{"id":873,"date":"2026-01-06T17:00:28","date_gmt":"2026-01-06T20:00:28","guid":{"rendered":"https:\/\/mostratiradentes.com.br\/?page_id=873"},"modified":"2026-01-07T14:08:01","modified_gmt":"2026-01-07T17:08:01","slug":"tematica","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/mostratiradentes.com.br\/2026\/o-evento\/tematica\/","title":{"rendered":"Tem\u00e1tica"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">SOBERANIA IMAGINATIVA<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos meses a palavra \u201csoberania\u201d foi resgatada com urg\u00eancia e orientou o debate p\u00fablico em torno da independ\u00eancia e da autonomia do Brasil. Soberania se refere ent\u00e3o \u00e0 independ\u00eancia pol\u00edtica e econ\u00f4mica. Al\u00e9m disso, a for\u00e7a do termo \u201csoberania\u201d evoca o poder supremo da vontade e da autodetermina\u00e7\u00e3o popular identificada com valores compartilhados amplamente em diversos setores da sociedade em todo territ\u00f3rio nacional, algo que nos \u00e9 \u00edntimo e comum, ainda que n\u00e3o tenhamos nos apropriado totalmente na nossa hist\u00f3ria longeva ou recente de suas possibilidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma vis\u00e3o retrospectiva do cinema brasileiro das \u00faltimas duas d\u00e9cadas \u00e9 poss\u00edvel&nbsp; elencar uma s\u00e9rie de iniciativas, obras, artistas, coletivos e produtoras que trouxeram uma renova\u00e7\u00e3o ampla das pr\u00e1ticas art\u00edsticas e colocaram ideias fortes e irradiadoras nessa dire\u00e7\u00e3o. Apontar somente \u201cartistas originais\u201d, \u201cfilmes inovadores\u201d ou sucessos pontuais n\u00e3o d\u00e1 a dimens\u00e3o do contexto que possibilitou a emerg\u00eancia desses novos paradigmas. H\u00e1 algo de mais profundo nas diversas din\u00e2micas de cria\u00e7\u00e3o que forjaram o que h\u00e1 de mais desafiador no cinema brasileiro atual e o esfor\u00e7o de reconhecimento dessa realidade tem sido uma das principais tarefas da Mostra de Cinema de Tiradentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a produ\u00e7\u00e3o que segue em uma pujan\u00e7a independente,&nbsp; al\u00e9m da retomada recente das pol\u00edticas p\u00fablicas e a nova realidade do audiovisual que passa, entre outras coisas, pela regula\u00e7\u00e3o das plataformas, entendemos que para circunst\u00e2ncias novas \u00e9 preciso fazer novas perguntas a partir de um cen\u00e1rio de multiplicidade rara. Em duas d\u00e9cadas o cinema brasileiro independente que testemunhamos dentro e fora de Tiradentes revelou tecnologias novas de cria\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o que respondem a contextos, sujeitos, circunst\u00e2ncias,&nbsp; territ\u00f3rios e cen\u00e1rios diversos. Estabelecem, por fim, uma nova imagina\u00e7\u00e3o, talvez mais influente do que percebemos e menos evidente do que gostar\u00edamos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa imagina\u00e7\u00e3o, diversa, vasta, muitas vezes inominada, serve como ao cinema brasileiro e ao Brasil? Como exce\u00e7\u00e3o? Como \u201cgueto de artista\u201d? Ou como possibilidade de construir um cinema que esteja \u00e0 altura dos desafios de sua \u00e9poca? Despertaremos para sua import\u00e2ncia quando perdermos a oportunidade hist\u00f3rica de dar a esse cinema (cinemas) condi\u00e7\u00f5es de continuidade? Ou ficaremos relegados eternamente ao estigma do cinema brasileiro que produz cineastas e filmes de exce\u00e7\u00e3o <em>for export <\/em>ou eventuais e hiper localizados sucessos de p\u00fablico?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um momento de redesenho do cen\u00e1rio geopol\u00edtico, de conflito, em um mundo que caminha para a multipolaridade pol\u00edtica e cognitiva, o desafio do Brasil \u00e9 tomar o protagonismo e a dianteira de constru\u00e7\u00e3o de um futuro diferente do ontem no mesmo passo em que nos apropriamos e damos continuidade \u00e0s nossas conquistas pregressas. Se n\u00e3o conduzirmos este processo soberanamente levando em considera\u00e7\u00e3o nossas \u201csofisticadas inven\u00e7\u00f5es brasileiras\u201d, na sua din\u00e2mica diversa, variada e complexa, corremos o risco de ficar para tr\u00e1s. O cinema brasileiro poder\u00e1 ser um exerc\u00edcio de nossa exuberante criatividade, um modo de pensar, propor novas possibilidades. O cinema pode ser um laborat\u00f3rio de nossa soberania imaginativa: uma imagina\u00e7\u00e3o livre, independente e ousada da\/na qual possamos produzir e usufruir com autodetermina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Cinema como laborat\u00f3rio da soberania<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde a Mostra de Cinema de Tiradentes temos repercutido algumas ideias a partir da imagina\u00e7\u00e3o forjada pelos filmes que programamos. Esses filmes comp\u00f5em um cinema que em sua maior parte \u00e9 pouco conhecido e isso muitas vezes se torna um contra-argumento em favor da hegemonia de um modelo massivo e de grande alcance. Mas \u00e9 not\u00f3rio que nessas quase tr\u00eas d\u00e9cadas passaram por Tiradentes diretores, diretoras, coletivos e produtoras iniciantes que muitas vezes foram vistos anedoticamente como exce\u00e7\u00f5es mi\u00fara ou semi-profissionais, mas que depois se tornaram paradigmas importantes do que pode ser chamado, na falta de um termo abrangente melhor, de ind\u00fastria audiovisual brasileira. Uma ind\u00fastria mais modesta, fragment\u00e1ria e pulverizada na sua imanente realidade material do que o hist\u00f3rico concentracionismo do setor desejaria. Indagamos na edi\u00e7\u00e3o passada \u201cque cinema \u00e9 esse?\u201d, pergunta que tratou de fazer um esbo\u00e7o de cartografia desse cinema complexo, diverso e pouco conhecido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cartografia desse vasto cinema \u00e9 mais semelhante a um arquip\u00e9lago do que a um continente. O arquip\u00e9lago n\u00e3o concebe ilhas isoladas, nem a totalidade, como sugere o \u201cpensamento continental\u201d (colonial) que tem somente uma paisagem como imagem. No arquip\u00e9lago as paisagens s\u00e3o m\u00faltiplas, como as paisagens do cinema tamb\u00e9m s\u00e3o m\u00faltiplas, din\u00e2micas e n\u00e3o tem a necessidade de um centro organizador. A figura do \u201carquip\u00e9lago\u201d aqui \u00e9 um meio para pensar a conjuntura sem impor uma unidade que neutralize as diferen\u00e7as e, no mesmo passo, se faz necess\u00e1rio pensar o interc\u00e2mbio maior ou menor entre essas ilhas. Fazer uma cartografia do arquip\u00e9lago seria pensar, delinear, analisar as formas, o trabalho, as dimens\u00f5es e os imagin\u00e1rios de filmes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que essa discuss\u00e3o tem a ver com soberania? Tudo. A uniformiza\u00e7\u00e3o plataformista exige um sistema de padr\u00f5es dram\u00e1ticos e est\u00e9ticos que pouco se distinguem dos resultados de um gerador da intelig\u00eancia artificial, programado para cruzar padr\u00f5es. E o que vemos no audiovisual brasileiro dos \u00faltimos \u00e9, cada vez mais, uma reconstru\u00e7\u00e3o da atividade no entorno do <em>streaming<\/em>. Para quem acompanha de perto o trabalho dos roteiristas brasileiros sabe quais os tipos de determina\u00e7\u00e3o e formata\u00e7\u00e3o de narrativas que vem dos escrit\u00f3rios centrais das plataformas em suas sedes nos Estados Unidos. Sabemos que a hegemonia econ\u00f4mica vem acompanhada de uma interven\u00e7\u00e3o (e um&nbsp; rebaixamento) na imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste \u00faltimo processo de programa\u00e7\u00e3o da Mostra de Tiradentes nos deparamos com muitos t\u00edtulos \u2013 n\u00e3o selecionados &#8211; que buscaram reproduzir regras e padr\u00f5es deste mercado e, obviamente sem as mesmas condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, muitos destes filmes soaram como parodias involunt\u00e1rias. A maior parte destes filmes, de or\u00e7amento m\u00ednimo, foram viabilizados por editais muito pequenos. O efeito prec\u00e1rio da condi\u00e7\u00e3o imitativa conduziu a resultados profundamente melanc\u00f3licos no cora\u00e7\u00e3o e no discurso dos filmes. Filmes como esses n\u00e3o s\u00e3o novidade no cinema brasileiro, por\u00e9m em 2025 que perspectiva de mercado objetos como estes possuem?&nbsp; \u00c9 dif\u00edcil imaginar que cultivem a quimera de encontrar lugar em um mercado determinado, entre outras coisas, pelo valor de produ\u00e7\u00e3o? \u00c9 curioso tamb\u00e9m que filmes com esse perfil procurem a Mostra de Tiradentes, festival que se notabilizou por dar visibilidade a filmes de outra orienta\u00e7\u00e3o, mais ligados ao que se convencionou chamar de <em>filme de auto<\/em>r. O que isso significa? \u00c9 cedo pra arriscar uma resposta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda que trabalhos como esses, e muitos outros, n\u00e3o sejam produzidos pelos agentes de mercado como grandes produtoras e plataformas de streaming, eles parecem tomados por uma l\u00f3gica estranha \u00e0s condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 materiais, mas tamb\u00e9m t\u00e9cnicas e subjetivas \u00e0s quais est\u00e3o identificados. Na disputa da imagina\u00e7\u00e3o \u2013 que conjuga ideias, repert\u00f3rio, desejos, sentimentos, proje\u00e7\u00f5es de futuro, possibilidade de interven\u00e7\u00e3o \u2013 o cinema brasileiro desde as primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX se depara com esse tipo de fen\u00f4meno. Hoje, claramente, existem circunst\u00e2ncias pol\u00edticas e tecnol\u00f3gicas particulares, mas esse constrangimento coloca&nbsp; novamente uma medida dram\u00e1tica \u00e0s&nbsp; nossas possibilidades imaginativas. Existe uma m\u00e1quina de padroniza\u00e7\u00e3o radical de filmes e consumidores. O espectador, tomado como consumidor selvagem, est\u00e1 na ponta desse processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil e no mundo houve tamb\u00e9m nessas d\u00e9cadas um reposicionamento sist\u00eamico da economia de mercado que se tornou gestora exclusiva de uma cultura que tinha\/tem como \u00fanico interessado o p\u00fablico consumidor cultivado na est\u00e9tica, nos valores e no modo de vida resultantes dos novos \u201ctempos do consumo\u201d. O cineasta e escritor Pier Paolo Pasolini identificou os primeiros movimentos desse cen\u00e1rio em uma d\u00e9cada antes do influxo semi\u00f3tico da sociedade de consumo. Viu nela uma padroniza\u00e7\u00e3o cognitiva e sens\u00edvel, um condi\u00e7\u00e3o existencial prec\u00e1ria, miserabilista e conformada, e por isso mesmo profundamente violenta. \u00c9 disso que tamb\u00e9m estamos falando, n\u00e3o s\u00f3 de dinheiro para gerar postos de emprego audiovisual brasileiro. \u00c9 preciso tomar a coisa pelo todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Repetimos aqui em Tiradentes a cada ano que o cinema brasileiro \u00e9 rico em possibilidades e muito c\u00e9lere em desperdi\u00e7\u00e1-las. \u00c9 uma quest\u00e3o cr\u00edtica, \u00e9 uma quest\u00e3o pol\u00edtica, \u00e9 uma quest\u00e3o econ\u00f4mica. A quest\u00e3o est\u00e1 para al\u00e9m da formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, reside na constru\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia refinada da nossa soberania. O Brasil, com sua grande complexidade, n\u00e3o cabe em vis\u00f5es reconciliadoras do mundo.&nbsp; Somos um dos pa\u00edses mais diversos cinematograficamente e mais prec\u00e1rios tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 importante lembrar que os filmes e outros produtos audiovisuais da produtora mineira Filmes de Pl\u00e1stico e o cinema do pernambucano Kl\u00e9ber Mendon\u00e7a Filho, para ficarmos em dois <em>ativos<\/em> do audiovisual brasileiro, n\u00e3o surgiram em laborat\u00f3rios e mesa de roteirista de grandes players, n\u00e3o obedecem \u00e0s prescri\u00e7\u00f5es das <em>engenharias&nbsp; do storytellings exigidas pelo<\/em> <em>mercado<\/em>, mas se fizeram no lastro da experi\u00eancia que conquistaram em um cinema artesanal: sem prescri\u00e7\u00f5es, exuberante na sua parcim\u00f4nia conceitual, de filmes que encontraram a sensibilidade do seu tempo e a pros\u00f3dia da vida comum em experimentos ficcionais s\u00f3 poss\u00edveis desde a liberdade de inven\u00e7\u00e3o. O que essas experi\u00eancias nos apontam com flagrante objetividade \u00e9 que a soberania no audiovisual brasileiro enseja novos marcos e modelos baseados em din\u00e2micas variadas de produ\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o, na expans\u00e3o e na diversifica\u00e7\u00e3o produtiva. A l\u00f3gica concentracionista baseada nas poucas empresas que reproduzem velhos modelos industriais verticalistas e que querem garantir sua sobreviv\u00eancia se aliando hoje ao poder econ\u00f4mico estrangeiro (como sugere Depend\u00eancia e desenvolvimento na Am\u00e9rica Latina, de Enzo Faletto e&nbsp; FHC) est\u00e1 na contram\u00e3o da soberania.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A produtora Filmes de Pl\u00e1stico e o cinema de Kl\u00e9ber Mendon\u00e7a Filho s\u00e3o dois exemplos entre v\u00e1rios. N\u00e3o s\u00e3o modelos. \u00c9 poss\u00edvel catalogar dezenas de experi\u00eancias de norte a sul do Brasil que, ainda que n\u00e3o tenham desfrutado do mesmo \u00eaxito de repercuss\u00e3o no Brasil e para al\u00e9m dele, deflagraram um sem n\u00famero de objetos audiovisuais \u00fanicos e que comp\u00f5em uma cartografia complexa das imagens brasileiras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Soberania e festivais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensemos desde nossa fra\u00e7\u00e3o no campo audiovisual: os festivais, como todo ambiente de mercado, tem seus espa\u00e7os disputados. Ali muitos cineastas se projetam e nesse circuito pequeno e limitado, ganham algum prest\u00edgio. Isso pode contribuir no levantamento de&nbsp; recursos para o pr\u00f3ximo filme, seu trabalho pode se tornar objeto de pesquisa acad\u00eamica, pode obter alguma fortuna cr\u00edtica, o programador ou o olheiro de festivais estrangeiros podem abrir as portas de um festival, de um laborat\u00f3rio ou de uma resid\u00eancia na Europa. \u00c0s vezes o desejo de ser visto pelos gringos \u00e9 mais forte do que o desejo de ser visto pelo p\u00fablico brasileiro. O p\u00fablico de um festival de sess\u00f5es gratuitas pode aplaudir o filme, mas prest\u00edgio provinciano na vis\u00e3o daqueles que prezam principalmente pelo agenciamento de suas carreiras n\u00e3o garante sobreviv\u00eancia em um mercado no qual o \u201cproduto brasileiro\u201d entra submetido e como exce\u00e7\u00e3o. \u00c9 o salve-se quem puder na luta por ser a exce\u00e7\u00e3o da vez. E toda exce\u00e7\u00e3o \u00e9 isolada, e no mercado europeu, TODA exce\u00e7\u00e3o precisa ser isolada.&nbsp; Quem faz cinema, do ponto de vista t\u00e9cnico e de valor cultural, s\u00e3o eles, n\u00f3s produzimos exce\u00e7\u00f5es. Por isso, a companhia de um par pode tornar o realizador uma exce\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria. A\u00ed \u00e9 o inferno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m tomar os espectadores e espectadoras como sujeitos&nbsp; ativos nas rela\u00e7\u00f5es com as obras, n\u00e3o como meros recept\u00e1culos de produtos padronizados.&nbsp; Audiovisual n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 entretenimento e comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 instrumento especulativo do pensamento. S\u00e3o ferramentas pol\u00edticas e de cidadania &#8211; haja visto o que os pontos de cultura produziram ao redor do pa\u00eds h\u00e1 alguns anos. \u00c9 um campo de possibilidades pouco explorado. Se o Brasil n\u00e3o pensar de maneira sofisticada e soberana num novo desenho para o desenvolvimento audiovisual, as big techs o far\u00e3o como tem feito com alguma tranquilidade. O resultado j\u00e1 conhecemos: hegemonia e&nbsp; domestica\u00e7\u00e3o cognitiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cinema brasileiro n\u00e3o est\u00e1 vocacionado para ser o cinema coreano dos anos 2000. E a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 falta de talento, amadorismo t\u00e9cnico dos quadros profissionais ou m\u00e1 vontade pol\u00edtica. Os problemas s\u00e3o \u201ccoisas nossas\u201d: no imagin\u00e1rio coletivo o <em>soft power<\/em> da fic\u00e7\u00e3o e os valores de produ\u00e7\u00e3o que tem como modelo alguns paradigmas televisivos e a ind\u00fastria norte-americana, subjugam a imagina\u00e7\u00e3o brasileira a tr\u00eas lugares:&nbsp; jogar com as regras, formatos, l\u00f3gica, tons e moral do j\u00e1 conhecido (os modelos industriais hegem\u00f4nicos) com pouca ou nenhuma autonomia de sentido e, nos casos mais ilustres, seria talvez poss\u00edvel pleitear um lugar disputado na mesa do cinema internacional;&nbsp; outra possibilidade \u00e9 se restringir ao gueto nobre e quixotesco do cinema artesanal vivendo marginalmente em poucas sess\u00f5es especiais e na programa\u00e7\u00e3o de festivais nacionais; a terceira possibilidade, entre outras muitas poss\u00edveis, \u00e9 decretar a fal\u00eancia dessa dicotomia t\u00edpica do velho industrialismo concentracionista e verticalista, pois temos experi\u00eancia o bastante para desenhar um novo modelo de desenvolvimento, baseado sobretudo nas experi\u00eancias locais e no seu \u00eaxito &#8211; por enquanto &#8211; est\u00e9tico e simb\u00f3lico.&nbsp; Experi\u00eancias essas que apostaram em novos modos para uma imagina\u00e7\u00e3o soberana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><strong>Francis Vogner dos Reis<\/strong><br><em>Coordenador curatorial<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SOBERANIA IMAGINATIVA Nos \u00faltimos meses a palavra \u201csoberania\u201d foi resgatada com urg\u00eancia e orientou o debate p\u00fablico em torno da independ\u00eancia e da autonomia do Brasil. 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