DIFERENTES FORMAS DE CRIAÇÃO NO CINEMA BRASILEIRO

A primeira sessão da Mostra Panorama começa com Transviar. O documentário tem direção e roteiro de Maíra Tristão. Realizado em película, o curta nos apresenta Carla da Victoria, uma mulher trans artesã que leva adiante a tradição das paneleiras de barro do Espírito Santo. Dirigido por Perseu Azul, o curta Dois Boisse organiza como uma fábula trágica, mas é atravessado pela insurgência feminina na dureza do conservador Sertão mato-grossense. 

Na tradição dos documentários observativos, UmaEscola no Marajó, dirigido por Camila Kzan, nos aproxima do cotidiano de estudantes, famílias e educadores, do tempo das águas, da burocracia na precariedade e de um aprendizado possível e poético. A sessão termina com Curupira e a Máquina do Tempo, dirigido por Janaina Wagner, um experimento que incorpora uma lenda e a própria memória do cinema brasileiro para expurgar, por meio da fabulação, uma chaga civilizatória no meio da Amazônia.

A segunda sessão da Panorama abre com Colmeia, de Mauricio Chades. Um experimento narrativo, realizado em Brasília, que escuta atentamente as memórias e desejos de uma mulher recém-libertada da prisão. Em Sangue por Sangue, de Ian Abé e Rodolpho de Barros, as tensões entre um grupo de bandidos explodem em violência no silêncio da noite. Vindo do Ceará, o curta Coração Sozinho, de Leon Reis, acompanha dois seres em sua viagem pelo espaço-tempo e seu encontro com afetos de outros tempos, que podem impactar sua missão.

No curitibano Quarentena, de AdrielNizer e Nando Sturmer, mãe e filho vivem os horrores da quarentena de uma forma que atravessa a paranoia e se materializa num pesadelo real. Romance, produção carioca e mineira da diretora Karine Teles, observa outro tipo de pesadelo: aquele de um mundo misógino e violento que tenta dominar uma mulher e seus desejos. Vindo do Rio Grande do Sul, o curta OsDemônios Menores, de Iuri Minfroy, encerra a sessão com uma clássica trama de horror, em que o interior de uma floresta esconde segredos e perigos não imaginados.

A terceira sessão Panorama tem início com Manhã de Domingo. Num flerte com o cinema de gênero, o curta dirigido por Bruno Ribeiro traz uma jovem pianista que precisa lidar com um sonho-memória que a conecta com a falecida avó às vésperas de seu primeiro grande recital. Possa Poder, dirigido por Victor Di Marco e Márcio Picoli,organiza, numa narrativa ficcional, performances, fabulações, cotidiano e afetos de pessoas com deficiência.

Com direção de Lara Kim, Jib contrapõe o equilíbrio e o rigor na composição das imagens micromodificações cotidianas e às instabilidades de relações entre mães e filhas de três gerações em uma mesma família de origem coreana. A sessão termina com Bicho Solto, dirigido por Dayse Barreto, que traz modulações de uma vivência sem compromissos com padrões de clausura do feminino durante a quarentena.

A sessão Panorama 4, intitulada Mestres, Comunidades e Saberes Populares, é formada exclusivamente por filmes realizados com recursos da Lei Aldir Blanc (LAB), auxílio emergencial da cultura que tornou possível, por meio de prêmios, editais e chamadas públicas, a execução de projetos culturais em diferentes municípios brasileiros. Dos 919 curtas inscritos na Mostra de Cinema de Tiradentes, 179 foram viabilizadospor meio da LAB, alcançando cerca de 20% do total. Pensando na atual conjuntura das políticas públicas no Brasil, a equipe de curadoria selecionou 17 curtas feitos com recursos da LAB, que estão espalhados pelas diferentes mostras que compõem a grade de programação.

Para abrir a sessão exclusiva com curtas da LAB dentro da Panorama, o documentário Cabocolino, de João Marcelo, mergulha nos saberes populares de Seu João de Cordeira, mestre do Bloco de Caboclinhos do Sítio Melancia, no município de João Alfredo, interior de Pernambuco. Na sequência, o documentário Alagbedé, de Safira Moreira, aborda o cotidiano de José Adário dos Santos e seu processo de criação de ferramentas de orixá em sua oficina de ferro-velho, nos arcos da Ladeira da Conceição da Praia, em Salvador.

De Belo Horizonte, Angu Recheado de Senzala, de Stanley Albano, mistura documentário e ficção em uma proposta que resgata a história do pastel de angu, patrimônio da cultura mineira, e de que modo sua origem está relacionada à escravidão de negros e negras no Brasil. A sessão encerra com Curió, de Priscila Smiths e P.H.Diaz, que partilha as vivências de moradores de um bairro que nasceu de um mutirão, na periferia de Fortaleza. 

A quinta sessão da Panorama começa com o curta experimental paulista Tereza Josefa de Jesus. Dirigido por Samuel Costa, o filme acompanha a trajetória do luto de Juliana Jesus, que perdeu a mãe por negligência médica. Vindo de Minas Gerais, o curta Tito, uma VideóperaPop do Cerrado Mineiro em Chamasinspira-se no clássico Tito Andrônico, de William Shakespeare, para construir uma videodança enérgica e caótica que discute a violência na contemporaneidade. No pernambucano Sad Faggots + AngryDykes Club, ViqViçVic faz um relato confessional sobre suas questões e vivências num corpo que resiste às conformidades de gênero.

Também vindo de Pernambuco, o curta Viver Distrai, de Ayla de Oliveira, acompanha um casal de namoradas criando sua própria celebração às vésperas do Carnaval, que foi cancelado pela pandemia. A sessão é concluída pelo impactante filme carioca Usina-Desejo Contra a Indústria do Medo, com direção de Clarissa Ribeiro, Lorran Dias e Amanda Seraphico. Tomando como ponto de partida a precarização da produção audiovisual no Brasil, a narrativa abraça o místico e o espiritual e se transforma de maneira surpreendente.

A Mostra Panorama encerra com a sessão Cinema e Artes Cênicas, que é formada por três curtas-metragens de São Paulo que elaboram intersecções entre cinema, teatro e dança. Labirinto, de Henrique Zanoni, propõe uma encenação a partir dos textos da poeta Sophia de Mello BreynerAndresen. O curta foi realizado em parceria com a Cia. dos Infames e a Cia. Dramática em Exercício.

Com o coletivo teatral Os Crespos, Dois Garotos que se Afastaram Demais do Sol, de Cibele Appes de Sousa Coelho, é inspirado na vida dos boxeadores afro-caribenhos Emile Griffith e Benny Kid Paret. A dançarina Larissa Ballarotti transpõe para o cinema seu espetáculo homônimo Abominável, curta codirigido com Cris Lyra, que finaliza a sessão. Em cena, Larissa interpreta textos das autoras Natalia Ginzburg, Wislawa Szymborska, Ana Cristina Cesar, Sylvia Plath, Katherine Mansfield e Audre Lorde.

Camila Vieira

Felipe André Silva

Tatiana Carvalho Costa

Curadores

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