HOMENAGEM - ANTÔNIO E CAMILA PITANGA

Camila e Antônio Pitanga - Homenageados 23ª Mostra Tiradentes
Crédito: Leo Lara/ Universo Produção

Para a Mostra de Cinema de Tiradentes o cinema contemporâneo não é só o mapeamento da produção atual, mas é também o reconhecimento e o redimensionamento da importância de artistas inspiradores, pelo vigor da sua trajetória ou por sua radicalidade criativa. Em muitas das edições passadas os homenageados e as homenageadas eram figuras de destaque no cinema brasileiro, sem obedecer a um padrão de homenagear alguém de carreira longeva ou emergente. As homenagens buscam dar destaque à força imaginativa de artistas que têm intervenção importante no rumo do cinema e da cultura no país. Por isso a 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes homenageia Antônio Pitanga e Camila Pitanga, pai e filha, dois atores profícuos, imaginativos, com uma importância para o nosso tempo e para o Brasil, dentro e fora das telas. 

Antônio Luiz Sampaio, ou Antônio Pitanga, foi um dos protagonistas da revolução do cinema brasileiro dos anos 60 e segue até hoje se reinventando. Camila Manhães Sampaio, Camila Pitanga, é sua filha, mas é também uma das atrizes mais populares do Brasil. Tem uma carreira na televisão com enorme sucesso, mas também faz cinema e trabalhou com versatilidade junto a diretores tão diferentes como Jorge Furtado, Rogério Sganzerla e Beto Brant. A família Pitanga também conta com mais um ator, Rocco, irmão de Camila e filho de Antônio.

 

ANTÔNIO PITANGA


Antônio Pitanga é o artista que melhor representa a mudança de paradigmas do cinema moderno brasileiro. Quando ele apareceu nos filmes baianos no início dos anos 1960 – Bahia de Todos os Santos, de Trigueirinho Neto, A Grande Feira e Tocaia no Asfalto, de Roberto Pires – a sua presença se impunha com energia nova e fulgurante com gestos e movimentos que destoavam  do ritmo mais moroso e tecnicamente marcado (calculado) dos atores até então em voga no cinema brasileiro. Não que não houvesse técnica no trabalho ator. Havia e havia muita, mas essa técnica acessava outros sentidos (sensações e significados) em uma performance que extrapolava o cálculo racional naturalista, afirmando o corpo e tudo o que ele traz junto em termos de memória e narrativa. A liberdade dos personagens de Pitanga era plena e na contramão da ordem. Entre os heróis do Cinema Novo, Pitanga era o único que de fato preconizava uma liberdade à revelia da violência cerceadora do mundo que ao qual os filmes se referiam. Ela estava no corpo. Era, e é, homem do passado, na insurreição contra a violência da escravidão, do presente, porque atento às circunstâncias, e do futuro, porque revolucionário. No trabalho de Antônio Pitanga essas temporalidades coexistem.

Junto com Helena Ignez e alguns outros atores, ele é cocriador do cinema moderno brasileiro, e o ator mais importante do Cinema Novo. Geralmente falamos de produtores e diretores como autores, mas geralmente se esquece que os atores e atrizes são ativos na criação. Dão corpo a um mundo. Dão ritmo. São coautores. Pitanga, em especial, impôs um estilo.

Pitanga (como Helena Ignez) fez a escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, na época um departamento de vanguarda, e foi parceiro de Glauber Rocha em Barravento (também em Terra em Transe, Câncer, Di e Idade da Terra). Fez filmes com Alex Viany, Cacá Diegues, Walter Lima Júnior, Sérgio Ricardo, Luiz Paulino dos Santos, Neville de Almeida, Fernando Campos, Carlos Reichenbach e Rogério Sganzerla. Mas também Beto Brant, Zelito Viana, Carlos Coimbra, Gianni Amico, Arne Sucksdorff. E dirigiu um filme: Na Boca do Mundo (1978). Aos 80 anos continua intenso e está presente em filmes lançados recentemente ou em finalização.

 

CAMILA PITANGA


Camila Pitanga, filha do ator Antônio Pitanga e da atriz e modelo Vera Manhães, é uma das atrizes de sua geração mais bem-sucedidas na televisão. Ela atuou em novelas e minisséries como Sex Appeal (que a lançou), Belíssima, Mulheres Apaixonadas e Porto do Milagres, no papel de Bebel, de lhe rendeu diversos prêmios.

Camila estreou cedo no cinema. Junto com seu irmão Rocco Pitanga (e também com a pequena e hoje cineasta Sabrina Fidalgo) foi uma das crianças do filme Quilombo, de Cacá Diegues (1984). Um papel pequeno, quase uma figuração, mas que integra um elenco histórico, pois contava com a maior parte dos principais atores negros no Brasil àquela época: Grande Otelo, Antônio Pitanga, Milton Gonçalves, Tony Tornado, Zezé Motta, Léa Garcia, Zózimo Bulbul, Waldir Onofre, Antônio Pompêo, Eduardo Silva, Markus Konká, entre outros. Posteriormente, já em papéis maiores, a trajetória cinematográfica de Camila Pitanga transita por praticamente todos os tipos de filmes realizados do Brasil desde a Retomada: um filme infantil (Super Colosso, de Luiz Ferré, 1995), uma comédia derivada de uma ficção televisiva (Caramuru, a Invenção do Brasil, de Guel Arraes, 2001), um drama histórico (O Preço da Paz, de Paulo Morelli, 2003)  e uma fábula grandiloquente sobre o impasse social no Rio de Janeiro (O Redentor, de Claudio Torres, 2004), esses dois últimos com marcas relevantes do chamado cinema da Retomada. Em Signo do Caos, de Rogério Sganzerla (2004), filme mais radical e deslumbrante de que participou, faz um pequeno e importante papel, “O furacão de Santos”, e em Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios, de Beto Brant (2011), ela tem seu papel dramático mais complexo. Em 2017 dirige, em parceria com Beto Brant, Pitanga, um documentário sobre seu pai, resgatando sua trajetória e mostrando por que ele é dos nossos principais atores modernos.

 

 

ANTÔNIO E CAMILA


Nos últimos tempos muito se fala dessa dívida do cinema brasileiro com seus artistas negrxs, da ausência de profissionais negrxs na frente e atrás das câmeras. Apontar essa ausência não é só um gesto crítico justo, mas urgente. Mas esse gesto de reconhecimento não será completo se não compreendermos, para além das ausências, as qualidades de presença. Antônio e Camila Pitanga homenageados juntos é a afirmação não só de trajetórias individuais, mas o reconhecimento da diferença – criativa, simbólica e política – que fizeram e fazem em suas criações. Reconhecer a centralidade de Antônio Pitanga no cinema moderno brasileiro, fazer uma prospecção sobre seu estilo para entender a sua contribuição estética e autoral é fundamental. No caso de Camila, que tem uma trajetória diferente de seu pai, é preciso entender o lugar que ocupa no imaginário do grande público, como também a diversidade e a força de seu trabalho como atriz. Em um momento de crise na imagem do país, de suas referências, de seus símbolos e de seus horizontes possíveis, Camila e Antônio Pitanga são as figuras nas quais deveríamos e devemos nos reconhecer. Os Pitanga têm uma autoridade que não é dada pelo poder oficial, mas pelas suas trajetórias e pela força de suas presenças na vida pública. Ambos são as referências de um país grande, preto, deslumbrante e imaginativo, de uma rebeldia combativa e alegre, de um Brasil para o qual deveríamos nos sentir vocacionados. Essa homenagem nos lembra que esse país pode ser – e é – melhor do que hoje a trama dos poderes e a burrice violenta e oficial tentam nos fazer crer.

 

 

FILMES | MOSTRA HOMENAGEM

OS ESCRAVOS DE JÓ (2020), direção de Rosemberg Cariry | Filme de Abertura – PRÉ-ESTREIA MUNDIAL

EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DE SEUS LINDOS LÁBIOS (2011), direção Beto Brant

NA BOCA DO MUNDO (1978), direção Antônio Pitanga

PITANGA (2016), direção Beto Brant e Camila Pitanga

 

Francis Vogner dos Reis
Coordenador Curatorial