DUAS FRONTEIRAS DA CRIAÇÃO AUDIOVISUAL

Em uma visada geral, a percepção é de que muitos filmes que compõem a programação poderiam estar presentes da Mostra Temática deste ano. A experimentação do cinema com outras artes e a difusão por atuais plataformas digitais os qualificariam para trazer uma discussão nova como sobre a imagem e o ofício criativo. Essa percepção nos moveu a fazer um recorte mais preciso e no qual os filmes fossem mais diretamente ao cerne da questão. Este ano a Temática Cinema em Transição elabora sobre as fronteiras do cinema e as práticas que não são novas, mas que no lastro desse nosso processo histórico dos últimos anos, em especial o episódio da pandemia, ganham outra dimensão.

Diário Dentro da Noite é obra total de Chico Díaz. É dele o roteiro, a direção e a atuação; filme realizado durante a pandemia em que testemunhamos o ensaio dos textos de A lua vem da Ásia,de Campos de Carvalho, peça que posteriormente foi encenada em transmissão online. Mas aqui não temos o espetáculo teatral, mas uma mise-en-scène de cinema, enquadramento, profundidade e a modulação de tempo. O cenário é seu espaço de intimidade com as pinturas que faz, os afazeres domésticos e o laboratório de seu personagem nas leituras e declamações dos textos. Performance da palavra: corpo e palavra nele parecem uma coisa só. O processo e o esboço elaboram a figura. Um feliz encontro entre os procedimentos de um ator na construção de um personagem e o aparato cinematográfico.

Se o laboratório doméstico de Díaz sugere um tommais sereno na realização do esboço de sua peça, a série Hit Parade, criada por André Barcinski e dirigida por Marcelo Caetano, desenvolve uma ficção em ritmo célere que se passa nos bastidores da indústria fonográfica e da televisão nos 1980, que primava pela fabricação em série de artistas e discos. A série se passa em Belo Horizonte, com equipe e elenco da cidade, e investe na figura da precariedade da indústria cultural no Brasil à época. Mais do que os filmes brasileiros de longa-metragem, em Hit Parade (episódios 1 e 2) temos o parentesco com tradições cinematográficas do moderno: os interiores extravagantes e modestos dos musicais de Watson Macedo, o temperamento queer do cinema de José Antônio Garcia e o melodrama da crueldade fassbinderiano e uma pontinha de folhetim. A série é uma soma sofisticada e galhofeira com uma comunicação que raramente o cinema brasileiro contemporâneo de longa-metragem possui. Entre o experimento artesanal teatral e a série autorreflexiva sobre a indústria cultural, o audiovisual adota caminhos alternativos de criação de imagens. É preciso olhar para essas experiências e entender o que elas nos indicam.

Francis Vogner

Lila Foster

Curadores

LONGAS

O VIGOR INVENTIVO DE UM CINEMA EM TRANSIÇÃO

A Mostra Temática reúne, em duas sessões, curtas-metragens que articulam sensibilidades em experimentos narrativos que endereçam questões contemporâneas –políticas, econômicas e sobretudo estéticas –de um cinema em transição. A fragilidade, o risco, as complexidades e alguns caminhos possíveis para existência das imagens e sons que se endereçam a nós e a um futuro incerto se apresentam nestes nove filmes.

As sessões trazem linhas de força que nos possibilitam refletir sobre a condição de existência desses e de tantos outros filmes no atual paradoxo de um cinema brasileiro –e de todo o campo da cultura no país –ameaçado, fragilizado e que ainda assim mantém seu vigor inventivo. Sem romantizar a precariedade dessa condição, os filmes aqui reunidos se constroem por vários caminhos: seja na aproximação do cinema com outras artes (cênicas, visuais), na organização em torno da própria impossibilidade de se fazer cinema, de existir, enfim, com dignidade neste momento, revisitando memórias ou questionando e fabulando existências possíveis. Encaram o abismo e tiram de lá nossos traumas, nossas entranhas e algumas centelhas de esperança.

Do Amazonas, 521 Anos | Siia Ara, de Adanilo, é uma videoperformance em que o corpo do artista indígena agoniza acamado no meio de uma floresta cercada por objetos que simbolizam a história da colonização no Brasil.

O documentário Voz na Escuridão, de José Hélio Neto, é uma conversa franca e afetuosa na perspectiva de um jovem realizador sobre questões que ficam à margem dos debates sobre cinema: o apoio familiar que muitas vezes é tão importante quanto o fomento à produção. O filme é realizado a partir de Hortolândia, em São Paulo.

Qual é a Grandeza?, do diretor baiano Marcus Curvelo, é um documentário performático e imaginativo onde são colocados em discussão o valor, material e artístico da produção audiovisual, e a autoridade da figura do realizador perante o mundo que retrata.

Realizado no Sul da Bahia, Tenho Receio de Teorias que Não Dançam, de Gau Saraiva, evoca a fragilidade e a potência da existência travesti e, por meio da performance de Dodi Leal, inscreve na paisagem instável do mangue e num horizonte de imagens possíveis a inevitável posicionalidade do pensamento e do imaginário, desconstruindo a ficção do sujeito universal do conhecimento.

Centelha, documentário vindo do Acre e dirigido por Renato Vallone, aborda o contexto pandêmico através do delírio de um homem que ritualiza e somatiza no corpo as dores da fome, do desespero, da história de um país abandonado à própria sorte.

Já em Mutirão –O Filme, o cineasta paulista Lincoln Péricles dá continuidade a seu projeto de cinema nas áreas do Capão Redondo, ativando a memória das construções dos espaços urbanos através de um diálogo solene praticado entre o realizador e sua sobrinha, unindo o gesto da infância a uma história praticada pelo dispositivo.

No delicado e poderoso experimento Rua Ataleia, o cineasta mineiro André Novais Oliveira retoma de forma criativa o princípio básico do claro e escuro, utilizando imagens de sua própria família, para falar sobre afeto, intimidade, a tentativa de manutenção e inevitável perda da memória.

A concepção, criação e performance Camboa, de Bruno Moreno, coloca um corpo a descansar em uma rede armada sobre um braço de mar frequentado por pescadores no Piauí e onde a maré enche em dia de lua cheia.

Indução ao Processo de Autodesconhecimento00001, da multiartista pernambucana Aoruaura, investiga as diferentes deformações da imagem de um corpo, por meio do espaço dilatado e da reflexão sobre o tempo da memória.

Por fim, Yãy Tu NũnãhãPayexop: Encontro de Pajés, dirigido por Sueli Maxakali, abre um novo caminho em suas imagens através da frontalidade com que expõe um momento tão ímpar vivenciado pelas tribos indígenas aos olhos nus do espectador, intensificando o poder de seu discurso e reavaliando constantemente os códigos de um cinema que se apresenta em constante mudança e alteração.

Camila Vieira

Felipe André Silva

Tatiana Carvalho Costa

Curadores

Curtas | Série 1

Curtas | Série 2