Nesses 25 anos da Mostra de Tiradentes a comédia de destaque foi Auto da compadecida, de Guel Arraes, em 2001, um sucesso e levou o prêmio do júri popular, na época o único júri do festival. O que ainda há de semelhante nas comédias  no cinema brasileiro de 2001 para cá é essa ponte entre o cinema e a televisão que é evidente na semelhança dos registros cômicos, no repertório, no elenco e nos profissionais envolvidos. Aposta-se na familiaridade de temas e personas e joga-se com a expectativa do público. O que mudou nesse período é que empresas produtoras independentes realizaram comédias que não se ampararam no universo ficcional da TV Globo, como é o caso de Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas, Transtornada Obsessiva Compulsiva, de Teo Poppovic e Paulinho Caruso, O Clube dos Anjos, de Angelo Defanti, Copa de Elite e Cabras da Peste, ambos de Victor Brandt. Ainda que alguns desses filmes possuam elenco conhecido da TV, eles possuem outros projetos estilísticos e dramatúrgicos. Curiosamente entre os realizadores que emergiram no cinema independente brasileiro (especificamente aquele que passou por Tiradentes), não vemos uma adesão à comédia, com a exceção de Aliança, “bromance” dirigido por Leonardo Amaral, Gabriel Martins e João Toledo, um filme muito interessante que não teve vida comercial.

Por isso, atentos ao cinema brasileiro como um todo, temos a oportunidade de agora lançar a atenção a essa produção. Os filmes que compõem a programação especial respondem por um lado ao perfil das exibições tradicionais na Mostra Praça ao apresentarem para um público grande  e heterogêneo – de várias idades e perfis – filmes com capacidade de diálogo amplo. Por outro, a ideia é exibir filmes recentes de apelo popular que passaram pelo circuito comercial distante da legitimação dos festivais. Um recorte curatorial como esse é inédito em Tiradentes. No caso da ação específica e presencial nesse mês de Abril, a seleção de filmes se deu, inclusive, por meio de convites, não de inscrições como acontece nas tradicionais edições da Mostra em janeiro.

A Sogra Perfeita, de Cris D’Amato, Nós Não Vamos Pagar Nada, de João Fonseca, Eduardo e Mônica, de René Sampaio e Cabras da Peste, de Vitor Brandt: três comédias com elenco conhecido do público da televisão e um romance baseado em uma canção popular compõem um recorte de produção estranho aos festivais brasileiros, pois esses filmes sequer passam à porta dos grandes festivais, incluindo aí aqueles abertos à produção mais robustamente comercial. No caso da comédia, esse é um gênero campeão de bilheteria no cinema brasileiro, muito visto pelo grande público, pouco visto por gente de cinema, sejam eles profissionais, críticos diletantes ou pesquisadores. O fato de um filme cair no gosto do “grande público” não é atestado de qualidade ou virtude dos filmes, mas é um fato cultural que apesar de movimentado por intensas e caras campanhas de marketing precisa ser examinado de perto. 

Não é raro ouvirmos alguém dizer “as comédias”, como se fossem todas iguais, como se fossem todas laranjas da mesma qualidade em um único balaio. É possível conceber esse segmento de  filmes como produtos de uma massiva série de estratégias criadas em salas de roteiro e determinadas pelo mercenarismo empresarial das grandes empresas, feitas a partir de um conjunto cerceador de regras. Essa percepção generalista muitas vezes não dá conta do fenômeno porque padrões estéticos e regras narrativas também se dão em títulos do cinema dito independente de festival. Códigos e regras de outra ordem, com outras características, respondendo a demandas distintas dos filmes mais ordinários, mas ainda sim “códigos e regras”. O lixo comercial e a fraude artística não são tão distintos entre si. 

O que há de mais interessante em alguns desses filmes dito comerciais é quando alguns gestos furam as expectativas e seus padrões de produção, quando algo extrapola suas estratégias narrativas. Esses filmes, essas comédias, são de fatos só produtos empresariais ou incontornavelmente (à revelia da sua natureza de produto) eles estão no lastro de uma tradição brasileira que não foi criada pela Globo e nem pelos escritórios dos principais “players” nacionais? Há casos e casos.

Por exemplo: Nós Não Vamos Pagar Nada, dirigido por João Fonseca, com Samantha Schmutz e Edmilson Filho. É uma comédia marcada pelo estilo das comédias contemporâneas brasileiras para o cinema e que traz um traço televisivo no carisma do elenco e no temperamento cômico encenado. Porém, é uma comédia suburbana, com personagens às voltas com questões materiais (o dinheiro limitado que não dá pras compras), ou seja: nos remete à tradição das comédias suburbanas cariocas tão caras ao cinema brasileiro desde os anos 1950 e que liga o sentimento popular ao carisma e talento (indissociáveis) do elenco. A dona de casa revoltada com o valor das coisas no mercadinho gera uma bagunça ao sugerir, e realizar, um saque ao mercado.  O diretor do filme João Fonseca dirige sitcons na Globo e tem uma experiência com teatro musical brasileiro e fez peças musicais sobre Cazuza e Tim Maia. É um encenador experiente em lidar com o sentimento e o repertório popular e encená-lo. Percurso coerente com a tradição da comédia brasileira no cinema que teve em seus quadros desde a  chanchada profissionais que se fizeram no teatro de revista carioca. Um detalhe relevante: o filme é baseado na peça “Non si paga, Non si paga”, de Dario Fo, dramaturgo  leitor de Brecht e Marx, e por mais que o filme tome caminhos diferentes do original de Fo, ainda mantém a lógica da sátira materialista. Ou seja: o espírito desse filme tem a ver com De Pernas pro Ar? Minha Mãe é uma Peça? Os Penetras? Um Suburbano Sortudo? É diferente. Para fazer as distinções é preciso conhecer os filmes nos seus olhares e escolhas no que constitui as regras de seus mundos e personagens. A empiria em arte é fundamental, sem ela impera o juízo abstrato, geralmente eivado de preconceitos.

O filme A Sogra Perfeita, que abre a programação, é dirigido por Cris d’Amato e protagonizado pela Cacau Protásio, que é um grande talento com um carisma raro. Cacau faz a cabeleireira divorciada Neide que tenta se livrar do filho arranjando um casamento. Paradoxo curioso e brasileiro: o desejo legítimo por se libertar de um papel  que é relegado à personagem mãe de família se cruza com uma estratégia ultra-tradicional de “arranjar um casamento” pro filho adulto. Podemos aproximar o filme da TV por causa do elenco e de uma verve cômica estridente, mas é uma comédia tradicional do cinema brasileiro com piadas de duplo sentido, caracterizações pitorescas, personagens suburbanos se virando como podem, um texto e uma prosódia ativados pelo imaginário de valores e expectativas contemporâneos. Que valores e expectativas são esses? Quais demandas de representação que A Sogra Perfeita contempla? Como se dá sua estridência cômica? Seria essa comicidade mesmo “televisiva” ou essa estridência está nas performances da vida cotidiana brasileira e nosso cinema há muito tempo?

Cabras da Peste, por sua vez, estreou na Netflix e estilisticamente não tem parentesco com sitcom ou teatro revista, nada a ver com a comédia carioca com a grife do Projac. É produzida pela Glaz, produtora paulista responsável por outras comédias de sucesso como Cine Holliúdi 1 e 2 e Tô Ryca.  O filme dirigido por Vitor Brandt é um filme do subgênero “buddy cop”, comédia policial em que o humor surge da diferença de temperamento da dupla protagonista, aqui interpretada por Matheus Nachtergaele e Edimilson Filho, comediante cearense que também estrela Não Vamos Pagar Nada, presente na programação. Entre São Paulo e Ceará o filme o humor se faz na disfunção da dupla e no choque entre as caracterizações do humor do Ceará e de São Paulo, na história do policial Bruceuilis que vai atrás da cabra Celestina, roubada e levada para São Paulo. É o filme da programação que vem desse seara dos filmes brasileiros realizados para o streaming, realidade de produção que, sabemos, impõe padrões de produção aos seus produtos. Mas em que sentido um filme de carisma tão evidente quanto Cabras da Peste é uma exceção em uma realidade de produção? Ou, na contramão, como essa realidade condiciona sua qualidade e eficiência? Ou a arte do filme seria sua resiliência criativa no trato com as expectativas de um gênero popular no mercado?

Eduardo e Mônica, de René Sampaio, não é uma comédia, mas seu apelo popular está na sua origem que é a canção popular homônima da Legião Urbana, um tipo de projeto comum no cinema brasileiro brasileiro que já se inspirou em canções como Menino da Porteira, Amada Amante e Faroeste Caboclo, este que gerou o primeiro longa do brasiliense René Sampaio que também se baseou em música de Legião Urbana. O filme se desenvolve segundo a narrativa da música da banda em um romance conhecido entre uma mulher mais velha (Alice Braga) e um rapaz recém-saído da adolescência (Gabriel Leone) a partir de seus contrastes. O humor constitutivo da canção original é substituído por uma feição mais dramática. Eduardo e Mônica é a décima bilheteria do ano no Brasil até o momento e a terceira bilheteria brasileira atrás de Mônica Lições e Tô Ryca 2.

Além do objetivo de lançar um olhar mais interessado a esses filmes que visam o grande público, essa ação em Tiradentes também prima pelo ineditismo de levar filmes brasileiros recentes de sucesso considerável a uma cidade que não tem cinema. Em um momento como 2022 em que retomamos uma reflexão/projeção de um outro futuro possível do cinema brasileiro, é preciso ver, conhecer e avaliar esses trabalhos que possuem de saída condições para buscar um público maior. E, a partir daí, imaginar circunstâncias econômicas que tornem possíveis uma capilaridade maior de um cinema popular brasileiro junto ao público e que não depende somente dos grandes players de mercado.

Francis Vogner dos Reis

Coordenador Curatorial

LONGAS AÇÃO PRESENCIAL