25 ANOS DA MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES: AURORA EM 26 FILMES

Os nove primeiros anos da Mostra de Tiradentes, de 1998 a2006, consolidaram o festival como a vitrine mais ampla e diversificada do cinema brasileiro em Minas Gerais. O encontro entre crítica, público e realizadores nas exibições na Tenda e na Praça, os debates, a programação para as crianças e as oficinas se estabeleceram como as pedras fundamentais do festival que seguem hoje e atendem públicos diversos.

Porém, foi em 2007 que a curadoria, agora com Cleber Eduardo à frente, começou a organizar de modo mais sistemático o que seria uma “nova geração” que se formava naquele momento. Essa geração veio num momento histórico particular: por um lado, a tecnologia digital deu condições para jovens realizadoras e realizadores, sobretudo fora do eixo Rio-São Paulo, fazerem seus filmes sem o auxílio dos editais oficiais, criando modos de produção alternativos à produção de caráter mais industrial. Influenciados pelos procedimentos de criação da videoarte e de parte do cinema contemporâneo parcialmente artesanal, as formas e os modos se disseminaram por meio de cineastas e coletivos que àquela altura não tinham acesso aos editais na maior parte de seus trabalhos. Por outro lado, havia também o resultado da diversificação dos editais da política para o audiovisual de anos anteriores. Essas foram as condições históricas materiais e concretas do nascimento de filmes que mudariam os modos e as expressões do cinema na década seguinte.

A dificuldade de se fazer um recorte para uma retrospectiva de 25 anos é grande. Escolher quais entram na programação é também abrir mão de outros e isso tem sempre algo de arbitrário. A importância dos filmes ano a ano nunca se deu (e não se dá) pelo destaque isolado de um título: eles se tornaram importantes não só por suas singularidades, mas também por comporem um contexto junto a outros filmes.

Tendo isso em vista, quais os critérios para fazer um recorte dos 25 anos da Mostra de Cinema de Tiradentes? Sabendo que a Mostra de Tiradentes existe desde 1998, fazer um apanhadão não seria possível porque a lógica seria a dos “melhores” ou dos “mais importantes”, determinações, ao fim e ao cabo, de gosto pessoal, ou uma repetição automatizada de “novos cânones” e etc.

Portanto, fizemos esse recorte que nasce com o desejo de “organização de uma geração”, geração que começa a se configurar curatorialmente em 2007. É importante dizer que Tiradentes não esteve sozinha nessa empreitada, e festivais como a Mostra do Filme Livre, a Mostra Cinema de Garagem, Semana dos Realizadores, Janela Internacional do Cinema, Panorama Coisa de Cinema, Cine Esquema Novo e Novíssimo Cinema Brasileiro, entre outros, também estiveram atentos a essa emergência.

Se uma geração é definida mais ou menos por um ciclo de dez anos, a ideia aqui, então, é pensar o percurso de uma década a partir de filmes que estrearam e nasceram na Mostra de Cinema de Tiradentes durante uma década. Muitos deles primeiro ou segundo longa e por isso, com exceção de 2007 (a Mostra Aurora começa em 2008), os filmes que compõem a retrospectiva participaram da Mostra Aurora até o ano 2017, em que o país pós-golpe já estava em vigor com seus traumas e seus levantes.

Algo que grita nas seleções entre o pré-Aurora em 2007 até aAurora da 20ªedição em 2017 é a quase total ausência, ou a baixa incidência, de cineastas negros e negras, indígenas, mulheres e LGBTQIA+. A que isso se deve? Pouca sensibilidade curatorial às emergências de novos sujeitos históricos? Sim, sem dúvida, se quisermos circunscrever a questão ao poder curatorial. Há outras variantes que precisamos levar em consideração. A primeira é que o cinema brasileiro sempre teve em seus quadros poucos homens e mulheres negros e negras. Poucas mulheres em posição de liderança criativa (na direção). O cinema como atividade de classe média e média alta e majoritariamente branca era muito timidamente um instrumento na mão de sujeitos mais fragilizados. O cinema queer era muito pequeno e restrito a um segmento e sem grande participação na arena do cinema contemporâneo brasileiro, assim como o cinema dos povos indígenas, que desde os anos 1990 era também mais restrito a um circuito que raramente tomava lugar nos festivais tradicionais, se não fosse dirigido por um branco, o mesmo com o cinema da periferia, muitas vezes exclusivamente vinculado às oficinas de ONGs ou associações. Não dá pra dizer que todos esses segmentos não existiam. Existiam, mas a importância era diminuta no campo hegemônico de visibilidade. Estão aí há muito tempo e é preciso conhecer e mapear essas produções. Mas o fato é que havia e há (em menor grau) uma grande fragmentação com argumentos variados que justificavam essa apartação: argumentos técnicos, profissionais, de critério (arbitrário) de qualidade.

Isso tudo é fato incontestável e essas lutas na última década saltaram à frente, abrindo espaço de maneira enérgica, articulada e organizada por meio da ação de cineastas, pesquisadores, curadores e professores. A questão é que na hora de fazer um recorte da programação da Mostra Aurora, essas ausências ou participação tímida de cineastas de classes mais fragilizadas, não brancos, mulheres e LGBTQIA+ são muito evidentes. Isso tem a ver também com a realidade de todo o campo de cinema brasileiro que começou a mudar muito recentemente devido às exigências de espaço, voz e visibilidade das militâncias, mas também da ação das políticas públicas de editais e políticas afirmativas dos governos petistas nas universidades, mudando o corpo discente dos cursos universitários.

Tendo essa realidade histórica em vista, portanto sem ignorá-la, olhemos para os filmes que passaram pela Mostra de Tiradentes durante os dez anos, de 2007 a2017, período de consolidação de uma geração. Há muito a se ver, rever e entender neles. Eles inventaram ou se apropriaram de novos modos expressivos e novos modos de produção, revelam paisagens, temas e poéticas. Refletem as mudanças tecnológicas emancipadoras, a descentralização da produção antes restrita ao eixo Rio-SP, ampliam o diálogo com outras artes e com as tradições modernas do Brasil. Renovam o trabalho estético em diálogo com o cinema contemporâneo internacional. Em suma, dão imagem ao Brasil das últimas duas décadas, seu imaginário, mas também os seus limites. É importante também olhar para os limites e contradições, confrontá-las e, talvez, entendê-las um pouco, porque uma curadoria ajuda a dar a ver os filmes, sua força, mas também as suas (as nossas) contradições. Se uma curadoria se limitasse à legitimação e à função gatekeeper, estaríamos de acordo com a dinâmica de do capitalismo tardio que não admite a contradição, porque a contradição que não é possível gerenciarcomo positividade relativa não logra êxito no mercado.

Curiosamente, algumas muitas curadorias que pensaram a década de 10 do século XXI se centraram muito mais nas novas, e incontornáveis, emergências do cinema brasileiro desde 2017, deixando de fora parcialmente o processo de filmes, coletivos e cineastas da primeira metade da década. Essa questão também nos instiga a refletir sobre esses anos aqui em destaque que forjaram novos modos de produção, autorias compartilhadas e poéticas que criaram um lastro para o que viria a seguir. Um público de 20 a 30 anos que hoje está no cinema vendo filmes, fazendo filmes, pesquisando e escrevendo não conhece muito desses títulos e da sua importância histórica do ponto vista técnico, estético, poético e político.

Assim, para a Mostra Retrospectiva 25 anos, escolhemos obras que estrearam na Mostra de Cinema de Tiradentes. Filmes diferentes, de cineastas que posteriormente teriam percursos distintos. Começamos com cineastas remanescentes da geração dos anos 90, como Hilton Lacerda e Lírio Ferreira, e vamos até um filme emblemático das transformações do cinema brasileiro e ainda pouco visto, Subybaya, de Leo Pyrata.

Dividimos por anos, não por agrupamentos temáticos, porque a ideia é olhar para essa linha do tempo e tentar apreender algo sobre o percurso dos filmes e das suas expressões.

Leia o texto completo do Coordenador Curatorial Francis Vogner dos Reis aqui.