MOSTRA AURORA REAFIRMA PRESENÇA DE CORPOS DISSIDENTES EM FILMES DE FORTE TEOR AUTORAL

Sete longas-metragens inéditos, vindos de seis estados brasileiros, competem ao Troféu Barroco durante a Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro; pela primeira vez o Júri da Crítica terá nomes internacionais, com as presenças de Roger Koza (Argentina) e Claire Allouche (França)

A Mostra Aurora que integra programação da 22a Mostra de Cinema de Tiradentes, a ser realizada de 28 a 26 de janeiro na histórica cidade mineira, exibirá de sete longas-metragens em pré-estreia nacional, realizados por cineastas com no máximo três filmes no currículo. Os títulos, que serão apresentados no Cine-Tenda, se caracterizam por visões estéticas singulares, sempre em consonância com a vanguarda do audiovisual brasileiro e desafiando as formas tradicionais de linguagem. Os sete longas vão ser avaliados por um Júri da Crítica formado por cinco profissionais da reflexão de cinema e que este ano contará com duas presenças internacionais. Além disso, debates na manhã seguinte às exibições, com presença da equipe de produção e de críticos convidados, aprofundam as ideias sobre os filmes.

A Aurora mantém o olhar para a produção independente das mais variadas regiões do país. Dos 72 inscritos este ano e avaliados pela dupla Lila Foster e Victor Guimarães, com coordenação de Cleber Eduardo, a variedade de proposições estéticas segue como marca da produção contemporânea brasileira. Os 7 selecionados foram: A ROSA AZUL DE NOVALIS (SP), de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro; A RAINHA NZINGA CHEGOU (MG), de Junia Torres e Isabel Casimira Gasparino; TREMOR IÊ (CE), de Elena Meirelles e Lívia de Paiva; SEUS OSSOS E SEUS OLHOS (SP), de Caetano Gotardo; VERMELHA (GO), de Getúlio Ribeiro; DESVIO (PB), de Arthur Lins; e UM FILME DE VERÃO (RJ), de Jô Serfaty.

“A mostra apresenta filmes que buscam desconstruir os códigos da ficção e do documentário, com dramaturgias que se desenham entre o passado da ancestralidade, o presente dos conflitos e a incerteza do futuro”, destaca a curadora Lila Foster. “Os trabalhos reúnem imagens que forjam experiências de conexão entre personagens, sua realidade local e os imaginários que surgem do encontro entre sujeitos, cultura e cinema; obras que se fazem entre a afirmação da presença dos corpos e a abertura à fabulação”.

Também curador, Victor Guimarães destaca a desconstrução de ficções tradicionais rumo a estratégias variadas e particulares de narração. “Algo que chama bastante atenção nesta edição são os regimes de atuação, que eventualmente sofrem variações dentro de um mesmo filme, indo do naturalismo ao antinaturalismo ou se utilizando de relatos aparentemente documentais que são incorporados aos artifícios da ficção”, diz ele. O curador ainda detecta fortes relações dos filmes da Aurora com a temática deste ano da Mostra de Tiradentes, “Corpos Adiante”, a partir de abordagens frontais com a presença de corpos dissidentes em cena. “São presenças que extrapolam a afirmação de suas próprias existências, que não se contentam em apenas estar, e sim inventam narrativas para si, criam novos territórios expressivos e trabalham conscientemente a correspondência entre corpos cinematográficos e corpos reais”, comenta Victor.

A Aurora 2019 traz filmes que forjam encontros, intensificam experiências e tensionam o lugar dos corpos e da imagem no mundo. A afirmação de identidades, culturas e histórias permeia a seleção, ao mesmo tempo em que cada trabalho inventa uma língua própria para expressar com liberdade os múltiplos conflitos que os atravessam.

Em termos regionais, a Aurora traz diretoras e diretores de 6 estados do país: Goiás, Paraíba, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Ceará e São Paulo. Pelo segundo ano consecutivo, diretores da Paraíba e de Goiás concorrem com longas de estreia e afirmam a vitalidade renovada das cenas estaduais, sempre com talentos maduros e novas inquietações: Desvio (PB) consolida a trajetória iniciada no curta-metragem do diretor Arthur Lins, enquanto Vermelha (GO), de Getúlio Ribeiro, centra-se numa narrativa construída de forma lacunar e misteriosa, com forte sentido de estranhamento.

A presença de dois representantes de São Paulo aponta uma mudança geracional e estética no cinema paulista prefigurada em Tiradentes e na Aurora nos últimos quatro anos. Um cinema feito de forma artesanal e independente, muito próximo do trabalho de grupos artísticos de outras áreas, mais marcadamente o teatro, como Seus Ossos e seus Olhos, de Caetano Gotardo, e sua encenação antinaturalista que coloca em cena uma investigação sobre o próprio corpo do ator. Por sua vez, Gustavo Vinagre retorna pelo segundo ano consecutivo à mostra com A Rosa Azul de Novalis, dirigido em conjunto com Rodrigo Carneiro, e confirma um estilo de cinema centrado na autoperformance confessional.

Mulheres na direção estão presentes em três longas-metragens na Aurora. Um Filme de Verão, de Jô Serfaty, retrata a efervescência de alunos de uma escola numa favela carioca que, com a chegada das férias, vão em busca de saídas inventivas para escapar em uma cidade em crise. A Rainha Nzinga Chegou, de Júnia Torres e Isabel Casimira Gasparino, catalisa o encontro entre a cultura negra dos reinados e congados de Minas Gerais. E Tremor Iê, de Elena Meirelles e Lívia de Paiva, faz do encontro entre um grupo de mulheres o espaço de formação de uma coletividade guerreira e antissistema.

 

JÚRI DA CRÍTICA

Pela primeira vez desde a criação da Mostra Aurora, em 2008, o Júri da Crítica terá presenças internacionais. Entre os cinco integrantes do grupo que escolherão o melhor longa-metragem dentre os sete selecionados para a Aurora 2019, dois vêm de fora do Brasil. Um é o argentino Roger Koza, parceiro de outras edições da Mostra de Tiradentes, que é crítico, programador e curador, com vasta experiência em festivais de Locarno, Veneza, Hamburgo e Mar de Plata, entre outros. A outra é a francesa Claire Allouche, pesquisadora de cinema com formação na Universidade de Paris e colaboradora em publicações como Trafic e CinétrENS.

O júri se completa com as presenças de Kênia Freitas, Doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ, redatora da revista eletrônica Multiplot e curadora das mostras “Afrofuturismo: cinema e música em uma diáspora intergaláctica”, “A Magia da Mulher Negra” e "Diretoras Negras no Cinema Brasileiro"; Juliano Gomes, crítico, professor e escritor, redator na revista Cinética; e Izabel de Fátima Cruz Melo, doutora em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA/USP, pesquisadora associada da Filmografia Baiana, integrante do Grupo de Pesquisa “História e Audiovisual: circularidades e formas de comunicação” e do Fórum Itinerante de Curadoria (FIC) e autora do livro Cinema é Mais que Filme: uma história das Jornadas de Cinema da Bahia – 1972-1978 (2016).

Além de selecionar o Melhor Filme da Mostra Aurora, que será agraciado com o Troféu Barroco (oficial do evento) e premiações em produtos e serviços cinematográficos, o Júri da Crítica também será responsável por escolher o melhor curta-metragem da Mostra Foco e o destaque feminino (das Mostras Foco e Aurora) para receber o Prêmio Helena Ignez.