Seleção de curtas-metragens da 21ª Mostra Tiradentes reflete momento efervescente na temática e na estética

Entre os 70 títulos que estarão no evento este ano, destaca-se a presença de questões urgentes nos rumos do país e o bom momento da produção de Minas Gerais e São Paulo

Seguindo a tendência dos últimos anos de dialogar diretamente com os acontecimentos políticos, econômicos e sociais da história recente do Brasil, a seleção de curtas-metragens da 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que acontece de 19 a 27 de janeiro de 2018 reflete, estética e tematicamente, um estado de acontecimentos no país. Crises de representação, racismo, sexualidade, opressão, liberdade, resistência, indigenismo estarão no centro da pauta do evento, tanto nas telas quanto nos debates.

A curadoria de curtas-metragens, feita pelos críticos e pesquisadores Francis Vogner dos Reis, Pedro Maciel Guimarães e Camila Vieira, selecionou 70 títulos de 15 estados: Alagoas(1), Bahia(2), Ceará(3), Distrito Federal(1), Espírito Santo(2),Goiás(4), Mato Grosso do Sul(1), Minas Gerais(19), Paraíba(1),Paraná(1), Pernambuco(7),Rio de Janeiro(9), Rio Grande do Sul(2), Santa Catarina(1) e São Paulo(16).

Os 70 curtas-metragens estarão distribuídos em nove mostras: Foco (cujos filmes concorrem ao prêmio do Júri da Crítica), Foco Minas (que destaca a produção mineira, estado que sedia o evento), Panorama, Chamado Realista, Praça, Regional, Formação, Jovem e Mostrinha.

A relação contém quantidade significativa de produções feitas em Minas Gerais (19), que estará na Mostra em grande peso, especialmente valorizada pela participação nas mostras Foco e Panorama e também na Foco Minas e na Regional. Com isso, valorizam-se as realizações do estado em suas diversas variantes e abre-se uma importante janela para filmes feitos no interior de Minas, que às vezes têm dificuldade de se fazerem visíveis em outros eventos.

Historicamente, o curta-metragem é um formato passível de experimentações de todo tipo, graças ao seu modo de produção. Com as novas tecnologias (câmeras digitais) e o barateamento de custos de produção, o curta vem se impondo como linguagem essencial do cinema brasileiro, já caminhando de maneira independente ao longa-metragem através de novas janelas de exibição. Geralmente muito atrativo ao público – devido à duração dos filmes e à possibilidade de se assistir a títulos variados numa mesma sessão –, o curta-metragem sempre teve em Tiradentes um tratamento especial na programação, ocupando boa parte da grade através das exibições e de debates com realizadores e espectadores dentro do Seminário do Cinema Brasileiro.

“A nossa seleção propõe um recorte de filmes com olhares cinematográficos bastante amadurecidos, atrelados à visceralidade de questões emergenciais do presente”, destaca Camila Vieira, integrante da comissão de seleção. “Seja conectados ao lugar da intimidade ou abertos a uma relação com o espaço público, os curtas convocam uma ousadia na elaboração formal, tanto pelo jogo ficcional quanto pelo documental”.

Para Francis Vogner, as temáticas de gênero, raça, representatividade e identidade sexual vêm pautando a produção contemporânea e se refletem nos filmes selecionados para Tiradentes em praticamente todas as mostras. “A maior parte dos curtas que estão no festival passam por alguma questão importante do nosso momento histórico, mesmo que ela não seja o centro da narrativa”, explica o curador. Outro curador, Pedro Maciel Guimarães, complementa: “O formato do curta-metragem parece estar sendo mais propício a repercussões rápidas de movimentos sociais brasileiros recentes, especialmente em relação a etnia e sexualidade. Talvez por ser feito com menos dinheiro, equipes menores e maior agilidade de produção, os curtas têm se apresentado mais efetivos no trato com as demandas urgentes”.

A seção Chamado Realista – que conta com os títulos “Bora” (RJ), de Angelo Defanti, “Mamata” (BA), de Marcus Curvelo, “Peripatético” (SP), de Jessica Queiroz, e “Universo Preto Paralelo” (SP), de Rubens Passaro (SP) – integra-se à temática geral da Mostra de Tiradentes deste ano. A ideia é levar à discussão o uso estético de elementos da realidade (muitos deles noticiados e conhecidos publicamente) dentro de uma estrutura ficcional ou documental que se constrói a partir de outros mecanismos de elaboração audiovisual. “Há algo de inusitado no que alguns filmes pretendem tornar visível diante da relação com o mundo”, afirma Camila Vieira.

O equilíbrio já característico da Mostra Tiradentes aparece na seleção, com a presença de títulos que vêm seguindo carreira bem-sucedida em festivais, como “Inocentes” (RJ), de Douglas Soares, “Tentei” (PR), de Laís Melo, e “Carneiro de Ouro” (DF), de Dácia Ibiapina, e de alguns iniciando suas trajetórias em grandes eventos, casos de “Calma” (RJ), de Rafael Simões, “Sr Raposo” (GO), de Daniel Nolasco, e “De Tanto Olhar o Céu Gastei meus Olhos” (MT), de Nathalia Tereza. Cineastas que já estiveram em Tiradentes em várias ocasiões anteriores – inclusive com longas-metragens – retornam com seus novos curtas, casos de Rafael Conde (“A Brincadeira”), Caetano Gotardo (“Merencória”) e Allan Ribeiro (“Quebra-cabeça de Sara”), que inclusive foi ganhador do Júri da Crítica na Mostra Aurora em 2015.

CONFIRA A SELEÇÃO DE CURTAS-METRAGENS DA 21a MOSTRA DE TIRADENTES

MOSTRA FOCO 

A RETIRADA PARA UM CORAÇÃO BRUTO, de Marco Antonio Pereira (MG)
CALMA, de Rafael Simões (RJ)
ESTAMOS TODOS AQUI, de Chico Santos e Rafael Mellim (SP)
FANTASIA DE ÍNDIO, de Manuela Andrade (PE)
FEBRE, de João Marcos de Almeida, Sergio Silva (SP)
IARA, de Erika Santos e Cássio Pereira dos Santos (MG)
INCONFISSÕES, de Ana Galizia (RJ)
OUTRAS, de Ana Julia Travia (SP)
PEITO VAZIO, de Yuri Lins e Leon Sampaio (PE)
SR. RAPOSO, de Daniel Nolasco (GO)

MOSTRA FOCO MINAS

A BRINCADEIRA, de Rafael Conde (MG)
OS QUE SE VÃO, de Clarissa Campolina e Luiz Pretti (MG)
O GOLPE EM 50 CORTES OU A CORTE EM 50 GOLPES, de Lucas Campolina (MG)
NADA, de Gabriel Martins (MG)
REGISTRO, de Daniela Santana (MG)
TODAS AS CASAS MENOS A MINHA, de Julia Baumfeld (MG)

MOSTRA PANORAMA

A BARCA DO SOL, de Leonardo Amaral (MG)
A ROTAÇÃO DA TERRA, de Matheus Sundfeld (SP)
AQUI DE VOLTA, de Gabriel Papaléo (RJ)
AVALANCHE, de Leandro Alves (AL)
INOCENTES, de Douglas Soares (RJ)
INTERVENÇÃO, de Isaac Brum Souza (GO)
MEMÓRIAS DE UM PRIMEIRO DE MAIO, de Danilo J. Santos (SP)
MERENCÓRIA, de Caetano Gotardo (SP)
O OLHO E O ESPIRITO, de Amanda Beça (PE)
O TAMANHO DA PEDRA, de Hélio Fróes (GO)
PONTE VELHA, de Victor de Melo (CE)
PONTOS CORRIDOS, de Julio Bezerra (RJ)
REPULSA, de Eduardo Morotó (PE)
SUBCUTÂNEO, de Carlos Segundo (MG)
SUPERPINA, de Jean Santos (PE)
SWEET HEART, de Amina Jorge (SP)
TENTEI, de Laís Melo (PR)
TERRITÓRIO DO DESPRAZER, de Maíra Tristão e Mirela Marin (ES)
VACA PROFANA, de Rene Guerra (SP) 

MOSTRA PRAÇA

CARNEIRO DE OURO, de Dacia Ibiapina (DF)
DE TANTO OLHAR O CEU GASTEI MEUS OLHOS, de Nathalia Tereza (MT)
FLECHA DOURADA, de Cintia Domit Bittar (SC)
LEONA ASSASSINA VINGATIVA 4 - ATRACK EM PARIS, de André Antônio e Paulo Colucci (PE)
NOVA IORQUE, de Leo Tabosa (PE)
O MENINO QUE FEZ UM MUSEU, de Sérgio Utsch (CE)
PELE DE MONSTRO, de Barbara Maria (MG)
QUEBRA-CABEÇA DE SARA, de Allan Ribeiro (RJ)
QUEM PERDEU O TELHADO EM TROCA RECEBE AS ESTRELAS, de Henrique Zanoni (SP)
SUDESTINO(S), de Germano de Sousa (CE)
VOCÊ CONHECE DERRÉIS, de Veruza Guedes (PB)

MOSTRA CHAMADO REALISTA

BORA, de Angelo Defanti (RJ)
MAMATA, de Marcus Curvelo (BA)
PERIPATETICO, de Jessica Queiroz (SP)
UNIVERSO PRETO PARALELO, de Rubens Passaro (SP)

MOSTRA FORMAÇÃO

AINDA NÃO, de Julia Leite (SP)
LATOSSOLO, de Michel Santos (BA)
MARIA ADELAIDE, de Catarina Almeida (RJ)
MEU NOME É CORACI, de Adan Sousa (GO)
O HOMEM DO SACO, de Christian Savi e Luiz Fernando Coutinho de Oliveira (SP)
RAIZ, de Andressa Matias Carvalho (SP)
REGRESSO, de Rafael Dornellas (SP)
SUPER ESTRELA PRATEADA, de Leonardo Branco (MG)

MOSTRA JOVEM

DESFRAGMENTO, de Helena Lukianski e Giuliana Heberle (RS)
NA ESQUINA DA MINHA RUA FAVORITA COM A TUA, de Alice Name-Bomtempo (SP)
SECUNDAS, de Cacá Nazario (RS)

MOSTRA REGIONAL

ALÉM DE PRETO, VIADO, de Lucas Porfírio (MG)
ANDERSON, de Rodrigo Meireles (MG)
LENÇOL DE INVERNO, de Bruno Rubim (MG)
MARIA CACHOEIRA, de Pedro Carcereri (MG)

MOSTRINHA

A ZEROPEIA, de Rodrigo Ribeiro Guimarães (MG)
CADARÇO, de Eduardo Mattos (SP)
DIÁRIO DE AREIA, Isadora Morales e Sarah Guedes (MG)
METAMORFOSE, de Jane Carmen Oliveira (MG)
NO CAMINHO DA ESCOLA, de Alunos do Projeto Animação (ES)

Foto: Divulgação/ Peripatético