No engajamento da criação

Em Pajeú, de Pedro Diógenes, uma entidade performa em meio às poucas águas do Rio Pajeú. Não sabemos se ela é sonho, símbolo, assombro ou um último vestígio do que outrora podia ser visto.  Uma das primeiras imagens do filme, sua presença vem a simbolizar esse rio que uma vez cortou a cidade de Fortaleza de forma visível, para ser lentamente soterrado pelas ondas de progresso. Um filme que não pode ser necessariamente encerrado em um único gênero, Pajeú não constrói o seu fluxo num único gesto. Para entender e dar a ver a história desse rio, que é também a história de uma cidade, de uma mulher que vê no rio a expressão da sua dor, é entre o visível e o invisível que o filme trabalha. Assim como o rio, que ainda pode ser visto através de pequenos fluxos d’água e dos efeitos do seu aprisionamento, é na instabilidade que tudo se assenta, dentro e fora do cinema

A Mostra Vertentes da Criação se vale um pouco desse mesmo gesto, agregando filmes que dão a ver os diversos processos criativos e formas de engajamento no tempo presente. O já citado Pajeú faz da história do Rio Pajeú e da fascinação que ele vai exercer na personagem Maristela (Fátima Muniz), de certa forma tomada por ele, uma espécie de coleção de gestos – a entrevista estilo “povo fala”, a performance, a narrativa ficcional – para dar a ver um rio (e uma cidade?) dilacerada pelo progresso, um progresso que vive um eterno presente, de costas para o passado e inconsequente em relação ao futuro.

Agora, de Déa Ferraz, traz uma acepção radical para a noção do tempo presente se valendo do corpo e do improviso para responder à seguinte pergunta: qual é o gesto possível diante de um país que mergulhou numa violenta onda de retrocesso? Como a matéria do corpo responde a um tempo de perplexidade? A diretora convida artistas diversos para que performem imbuídos do sentido e do sentimento do tempo presente. Um cenário preto, uma cenografia mínima e um convite a que respondam com o corpo. Um dispositivo que dá forma à respiração, à coreografia, à vontade de expressar o desejo e a dor.

#eagoraoque, de Rubens Rewald e Jean-Claude Bernardet, também se valem do dispositivo, aqui numa chave quase oposta. Ao tentar responder a pergunta “e agora o quê?”, os diretores se voltam ao intelectual de esquerda e professor Vladimir Safatle se utilizando de gestos violentos, rituais de constrangimentos, encurralando o intelectual-ator diante das contradições do intelectual de esquerda de classe média que parece habitar um mundo distante em relação a onde se situam as verdadeiras demandas sociais e de engajamento. Dar a ver essa distância, porém, não responde à pergunta e o filme parece girar em torno de uma proposta de demolição que está longe de se concretizar. O dispositivo, aqui, parece se sobrepor ao que nos faz pensar na historicidade de certas formas documentais, suas potencialidades e limites. Fica um filme edificado diante dos seus próprios escombros: o que pode o cinema, afinal?

Entre Nós Talvez Estejam Multidões, de AianoBemfica e Pedro Maia, no seu primeiro longa-metragem, continuam um percurso de um cinema feito dentro dos movimentos pela luta por moradia, marcadamente o MBL – Movimento de Luta pelos Bairros, Vilas e Favelas. Nessa incursão, os diretores filmam os espaços e fazem entrevistas com moradores da Ocupação Eliana. Se nos curtas o sentido da ação direta predomina, com imagens captadas no fluxo das ocupações e da resistência à força policial, é um tempo mais decantado que se forma nesse longa-metragem próximo das pessoas que ali habitam. A entrevista revela muito dos sonhos e desejos dos entrevistados, mas o filme também se vale de pequenos quadros nos quais os moradores, em um enquadramento frontal minuciosamente construído, dançam, tocam instrumentos, dão forma ao que podemos chamar de tempo de lazer/prazer. O gesto cinematográfico visa sempre à proximidade, aqui com um trabalho de fotografia e câmera em um momento mais estável na conquista por moradia.

Negro em mim, de Macca Ramos, vai, de certa forma, historiar a arte brasileira partindo do trabalho de historiadores e de artistas negros. Através de performances, registros de peças, shows de música, entrevistas e palestras, o documentário habita a efervescência do tempo presente para dar a ver os diversos matizes da arte negra e como o trabalho artístico vai propor desafios às histórias oficiais e suas representações. A pergunta pela brasilidade, construída como um conceito relativamente estável, é posta em questão pelas falas, mas também por todos os trabalhos e obras de arte que compõem o documentário. Uma afirmação que se dá pela presença.

Os curtas da Mostra Temática modulam tensões contemporâneas que desafiam o fazer e o pensar no Cinema Brasileiro. Realizados a partir de sujeitos e lugares nãohegemônicos, os filmes incorporam outras cosmopoéticas e promovem deslocamentos em formas conhecidas, em ricas provocações éticas e poéticas.

Dirigido por Grace Passô, Repúblicaé uma vertigem. A diretora, atriz e dramaturga nos mergulha, com sua mise-en-abyme, na densidade atemporal da exaustão e do não pertencimento negro, ao mesmo tempo em que nos apresenta a vivência-latência de corpos ameaçados e confinados pela presença ameaçadora de um vírus com potência letal. Gingando com os já instituídos clichês da recente categoria de “filmes de pandemia”, o duplo movimento do filme também se dá no desdobramento do corpo, na articulação das personagens – uma mulher e seu duplo – que cria uma alegoria de um tipo de vivência subjetiva nãohegemônica numa sociedade atravessada por traumas raciais transtemporais e é sintetizado num grito: “O teu Brasil acabou e o meu nunca existiu. Nunca existiu. Nunca existiu. Nunca!”.

“E se eu abandonasse a linearidade e assumisse a encruzilhada?”, pergunta-se Castiel Vitorino Brasileiro, realizadora-performer que dirige Uma Noite sem Lua. Castiel empreende uma figuração ensaística de si a partir de seu “corpo-mandinga” em uma prática artística de transmutação. Assumindo-se essa “encruzilhada” – ao um só tempo interseção e ponto radial –, ela articula dança, performance e imagens que modulam e incorporam a indeterminação de sua condição subjetiva num mundo e num cinema conformados pela cis-heteronormatividade.

Em Um Filme de Domingo, o diretor Lincoln Péricles cria uma topografia afetiva de quebrada guiada pelo olhar uma criança habilmente organizadora da gramática das redes sociais numa figuração de si e de seu mundo visto-inventado. Maria Eduarda compartilha a concretude de uma vida que, apesar de uma tragédia, pulsa em sua complexidade e leveza possível. A dureza da dualidade entremundos que o filme aparentemente anuncia – adultos/criança; quem sai/quem permanece; quem morre/quem vive – é diluída na poesia das modulações de um dia de convívio, de sonho e de partilha.

Camila Vieira
Felipe André Silva
Francis Vogner dos Reis
Lila Foster
Tatiana Carvalho Costa
Curadores

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