CRÍTICOS E PRODUTORES DISCUTEM POLÍTICAS DO SETOR AUDIOVISUAL

No encontro "Viver de cinema: da micro à macropolítica" realizado nesta segunda-feira (27), na 23ª Mostra Tiradentes, a conversa se deteve sobre a crise pela qual passa o setor audiovisual desde a ascensão do atual governo brasileiro e em que medida o desinteresse e desvalorização do Estado na relação com a cultura afeta a vivência e sobrevivência de toda uma classe de trabalhadores. O crítico Eduardo Valente, ex-assessor internacional da Ancine (Agência Nacional de Cinema), lembrou o quanto órgãos estatais sempre apoiaram a cadeia produtiva e distributiva de cinema em países fortes na área, como EUA e Suécia, e que o atual momento pelo qual passa o Brasil, com o afastamento estatal, não é isolado aqui no país. 

Valente chamou atenção para os riscos do acúmulo de recursos de um fundo como o FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), que manteve em expressiva continuidade a produção brasileira até recentemente ser paralisado pelo governo federal. O crítico disse ter ouvido alertas, em reuniões do setor, de que o excesso de recursos poderia se tornar alvo fácil se o poder passasse a ser exercido por quem não apoiasse o setor. “Se você está numa condição de só fazer e fazer e não se preocupa com quem está vendo essa produção, uma hora isso se vira contra você. É importante ter essa consciência, porque não enfrentamos o problema quando estávamos no domínio da narrativa e agora precisamos lidar com a tentativa de extermínio de todo um setor”, refletiu.

Para a produtora Luana Melgaço, as políticas públicas construídas nos últimos 15 anos no setor audiovisual explodiram contra a própria área e revelaram um tipo de mundo ilusório que não continha a tão falada democratização do acesso, além de uma supervalorização da segurança jurídica que parecia existir na definição dos recursos via FSA (Fundo Setorial do Audiovisual). “Eram leis, o setor vivia bem, parecia saudável, mas não era bem isso, como a gente começou a ver a partir da mudança de diretoria na Ancine em 2018”, comentou.

Luana disse ainda que é difícil contra-argumentar com números, valor do PIB, empregos gerados, receitas e tantos dados que a indústria criativa fornece quando o outro lado, que está no poder, é ideologicamente oposto ao que o audiovisual tem a oferecer. “O poder público paralisa toda uma indústria, corta as operações que a fazem andar e esse é um modo de ela deixar de existir sem que o governo admita que ela acabou de fato”, avalia.

O crítico, ator e pesquisador Jean-Claude Bernardet complementou que a preocupação não é apenas o desinteresse do governo no setor, e sim a possibilidade de leis e editais passarem a incluir áreas de atuação ideologicamente vinculadas a ele, como igrejas e frentes conservadoras. Em intervenção da plateia, a professora Tatiana Carvalho Costa, uma das curadoras de curta-metragem da Mostra, questionou se faz sentido retornar a um modelo anterior em que tantos criadores e artistas - em especial artistas negros - passaram anos excluídos. Seria preciso, para ela, propor um novo modelo. Luana Melgaço disse que é preciso, de fato, compreender a falta como elemento essencial para o futuro. "Precisamos recuar e aprender com quem sempre fez sem nada e talvez então podermos avançar", pontuou.

O debate da tarde reverberou, de certa forma, o Encontro com os Filmes sobre o longa-metragem “Um Dia com Jerusa”, realizado pela manhã. A diretora Viviane Ferreira relatou situações em que sua equipe, majoritariamente formada por profissionais negras, se deparou com obstáculos relacionados a racismo e negação de seus corpos. Viviane disse ainda que a responsabilidade que assumiu para si era a de fazer um filme que dialogasse com a memória coletiva de determinados tipos de vivência e que não precisaria, para isso, “fazer uma obra-prima”. A atriz Lea Garcia protagoniza o filme e, aos 86 anos de idade, exaltou, no debate, a singularidade de ter estado num set de filmagem com tantas pessoas negras. 

Em 2020, segundo levantamento da curadoria da Mostra de Tiradentes, 70% dos curtas-metragens da mostra Foco, que compete no Júri da Crítica, são de realizadores negros. O dado, porém, não se reflete no mercado cinematográfico brasileiro e encontra eco inclusive no trabalho de Viviane Ferreira, apenas a segunda mulher negra a dirigir sozinha um longa-metragem no Brasil (a primeira foi Adélia Sampaio, com “Amor Maldito”, em 1984).

SOBRE A MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES


Maior evento dedicado ao cinema brasileiro contemporâneo em formação, reflexão, exibição e difusão realizado no país. Apresenta, exibe e debate, em edições anuais, o que há de mais inovador e promissor na produção audiovisual brasileira, em pré-estreias nacionais, de longas e curtas – uma trajetória rica e abrangente que ocupa lugar de destaque no centro da história do audiovisual e no circuito de festivais realizados no Brasil.

Trata-se de um programa audiovisual que reúne todas as manifestações da arte numa programação cultural abrangente oferecida gratuitamente ao público que prevê a exibição de mais de 100 filmes brasileiros em pré-estreias nacionais, mais de 40 sessões de cinema, homenagens, oficinas, debates, seminário, mostrinha de cinema, exposições, lançamento de livros, teatro de rua, shows musicais, performance audiovisual, encontros e diálogos audiovisuais e  atrações artísticas.

 

Acompanhe a 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes e o programa Cinema Sem Fronteiras 2020.

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Serviço


 23ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES | 24 de janeiro a 1o de fevereiro de 2020

LEI FEDERAL DE INCENTIVO À CULTURA

LEI ESTADUAL DE INCENTIVO À CULTURA

Patrocínio: ITAÚ, TAESA, CBMM, COPASA, CEMIG, CODEMGE|GOVERNO DE MINAS GERAIS

Parceria Cultural: Sesc em Minas

Apoios: SESI FIEMG, CAFÉ 3 CORAÇÕES, MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES, OI, DOT, MISTIKA, CTAV, CIA/NAYMAR, CINECOLOR, THE END POST, CANAL BRASIL, REDE GLOBO MINAS, PREFEITURA DE TIRADENTES, POLÍCIA MILITAR DE MINAS GERAIS.

Idealização e realização: UNIVERSO PRODUÇÃO

SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA E TURISMO | GOVERNO DE MINAS GERAIS

SECRETARIA ESPECIAL DE CULTURA, MINISTÉRIO DA CIDADANIA - GOVERNO FEDERAL|PÁTRIA AMADA BRASIL

 

LOCAIS DE REALIZAÇÃO DO EVENTO


Centro Cultural Sesiminas Yves Alves   

Largo das Fôrras  

Largo da Rodoviária

Escola Estadual Basílico da Gama

Espaço Cultural Aimorés

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Produção de textos: Marcelo Miranda