DISRUPÇÕES DE UM NOVO MUNDO MARCARAM FILMES E DEBATES EM EDIÇÃO HISTÓRICA DA MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES

Crédito: Jackson_Romanelli / Universo Produção

O mundo tal como o conhecíamos e estávamos acostumados acabou. O que surge agora é outro mundo, mais cindido, de dissenso e conflitos diretos. A fala da pesquisadora e curadora Janaína Oliveira sobre “o fim do mundo” ecoou ao longo de toda a 23a Mostra de Cinema de Tiradentes. Se por um lado há algo de apocalíptico na constatação, o efeito prático desse fim é justamente o que vem depois – este outro começo ao qual se refere Janaína. São as tais “cosmopoéticas contra-hegemônicas” propostas num debate mediado pela professora Tatiana Carvalho Costa e que uniu cinema, vida, corpos, vivências e experiências. O novo mundo, portanto, apesar de alguns sangues derramados (às vezes simbolicamente, outras nem tanto), deverá ser marcado por um corte mais transversal e plural numa sociedade brasileira historicamente marcada por opressões de raça, gênero, orientação sexual e classe.

Essas percepções surgiram nas conversas da Mostra justamente porque a programação de 2020 – seguindo tendências dos últimos anos – detectou com precisão as cisões que permeiam cada vez mais o Brasil de agora. Tiradentes é espaço de um cinema novo, pulsante e inclusivo, que reflete, analisa e problematiza os rumos do que tem mobilizado cineastas, coletivos e artistas dentro das possibilidades de expressão e linguagem.

“O ato de imaginar é a sugestão da mente que elabora outra imagem a partir de alguma reflexão”, afirma Francis Vogner dos Reis, coordenador curatorial nesta edição do evento. A temática “A imaginação como potência” foi proposta com o objetivo de compreender o cinema como espaço de disputas simbólicas que permitem dar vazão a ideias e perspectivas para além do ortodoxo e do esperado, indo ao encontro do infinito da criação. “A imaginação nos convida a deixarmos de ser vítimas do passado e reféns do futuro, sua potência é a irrupção do novo”, completa Francis.

Para ele, a produção artística é o terreno da imaginação. “Não devemos só fazer diagnósticos da nossa catástrofe. Como o cineasta José Mojica Marins disse uma vez, o cinema deve seguir pelo que o criador não sabe. Estamos sendo governados por pessoas que são inimigas da imaginação, que acreditam numa coisa só, que creem num processo darwinista do mais forte e das coisas como elas devem ser à maneira deles”. A crítica e pesquisadora Lila Foster, curadora de longas, levanta a questão: “Os cineastas estão pensando diante da ruína ou diante da potência? Esse é o diapasão que nos marca e que vamos ver refletido em vários trabalhos que estiveram na Mostra”.

 

PLURALIDADE


O que se viu em Tiradentes ao longo dos nove dias de Mostra foi a materialização dessa liberdade da imaginação para voos infindáveis. A maciça presença de realizadores negros (só na Mostra Foco foram 70% dos cineastas) demonstrou a potência desses novos olhares, por tantos anos apartados dos caminhos da expressão. “Estamos vivendo esse momento muito forte, de um conjunto mais amplo e múltiplo e plural de olhares, de pontos de vista, de lugares de vivência no cinema”, destaca Tatiana Carvalho Costa, uma das curadoras de curta-metragem. “Até pouco tempo, quando discutíamos a pluralidade e falávamos da autoria no cinema, normalmente nos referíamos a pessoas brancas, notadamente homens brancos. Hoje, é possível usar essa mesma adjetivação para ampliar”.

Os filmes gritam por si, e títulos que mobilizaram plateias durante a Mostra – como os longas “Até o Fim” e “Cabeça de Nêgo” e os curtas “Minha História é Outra” e “Perifericu” – se impuseram por suas forças estéticas, em nada separadas de sua representatividade social e simbólica. Eles simplesmente são filmes que existem e foram vistos por centenas de espectadores, passando a habitar no imaginário de tanta gente. “A multiplicidade está mais vinculada à proposição estética de cada realizador, não exclusivamente a uma questão estritamente de gênero e raça. Politicamente, há pluralidade, pois temos uma maior presença de mulheres e negros na direção dos filmes, algo que não era tão comum. Isso existe porque os filmes são fortes”, afirma Lila Foster.

Num debate, a artista Castiel Vitorino Brasileiro descreveu que, na elaboração de uma obra sua, ela reelabora a própria vida e isso a leva à proposição de outra imaginação. Para ela, é preciso que essa nova imaginação tome espaço, que “os cineastas morram” – no sentido de que os espaços surjam e se preencham por novos corpos e novos imaginários. “A questão aqui não é ser cineasta, e sim esse sujeito colonizador que se torna cineasta”, afirmou. “É preciso eu me compreender na minha singularidade, naquilo que eu sou, e isso está dentro de uma coletividade que me faz sujeito. Essa coletividade nos conecta”.

 

JUNTOS


A noção do coletivo foi outra permear a semana na Mostra de Cinema de Tiradentes. Além dos já tradicionais grupos de produção, algo que já vinha se avizinhando em outros anos apareceu forte: a presença significativa de famílias em comunhão pela feitura de filmes pequenos, disruptivos, que intentam desafiar as normas tradicionais de narração e estética. Se André Novais Oliveira tem sido saudado como o grande artífice dessa relação entre diretor e família, com filmes como “Ela Volta na Quinta” (2014) e “Quintal” (2015), a Mostra de 2020 trouxe vários novos exemplos. A começar pelo filme de abertura, “Os Escravos de Jó”, dirigido pelo cearense Rosemberg Cariry e produzido por sua filha, Bárbara Cariry, que também vem produzindo os longas do irmão, Petrus. Ou a homenagem deste ano a pai (Antônio Pitanga) e filha (Camila Pitanga), que juntos fizeram o documentário “Pitanga” (2016) e mantêm trajetórias singulares e complementares.

Mas foram dois outros filmes que criaram curtos-circuitos nessas relações domésticas, por terem a presença da câmera no ambiente familiar como a essência dos projetos. Um foi “É Rocha e Rio, Negro Léo”, de Paula Gaitán, no qual ela documenta horas de conversa com o músico e sociólogo Negro Léo, casado com a cantora Ava Rocha, filha dela com o cineasta Glauber Rocha. “Ter amor por uma pessoa não necessariamente é ter admiração, então eu não faria um filme com ele se não o admirasse para além de ser meu genro”, diz Paula. A proximidade entre eles ampliou a liberdade dela de adentrar o cotidiano do artista. “A Paula está sempre lá em casa, e o filme registra o que são os nossos encontros mesmo, conversando no sofá, sentados ali papeando”, conta Negro Léo.

Outro foi “Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu”, primeiro longa-metragem de Bruno Risas como diretor. Os atores são pai (Julius Machado), mãe (Viviane Machado), irmã (Iza Machado), avó (Geny Rodrigues) e ex-companheira (Flora Dias) do cineasta. Todos se dispuseram ao experimento de Risas de filmar o dia a dia da família inserindo elementos de ficção científica e de estranhamento que dão a um suposto documentário toda a formatação e encenação de um projeto de ficção. Apesar de estar na casa dos pais e de ter liberdade total na relação com Viviane e Julius, Risas adotou o ritmo cadenciado de produção (respeitando os humores e experiências de cada um) como mote para um melhor desenvolvimento, inclusive para que os parentes se relacionassem também fortemente com o material sugerido. “Eu não sou atriz e aceitei fazer o filme, no começo, por estar disposta a ajudar meu filho no que ele precisasse. Com o tempo fui entendendo aquilo como um trabalho e isso me mudou completamente, mudou a minha maneira de me relacionar com várias coisas”, revela Viviane, mãe de Bruno.

O filme de Risas também contemplou outra faceta a surgir com complexidade na Mostra: o trabalho – ou, mais precisamente, a precarização do trabalho profissional no Brasil. “Falar de emprego é fundamental em um país onde milhões de pessoas estão desempregadas ou trabalhando informalmente”, destaca Renan Rovida, diretor de “Pão e Gente”, filme da Mostra Aurora que adapta o texto “A Padaria”, do dramaturgo de esquerda Bertold Brecht. O período de feitura de “Pão e Gente” coincidiu com dificuldades pessoais de Renan, inclusive de emprego. “Eu e minha companheira fizemos esse filme na condição de desempregados naquele momento, então é muito sobre a gente também, não é só sobre um grupo qualquer de personagens”, revela.

Em questões similares, “Mascarados”, de Henrique Borela e Marcela Borela, acompanha o dia a dia de homens numa pedreira em Pirenópolis (GO), desde a rotina dura de trabalho, os momentos de descanso e diversão, os preconceitos, estigmas e o descaso de patrões que, num primeiro sinal de crise, demitem dezenas de trabalhadores e os deixam à deriva. “Quando a gente fala do trabalhador no cinema contemporâneo, tendemos a uma ritualização do trabalho que ele exerce. Acho que ‘Mascarados’ toma o caminho o contrário”, destaca o crítico João Pedro Faro.

Ainda entre os filmes, a pujante produção recente brasileira se fez presente na Mostra numa saudável presença de veteranos e novatos. Se um Geraldo Sarno, aos 81 anos, é plenamente capaz de apresentar um filme da potência de “Sertânia”, ou Helena Ignez aos 77, segue a provocar sensações várias em “Fakir”, a juventude de Jorge Polo e Petrus de Bairros é igualmente potente (de um outro jeito) no risco de um filme como “Canto dos Ossos”, ou a de Glenda Nicácio e Ary Rosa, que já num terceiro longa, “Até o Fim”, parecem veteranos de anos de cinema tamanha a maturidade e consciência do que fazem. O cinema indigenista foi outro a se fazer presente com um trabalho potente como “Yãmiyhex: As Mulheres-espírito”, de Sueli Maxakali e Isael Maxakali, no qual a dupla faz da câmera a extensão de suas tradições.

Foi, afinal, uma Mostra de descobertas e confirmações, em filmes, debates e encontros pelos quais atravessaram sentimentos vários de empoderamento, convicção e responsabilidade de gente que não pretende, sob nenhuma hipótese, se render (ou render seus discursos e expressões artísticas) a quaisquer desmandos, oficiais ou não, que possam vir a surgir no Brasil. Que se busque na resistência da ancestralidade negra, como disse a atriz Camila Pitanga, a força primordial para se sustentar num universo tão cheio de complexidades como o de agora. O mundo acaba, o cinema vive.

 

SOBRE A MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES


Maior evento dedicado ao cinema brasileiro contemporâneo em formação, reflexão, exibição e difusão realizado no país. Apresenta, exibe e debate, em edições anuais, o que há de mais inovador e promissor na produção audiovisual brasileira, em pré-estreias nacionais, de longas, média e curtas – uma trajetória rica e abrangente que ocupa lugar de destaque no centro da história do audiovisual e no circuito de festivais realizados no Brasil.

Trata-se de um programa audiovisual que reúne todas as manifestações da arte numa programação cultural abrangente oferecida gratuitamente ao público que prevê a exibição de 113 filmes brasileiros em pré-estreias nacionais, 53 sessões de cinema, homenagens, oficinas, debates, seminário, mostrinha de cinema, exposições, lançamento de livros, teatro de rua, shows musicais, performance audiovisual, encontros e diálogos audiovisuais e  atrações artísticas.

 

TODA PROGRAMAÇÃO É OFERECIDA GRATUITAMENTE AO PÚBLICO.

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Informações pelo telefone: (31) 3282-2366

 

Serviço


23ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES | 24 de janeiro a 1o de fevereiro de 2020

LEI FEDERAL DE INCENTIVO À CULTURA

LEI ESTADUAL DE INCENTIVO À CULTURA

Patrocínio: ITAÚ, TAESA, CBMM, PETRA, COPASA, CEMIG,  CODEMGE|GOVERNO DE MINAS GERAIS

Parceria Cultural: Sesc em Minas

Apoios: SESI FIEMG, CAFÉ 3 CORAÇÕES, MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES, OI, DOT, MISTIKA, CTAV, CIA/NAYMAR, CINECOLOR, THE END POST, CANAL BRASIL, CANAL CURTA, REDE GLOBO MINAS, PREFEITURA DE TIRADENTES, POLÍCIA MILITAR DE MINAS GERAIS.

Idealização e realização: UNIVERSO PRODUÇÃO

SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA E TURISMO | GOVERNO DE MINAS GERAIS

SECRETARIA ESPECIAL DE CULTURA, MINISTÉRIO DA CIDADANIA - GOVERNO FEDERAL|PÁTRIA AMADA BRASIL

 

LOCAIS DE REALIZAÇÃO DO EVENTO


Centro Cultural Sesiminas Yves Alves   

Largo das Fôrras 

Largo da Rodoviária

Escola Estadual Basílico da Gama

Espaço Cultural Aimorés