizada. A indagação sobre o realismo também se propõe a pensar as raízes históricas de certas discussões formais, principalmente da perspectiva da história do cinema brasileiro, trazendo nova luz aos debates sobre onosso cinema contemporâneo.

Cleber Eduardo
Lila Foster
Curadores