CRISES E AFETOS MARCAM OS CURTAS-METRAGENS DA 22ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES

Trio de curadores aponta a força da autoafirmação como resposta às crises políticas e sociais no Brasil contemporâneo

Historicamente espaço de ousadias, experimentações e reflexão das efervescências políticas e sociais de um tempo, o curta-metragem segue como uma das presenças de honra na programação da Mostra de Cinema de Tiradentes. A 22ª edição do evento, a ser realizada entre os dias 18 e 26 de janeiro, contará com 78 produções, vindas de 13 estados do país, representando a força expressiva do formato e suas possibilidades diante de temáticas, estéticas e abordagens das mais variadas.

A curadoria de curtas-metragens desta edição foi de Pedro Maciel Guimarães, Camila Vieira e Tatiana Carvalho Costa, que assistiram a centenas de filmes durante o processo de seleção. Os títulos vêm de Minas Gerais (21), São Paulo (17), Rio de Janeiro (9), Bahia (6), Goiás (5), Pernambuco (5), Ceará (3), Paraná (3), Distrito Federal (2), Paraíba (2), Rio Grande do Norte (1), Rio Grande do Sul (1), Amazonas (1) e Mato Grosso (1). Os filmes estarão distribuídos em 10 seções segmentadas dentro da grade de programação: Foco, Panorama, Corpos Adiante, Formação, Jovem, Regional, Praça, Valores, Foco Minas e Mostrinha.

Para Pedro Maciel, um dos curadores de curtas da Mostra de Tiradentes, os filmes desta edição estão marcados por reações de cineastas ou personagens a acontecimentos recentes da política brasileira. “É possível detectar certo estado de coisas a partir de dois aspectos. De um lado, uma total letargia dos protagonistas a partir do que vem acontecendo no Brasil, num misto de lamúria, lamentação, ensimesmamento, depressão e de uma vontade de compartilhar afetos. São filmes sobre juventudes perdidas, discussão de rumos e de enclausuramento em seus espaços”, aponta Pedro. “Por outro lado, muitos trabalhos se fixam na necessidade de autoafirmação, especialmente pela etnia ou pela identidade de gênero, criando formas de se expressar diante da violência que determinados grupos vivenciam”.

O curador chama atenção para o protagonismo coral que poderá ser percebido em grande parte dos curtas-metragens de Tiradentes em 2019. “O grupo se torna personagem principal no filme, e os rumos desse grupo apontam os caminhos do filme. Essa difusão, essa falta de centralidade nos papéis, está muito presente tanto nos documentários quanto nas ficções”.

Avaliada pelo Júri da Crítica – formado por profissionais da reflexão audiovisual que escolhem o melhor título e concedem o Troféu Barroco e prêmios de parceiros do evento –, a Mostra Foco conta com 12 filmes. Segundo a curadora Camila Vieira, os curtas da Foco 2019 “propõem diferentes estratégias dos corpos mediante seus lugares no mundo e situações de crise”.

A curadora aponta a presença, nos filmes, de “sujeitos solitários que buscam encontros fortuitos; jovens que se amparam no coletivo como forma de sobrevivência; corpos que enfrentam diversas formas de violência (de gênero, de raça, de classe) e que se afirmam em seus territórios particulares”. Os títulos da Foco serão debatidos ao longo da Mostra, com a presença de críticos, diretores e público.

Como todo ano, uma seção dentro da temática geral da Mostra de Tiradentes é criada. Em 2019, a Mostra Corpos Adiante reúne quatro curtas: Lui (PR), de Denise Kelm; Noir Blue (MG), de Ana Pi; Quebramar (São Paulo), de Cris Lyra; e Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados (MG), de Aiano Bemfica, Camila Bastos, Cristiano Araújo e Pedro Maia de Brito. Em todos, a presença dos corpos é um desafio ao espaço e aos sistemas previamente estabelecidos, fazendo com que personagens e situações se coloquem em conflito com os ambientes.

GÊNERO E ETNIA

Na visão da curadora Tatiana Carvalho Costa, o conjunto de filmes selecionados apresenta multiplicidade de olhares para uma diversidade de sujeitos, reverberando o que se tem visto sobretudo na última década no país. “Sujeitos historicamente silenciados tomam para si não só a palavra, mas a forma de enunciação, em gestos corajosos e potentes de elaborações narrativas”, diz ela. “Destaco, no conjunto, os filmes dirigidos por pessoas trans/travestis e pessoas negras. Seja por meio da ressignificação de elementos clássicos da narrativa cinematográfica ou pela proposta de dispositivos quase disruptivos, os filmes realizados por estas pessoas nos fazem questionar o próprio fazer cinematográfico, suas codificações e lógicas de privilégios, propondo uma ampliação no horizonte do ver e do se fazer ver e ouvir”.

Pela primeira vez em sua história, a Mostra de Tiradentes submeteu aos 806 inscritos na categoria de curta-metragem um questionário para coleta de informações gerais, que dessem alguma noção do panorama de realizadores que se apresenta para exibir seus filmes no festival.

Segundo dados compilados pela curadoria, 63 mulheres negras foram creditadas na direção de filmes inscritos no festival. Desse total, 43 eram exclusivamente dirigidos por elas, enquanto os outros 20 eram coassinados por diretor homem. Em relação a identidade sexual, das 63 diretoras, 3 se declararam lésbicas. Em contraponto, 118 diretores negros foram inscritos, sendo 86 deles assinando exclusivamente seus respectivos trabalhos.

Dos 77 curtas-metragens selecionados, 90 cineastas assinam os filmes (já que vários contam com codireção). Deste total, em dados de gênero e identidade sexual, são 32 homens cis, 19 mulheres cis, 1 mulher trans, 1 homem trans,  1 travesti, 1 pessoa não binária, 1 pessoa de gênero não definido e 34 que preferiram não declarar.

Em relação a etnia e identidade sexual entre os selecionados, são 17 homens cis brancos, 13 mulheres cis brancas, 7 homens cis pardos, 5 mulheres cis negras, 5 homens cis negros, 1 pessoa não binária branca, 1 travesti parda, 1 homem cis amarelo, 1 pessoa de gênero não definido branca e 1 homem trans branco, sendo que 34 pessoas não declararam etnia.

“Ficamos muito impressionados com os filmes feitos por pessoas trans e travestis. A presença delas, com a qualidade que os filmes apresentam, é algo muito emocionante”, exalta a curadora Tatiana Carvalho Costa.

Confira, a seguir,  a relação dos curtas-metragens selecionados para exibição na 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 MOSTRA FOCO

O BANDO SAGRADO, Breno Baptista (CE)

ONZE MINUTOS, Hilda Lopes Pontes (BA)

TEA FOR TWO, Julia Katharine (SP)

UM ENSAIO SOBRE A AUSÊNCIA, David Aynan (BA)

AINDA ONTEM, Jessica Candal (PR)

CAETANA, Caio Bernardo (PB)

ESTADO DE NEBLINA, Bruno Ramos (SP)

MALANDRO DE OURO, Flávio C. Von Sperling (MG)

A ÉTICA DAS HIENAS, Rodolpho De Barros (PB)

ANTES DE ONTEM, Caio Franco (SP)

NEGRUM3, Diego Paulino (SP)

TEMPESTADE, Fellipe Fernandes (PE)

 

MOSTRA PANORAMA

EU NÃO VOU AO ENTERRO DE PAINHO, Leandro Lopes (BA)

REFORMA, Fábio Leal (PE)

GUAXUMA, Nara Normande (PE)

VERDE LIMÃO, Henrique Arruda (RN)

NÁUFRAGA, Juh Almeida (BA)

AULAS QUE MATEI, Amanda Devulsky E Pedro B. Garcia (DF)

INSIPIENTE, Jean Santos (PE)

PRINCESA MORTA DO JACUÍ, Marcela Ilha Bordin (RS)

OBESO MÓRBIDO, Diego Bauer E Ricardo Manjaro (AM)

UM FILME PARA EHUANA, Louise Botkay (RJ)

AURORA, Renata Spitz (RJ)

LIBERDADE, Pedro Nishi E Vinícius Silva (SP)

BUP, Dandara De Morais (PE)

PERPÉTUO, Lorran Dias (RJ)

MIRAGEM, Flora Dias (SP)

LUA MALDITA, Felipe Santo (SP)

MESMO COM TANTA AGONIA, Alice Andrade Drummond (SP)

 

MOSTRA PRAÇA

ARARA: UM FILME SOBRE UM FILME SOBREVIVENTE, Lipe Canêdo (MG)

AVOADA, Magno Pinheiro (RJ)

O ÓRFÃO, Carolina Markowicz (SP)

A PRAGA DO CINEMA BRASILEIRO, Zefel  Coff E William Alves (DF)

SEREIAS, Barbara Vida (RJ)

QUANDO ELAS CANTAM, Maria Fanchin (SP)

MAJUR, Rafael Irineu (MT)

MEGG- A MARGEM QUE MIGRA PARA O CENTRO, Larissa Nepomuceno E Eduardo Sanches (PR)

PRECISO DIZER QUE TE AMO, Ariel Nobre (SP)

SAIR DO ARMÁRIO, Marina Pontes (BA)

GUARÁ, Fabrício Cordeiro, Luciano Evangelista (GO)

SOCCER BOYS, Carlos Guilherme Vogel (RJ)

KRIS BRONZE, Larry Machado (GO)

JÉSSIKA, Galba Gogoia (RJ)

 

MOSTRA CORPOS ADIANTE

LUI, Denise Kelm (PR)

QUEBRAMAR, Cris Lyra (SP)

CONTE ISSO ÀQUELES QUE DIZEM QUE FOMOS DERROTADOS, Aiano Bemfica; Camila Bastos; Cristiano Araújo; Pedro Maia De Brito (MG)

NOIRBLUE,  Ana Pi (MG)

 

MOSTRA FOCO MINAS

RUSSA, João Salaviza, Ricardo Alves Jr. (MG)

À CURA DO RIO, Mariana Fagundes Azevedo (MG)

TRABALHO, Desali (MG)

OBREIRAS, Ana França, Gabriela Albuquerque E Isadora Fachardo (MG)

LOGO APÓS, Ana Carolina Soares (MG)

TEORIA SOBRE UM PLANETA ESTRANHO, Marco Antônio Pereira (MG)

PLANO CONTROLE, Juliana Antunes||Assistente Direção: Giselle Ferreira (MG)

 

MOSTRA FORMAÇÃO

CARTUCHOS DE SUPER NINTENDO EM ANÉIS DE SATURNO, Leon Reis (CE)

EU PRECISO TE VER NO FUNDO DOS MEUS OLHOS, Letícia Gomes (SP)

MARIA, Vini Campos (SP)

PEIXE, PIZZA E PICARETAS - FISH HEAD, Maynard S Farrell (SP)

ESPAVENTO, Ana Francelino (CE)

O CEGO DA CASA AMARELA, Joachim Nadar & Lemuel Gandara (GO)

PEIXE, Yasmin Guimarães (MG)

FARTURA, Yasmin Thayná (RJ)

 

MOSTRA JOVEM

ARTEIRO, Bruno Carvalho (MG)

ALEM DOS MUROS, Robney Bruno Almeida (GO)

SALVE TODOS, Isabela Renault (MG)

CRAVO, LÍRIO E ROSA, Maju De Paiva (RJ)

 

MOSTRA CENA REGIONAL

O JACARÉ E O HOMEM DO BOI, Paulo Alexandre Coelho (MG)

A PARTIDA DO MENINO NEIMAR, Rafael Cruz Bianchini (MG)

BAIXA FUNDA O DESTINO DE UM POVO, Marcello Sannyos (MG)

CASULO, Rafael Aguiar (MG)

UM CERTO MARALONSO, Samuel Fortunato (MG)

 

MOSTRINHA

HISTÓRIAS DE CRIANÇA: O PIRATA CHULÉ E  O JOGO DO TESOURO, Heder Dias Godinho (MG)

MEU MELHOR AMIGO, Laly Cataguases (MG)

ÒPÁRÁ DE ÒSÙN: QUANDO TUDO NASCE, Pâmela Peregrino (BA)

A NATUREZA AGRADECE, Ana Maria Cordeiro (GO)

MANCHE, Livia Collino (SP)

AS AVENTURAS DE PETY, Anahi Borges (SP)

 

MOSTRA VALORES

QUANTAS CIDADES HABITAM EM UMA?, Isis Alcântara e Isis Bey (MG)