Diversão e engajamento na Mostra Praça

Diante dos desafios impostos pela pandemia do Covid 19, o encontro em Tiradentes e as calorosas trocas da Mostra Praça tiveram que ser adaptados para a esfera virtual. Mesmo que o encontro físico não seja possível, o espírito popular da Mostra Praça permanece, com sessões de longas e curtas que trazem um apelo popular e a mobilização de importantes debates em relação ao contemporâneo.

A seleção de longas-metragens traz neste ano como marca o trânsito entre diversos gêneros e formas narrativas e documentais.  Dentre os documentários que compõem a programação, Sementes: mulheres pretas no poder de Éthel Oliveira e Júlia Mariano acompanha a transformadora eleição de 2018, na qual houve um aumento nas candidaturas de mulheres negras para diferentes cargos políticos pelo Estado do Rio de Janeiro. O documentário retrata não somente a trajetória da campanha de Mônica Francisco, Rose Cipriano, Renata Souza, Jaqueline de Jesus, Tainá de Paula e Talíria Petrone, mas os meandros de uma política que se faz em contato próximo com o seu eleitorado, em meio às periferias brasileiras, uma construção que retoma o verdadeiro sentido da política legislativa. Inspiradas por Marielle Franco, são imagens de enorme potência.

Swingueira de Bruno Xavier, Roger Pires, Yargo Gurjão e Felipe de Paula é um mergulho nas competições de swingueira — fenômeno musical também conhecido como pagodão baiano –, nas cidades de Salvador e Fortaleza. Um trabalho realizado por jovens, com intensa preparação das coreografias, figurinos e dedicação aos ensaios, o documentário retrata a música e a dança das periferias do Nordeste e os desejos e ambições dos jovens dedicados a tal arte. O registro das competições, com os seus figurinos, as coreografias, a ansiedade vivida por cada equipe e sua torcida, são também um fenômeno visual à parte.

Todas as melodias, de Marco Abujamra, é um perfil pungente do cantor e compositor Luiz Melodia. Com um belo trabalho de pesquisa de imagens, que inclui imagens domésticas e registros do cantor fora dos palcos, é a dimensão íntima e pessoal, para além da persona artística e pública, que surge em meio às imagens e aos depoimentos daqueles que lhe foram próximos.  A tensão racial, a vida vivida em constante negociação com o status quo, também surge como tema e dá expressão à vivência de artistas negros em meio a um país estruturalmente racista. 

A busca pela identidade e um mergulho interior também marca Mulher Oceano, de Djin Sganzerla. A escritora Hannah muda-se para o Japão, não sem levar consigo a imagem de uma mulher nadando no mar do Rio de Janeiro, Ana. A mulher e o seu duplo, ambas interpretadas pela diretora, cada uma dessas personagens vai trazer as dimensões simbólicas do mergulho no oceano. O mar é a metáfora para o mergulho da escrita e para a compreensão mais profunda da existência interior, mas também dos sentidos da alteridade e do contato com outra cultura.

Mirador, de Bruno Costa, vai trazer, por outro lado, os desafios da masculinidade quando confrontada com um papel que a princípio não lhe cabe. Maycon é boxeador e vive em meio a bicos e trabalhos precários. O filme prima pelo trabalho dramatúrgico e um forte trabalho com o elenco. Na trama, é pungente a forma como ele vai descobrir, em meio às maiores dificuldades, como equilibrar desejos e responsabilidades, com destaque para as cenas entre o personagem principal e a pequena Malu.

Francis Vogner dos Reis
Lila Foster

Curadores