OLHAR ESTRANGEIRO SOBRE O CINEMA NACIONAL É DESTAQUE NA MOSTRA TIRADENTES

Quatro debates marcam a programação da 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes nesta quarta-feira, 24 de janeiro. Todos os encontros acontecem no Cine-Teatro Sesi. A primeira atividade está marcada para as 10h e reunirá a diretora Simone Cortezão e a equipe do longa “Navios de Terra”, que integra a mostra Olhos Livres, para uma mesa-redonda mediada pela curadora Camila Vieira. A crítica Cecília Barroso também participa da conversa.

Às 11h15, será a vez de Bruna Schelb e a equipe de “IMO”, que compete na mostra Aurora, falarem sobre o longa com a crítica Glênis Cardoso. A mediação será feita por Marcelo Miranda. Às 12h30 sobem ao palco os diretores dos curtas exibidos na Mostra Foco na noite dessa terça-feira.

Também neste sexto dia de evento, será realizado o bate-papo “Um olhar sobre o cinema brasileiro”, com o russo Boris Nelepo, crítico, programador e curador, e o chileno Erick González, delegado geral do Centro de Cine Y Creación e diretor do AustraLab – FICValdivia, no Cine-Teatro Sesi. A mediação fica por conta de Leila Bourdoukan (gerente executiva do Programa Cinema do Brasil). O encontro, às 15h30, tem o objetivo de traçar um panorama sobre possibilidades e ações de se promover a produção audiovisual do Brasil no exterior.

Na agenda de longas entram em cartaz “O Nó do Diabo” (direção coletiva de Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhesus Tribuzi), na Mostra Olhos Livres, às 17h30; e “Ara Pyau – A Primavera Guarani”, de Carlos Eduardo Magalhães, às 19h45, pela Aurora.

A programação de curtas contará com as exibições da Mostra Formação, às 17h30, no Cine-Teatro Sesi; e Curtas na Praça, às 21h, no Cine BNDES na Praça, com “Leona Assassina Vingativa 4”, de André Antônio e Paulo Colucci; “De Tanto Olhar o Céu Gastei meus Olhos”, de Nathalia Tereza; “O Quebra-cabeça de Sara”, de Allan Ribeiro; e “Flecha Dourada”, de Cíntia Domit Bittar.

No encerramento da Mostra Foco, a partir das 22h30, no Cine-Tenda, serão exibidos três curtas-metragens: “Febre”, de João Marcos de Almeida e Sérgio Silva, “Fantasia de Índio”, de Manuela Andrade, e “Inconfissões”, de Ana Galizia. O show de Nina Becker, promovido por meio de parceria cultural com o Sesc, fecha a programação de quarta-feira. A apresentação será no Sesc Cine-Lounge, a partir das 0h, e contará com composições do disco “Acrílico” (2017), inspirado na Bossa Nova.

PROGRAMAÇÃO DE QUINTA-FEIRA 

Um dos destaques da programação desta quinta-feira, dia 25, será o bate-papo “Incidência de novos e antigos realismos em perspectiva latino-americana”, que integra o Seminário do Cinema Brasileiro e abre espaço para que a temática Chamado Realista seja expandida para além das fronteiras.

Na mesa, marcada para as 15h, estarão Andrea Stavenhagen (México, correspondente para a América Latina no Festival de San Sebastián), Raúl Camargo (Chile, programador e diretor de competição do Festival de Valdivia) e Roger Koza (Argentina, programador do Filmfest Hamburg e do Ficunam, crítico de cinema do Con los Ojos Abiertos e Revista Ñ), sob mediação da crítica Ela Bittencourt.

A partir da ideia de Chamado Realista, proposta pela curadoria da Mostra, o debate se concentrará nas seguintes questões: como o diálogo com a realidade de suas sociedades tem se manifestado nos filmes da América do Sul e América Central? Existe um contrafluxo em relação à demanda de realidade nas narrativas de ficção e de documentário? O cinema latino-americano, com suas particularidades nacionais, autorais e de filme a filme, está em diálogo com as demandas de vida nas imagens percebida em filmes brasileiros recentes?

O Seminário, entretanto, tem início ainda pela manhã. A partir das 10h, entra em pauta o processo de construção dos longas “O Nó do Diabo”, com o crítico convidado Alfredo Suppia, e “Ara Pyau – A Primavera Guarani”, com a presença de Victor Guimarães; além dos curtas da Mostra Foco 3, reunindo todos os realizadores.

A mostra Olhos Livres começa às 18h30, no Cine-Tenda, com a exibição de “Platamama”, de Alice Riff, sobre família de imigrantes bolivianos que tenta sobreviver no mercado de trabalho de São Paulo. A mostra Aurora traz dois competidores na noite desta quinta, ambos no Cine-Tenda: às 20h passa “Dias Vazios”, de Robney Bruno Almeida, drama intimista sobre casal que precisa decidir os rumos da vida após o fim do ensino médio; e às 22h tem “Baixo Centro”, de Samuel Marotta e Ewerton Belico, com outro casal em crise, desta vez pela força da opressão e pela ameaça da morte e desaparição que se insinua continuamente. 

No Cine BNDES na Praça, será projetado “Camocim”, de Quentin Delaroche, às 21h. O documentário acompanha a jovem Mayara, que faz campanha política para um amigo em meio às disputas e aos currais eleitorais da pequena São Camocim de São Félix, no interior do Pernambuco.

A série 4 da Mostra Panorama reúne, às 16h30, no Cine-Tenda, os curtas “Memórias de um Primeiro de Maio”, de Danilo J. Santos, “Sweet Heart”, de Amina Jorge, “Avalanche”, de Leandro Alves, e “Território do Desprazer”, de Maíra Tristão e Mirela Marin.

A parceria cultural com o Sesc traz o show de Felipe Cordeiro, encerrando a noite no Sesc Cine-Lounge, à 0h30. A apresentação contará com a sonoridade típica deste músico influenciado pela Jovem Guarda, vanguarda paulista, carimbó, cumbia e música digital.

RETROSPECTIVA: MEMÓRIAS E RESISTÊNCIA

Entre o fim da manhã e o início da tarde de terça-feira, os Encontros com os Filmes contaram com a presença de dezenas de espectadores no Cine-Teatro Sesi para conversarem sobre os trabalhos exibidos na noite anterior da Mostra de Tiradentes. As conversas em torno dos longas “Inaudito” e “Madrigal para Poeta Vivo” tiveram em comum discussões sobre procedimentos de abordagem de artistas que, marginalizados pelo mercado, criam e recriam constantemente formas de composição, comportamento e atitude.

“Tínhamos o desejo de pesquisar, não apenas de informar, a trajetória do Lanny Gordin”, disse Gregorio Gananian, realizador de “Inaudito”. No filme, ele segue o cultuado guitarrista – referência na Tropicália – numa série de performances e encontros propostos pela direção. “Quisemos achar uma polifonia, que é também algo característico do Lanny, fazendo o filme seguir vários caminhos, várias camadas. A câmera poderia ser uma metáfora pra ele”.

No caso de “Madrigal para Poeta Vivo”, a dupla Adriana Barbosa e Bruno Mello Castanho teve a dificuldade de ter que lidar com um personagem que morreu logo após as filmagens, em 2015. O escritor Tico era grande amigo da equipe, já tendo participado do curta “Ferroada”, exibido na Mostra Foco de 2017. “A gente tentou apresentar, no filme, as contradições e as fraquezas desse personagem tão instigante. Para conhecer a obra do Tico é preciso ler seus livros, pois um filme nunca seria suficiente”, exaltou Adriana. O codiretor Bruno Mello completou: “Ficamos apaixonados por esse personagem. Ele não buscava mostrar a essência etérea. Quebrar o elo com a matéria é o que o Tico conseguiu fazer no fim da vida”.

O bate-papo sobre os primeiros curtas da Mostra Foco contou com fortes posicionamentos sobre a crise política brasileira, a violência na periferia e a necessidade de maior representatividade negra nas produções de cinema. A cineasta Ana Julia Travia, de “Outras”, disse sentir-se ainda uma exceção como diretora negra num cenário de grande maioria branca, algo que ela tentou colocar em seu filme sob o viés também do feminismo. “Precisamos de mais cineastas negras. Eu não posso ser a cara da diversidade. É necessário termos volume de produção para conquistarmos os espaços”, comentou. “Quase desisti da universidade por não encontrar pares pra fazer o cinema que eu pretendia. Depois que me envolvi com o movimento negro na USP encontrei esse impulso para falar da representatividade negra”.

TODA PROGRAMAÇÃO É OFERECIDA GRATUITAMENTE AO PÚBLICO.

Foto:
Jackson Romanelli