Homenagem

 A PASSAGEM DE PASSÔ

Uma atriz é uma atriz, não uma atriz de cinema ou de teatro, de teatro ou de televisão. Assim deveria ser ao menos. As especificidades, mais que de meio, são de personagens. De obras distintas. De proposições. Porque uma atriz é uma mesma atriz e sempre uma outra atriz a cada novo trabalho e, dependendo do trabalho, a cada nova cena de uma mesma obra. Porque uma atriz é modulação, transfusão emocional e biográfica, mas em um mesmo corpo, às vezes modificado com artifícios ou de modo mais orgânico, mas um mesmo corpo, justamente aquele que, entre a ficção e a vida, serve como ponte e passaporte, unidade móvel e modulável, porém ainda unidade física.

Grace Passô, atriz homenageada na 22ª Mostra Tiradentes, é um só corpo, mas também muitos, muitas mulheres, todas com sua marca distinguível, cada uma única em si. Grace Passô não é ainda uma atriz imediatamente associada ao cinema, mas isso já começou a ser transformado e permanecerá sendo, porque está em alguns filmes prontos (Temporada, de André Novais Oliveira, pelo qual ganhou prêmio no Festival de Brasília, e No Coração do Mundo, de Gabriel e Maurílio Martins, e já está escalada para outros a serem realizados - entre os quais, o próximo de Cristiano Burlan). No entanto, a motivação de nossa homenagem não é ainda pelo conjunto de trabalhos em cinema, ainda poucos, mas a um futuro em gestação nas telas, a partir de um passado e de um presente de criações em teatro e outros palcos. 

Talvez seu trabalho de maior repercussão e prêmios tenha sido até agora o monólogo Vaga Carne, prêmio Shell de melhor dramaturgia, prêmio Questão de Crítica de melhor espetáculo e prêmio Cesgranrio de melhor texto, com sua presença condensada e expandida, que parte da interioridade íntima dos monólogos para a exterioridade física com o qual emoções e ideias são devassadas com consentimento e necessidade pelo corpo solitário no palco. E não só no palco. Porque, em monólogo ou em grupo, Grace é muitas. Graces são tantas. A atriz, a criadora, a diretora, a performer, a mulher, a mulher negra.

O palco havia rendido outros prêmios e muitos elogios antes de Vaga Carne em 2016/17, especialmente pela dramaturgia de Por Elise e Amores Sujos em 2005 e 2006, depois pela direção de Contrações em 2014. Grace Passô é uma criadora, não importa se na direção e na dramaturgia, porque, ao vestir o interior e o exterior de outras mulheres, em seu corpo, ela inventa vidas, presenças, modos de falar, de caminhar, de respirar, de olhar e de existir. Em um momento histórico no qual parte expressiva do país não vê futuro a frente ou vê futuro do qual se desviar, decidimos apostar e nos engajar em uma ideia de futuro, em uma expectativa de potências renovadoras e transformadoras, em um cinema de cores múltiplas, de pensamentos próprios e de desejo para arregaçar as mangas, sem deixar o espirito cabisbaixo abater a arte e artistas.

 Se é momento de olharmos adiante e de mantermos os corpos elevados, mesmo com todo o peso sobre eles e mesmo com espaços de liberdade vigiados ou reprimidos, optamos para a homenagem por uma atriz cujo corpo em sentido amplo começa a se expandir, começa a semear um futuro com muito batuque no sangue, com muita ginga na alma, com muita energia na mente, porque Grace, que é Passô, continuará a passar adiante, deixem ou não.

Cleber Eduardo
Coordenador Curatorial