A CONSTRUÇÃO COLETIVA E A POTÊNCIA DA ATUAÇÃO NO FOCO DO DEBATE SOBRE O FILME “O CERCO”

Nesta sexta-feira, 28 de janeiro, o debate da série Encontro com os Filmes promoveu um bate-papo sobre o longa-metragem “O Cerco”, que estreou na Mostra Aurora na noite de quinta e poderá ser visto até o dia 30, às 22 horas.

Participaram da discussão os diretores e roteiristas Aurélio Aragão, Gustavo Bragança e Rafael Spínola, a atriz Liliane Rovaris e o técnico de som, montador e produtor Lobo Mauro. O crítico convidado foi Cássio Starling Carlos |SP e a mediação foi de Marcelo Miranda – crítico de cinema |MG.

Cássio Starling começou seu comentário relembrando sua primeira participação, também em um debate, na 10a edição da Mostra Tiradentes. Confessou que assistiu “O Cerco” pouco antes do momento da discussão e ressaltou que por isso sua primeira impressão sobre o filme foi mais direta, interessante e sensível.

“‘O Cerco’ me provocou uma série de impactos, pois reflete, o tempo todo, esse presente em que vivemos, de enclausuramento, principalmente porque não há muitas cenas externas no filme. É quase como se não houvesse o lado de fora na experiência do espectador. Algo muito próximo da nossa atualidade, em que vivemos com essa restrição de circulação. E isso afeta nosso modo de pensar. É como se estivéssemos vivendo uma espécie de bloqueio de desejos”.

Para o crítico, apesar da narrativa do longa estar nitidamente no presente, ela introduz numa outra camada, de espaço sem saída, a camada do tempo, do passado e da memória. “Essa camada expande o significado do filme, como uma alegoria de um processo histórico. Tem uma riqueza intensa quando essa camada aparece e se sobrepõe na dramaturgia do filme”.

Aurélio Aragão afirmou estar bastante satisfeito com as questões que o trio de diretores/roteiristas considerou importantes estarem nítidas para o público do longa. “Este filme partiu de uma sensação corporal, de uma angústia que bateu em 2013, início do processo que desencadeou o momento político-social que estamos vivendo hoje”. O diretor pontuou que a equipe inteira partilhava dessa angústia. “Foi uma arena, um espaço circular de conversa, onde conseguimos pensar em chaves para elaborar melhor esse sentimento”.

Sobre o presente e as camadas de tempo que vão aparecendo no filme, Aurélio explicou que “tentamos passar uma ideia de linhas perpendiculares que precisam se encontrar. Costumávamos dizer na produção que é como se o longa tivesse camadas geológicas, com os moradores de cada andar vivendo uma etapa do tempo, em uma camada. E o que buscamos fazer foi o encontro entre esses tempos, a conexão nessas camadas”.

Gustavo Bragança ressaltou que quando o projeto foi iniciado, em 2013, o trio ainda não tinha clareza do produto audiovisual que ia encontrar no final do processo. “Fomos trazendo os elementos que tínhamos e juntando o que achamos necessário para contar essa história”. 

Por causa destas camadas de tempo, Rafael Spínola vê o filme como uma espécie de museu da resistência. “Com o passado, o presente e essa resistência angustiada e com o futuro e uma abertura para uma resistência mais livre, com menos medo”. O diretor recordou que o sentimento de angústia apontado por Aurélio era compartilhado por toda a equipe. “O que a gente pode fazer sobre isso? O que sabemos fazer é filme. Por isso, esse longa se tornou inevitável para nós. Falávamos que esse projeto foi feito como quem joga uma pelada, a partir das inquietações e urgências que foram aparecendo. Nesse sentido, é um filme muito horizontal e compartilhado”.

Para Liliane Rovaris, “‘O Cerco’ foi um encontro de “das sensações, inquietações e fantasmagorias que nos incomodavam. A partir do encontro com cada um dos diretores, eles iam me contaminando e surgia uma manifestação que seria feito, pois o roteiro não tinha fala, era tudo improvisado. Foi um processo muito horizontal de construção conjunta”. A atriz salientou que esta foi sua primeira atuação para o cinema. “Achei muito bonito esse processo, desde meu encontro com os diretores, por meio da companhia de teatro em que atuo, até essa construção coletiva do roteiro e da personagem”.

Aurélio Aragão frisou que, no longa, as personagens femininas têm uma consciência do que está acontecendo e ainda assim vivem um impasse. “A Lili teve muita consciência do processo, entendeu a situação, para onde as cenas caminhavam. Tivemos muita sorte de contar com atrizes que entenderam muito o que estávamos propondo. Isso construiu uma linha coerente dentro do filme”.

Segundo Gustavo Bragança, o trio foi construindo em torno desse universo masculino do longa, as provocações para as personagens femininas reagirem e se construírem, cada uma à sua maneira. “Isso acabou virando o procedimento do próprio filme. Provocávamos a Liliane para a personagem tomar a cena para ela”.

Liliane Rovaris evidenciou que, para ela, “O Cerco” foi quase uma linha tênue entre ficção e biografia. “Minha filha tem quase a mesma idade da personagem que é minha filha no filme. E há também o fato recente do luto pela perda dos meus pais. Tudo isso contribuiu na construção da personagem e dessa relação com os diretores”. Rafael Spínola corroborou a opinião da atriz. “Filmamos uma ficção quase como um documentário. Isso foi um desafio para todas as equipes”.

A falta de um roteiro no formato tradicional foi um grande desafio para a captação de som e para a montagem, de acordo com o técnico de som, montador e produtor Lobo Mauro. “Apesar disso, o processo foi gostoso e convidativo, o que afeta no processo de criação”. Ele relembrou que entrou para o projeto para trabalhar com a captação de som direto e que assumiu a montagem com a saída de Gabriel Medeiros. “Este foi o primeiro longa e a primeira ficção que montei. Apesar de só haver um take de cada cena, ainda assim tinha muito material”.

Gustavo Bragança esclareceu que, apesar de realizarem apenas um take por cena, na maior parte da filmagem a equipe trabalhou com duas câmeras. “Dava alguma opção, mas era um processo com muito improviso e a montagem teve que lidar com isso”.

Gustavo Bragança destacou ainda que, por se tratar de uma produção sem financiamento público, o filme só foi possível graças ao grande envolvimento da equipe, que acreditou no projeto. “Todos tinham trabalho no mercado audiovisual e puderam oferecer um pouco do seu tempo para fazer esse filme viável”.

Concluindo o debate, Aurélio Aragão reiterou a relevância da reflexão expressa no longa. “Acho que nesse filme propomos alguma elaboração sobre essa violência que está fora de quadro. Não estamos parados, mesmo enclausurados, e “O Cerco” é um impulso para esse movimento”.

SOBRE A 24aMOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES

PLATAFORMA DE LANÇAMENTO DO CINEMA BRASILEIRO

Maior evento dedicado ao cinema brasileiro contemporâneo em formação, reflexão, exibição e difusão realizado no país. Apresenta, exibe e debate, em edições anuais, o que há de mais inovador e promissor na produção audiovisual brasileira, em pré-estreias mundiais e nacionais – uma trajetória rica e abrangente que ocupa lugar de destaque no centro da história do audiovisual e no circuito de festivais realizados no Brasil.

Trata-se de um programa audiovisual que reúne as manifestações da arte numa programação cultural abrangente, oferecida gratuitamente ao público, que prevê a exibição de mais de 100 filmes brasileiros, promove homenagem, oficinas, debates, mostrinha de cinema, exposições, shows musicais, performance audiovisual, encontros e diálogos audiovisuais e atrações artísticas. 

TODA PROGRAMAÇÃO É OFERECIDA GRATUITAMENTE AO PÚBLICO.

***

ATENÇÃO:

Como o formato do evento é digital, convidamos você a seguir a Universo Produção/Mostra Tiradentes nas redes sociais para ficar por dentro de tudo o que vai acontecer nos bastidores, acompanhar a evolução e notícias do evento e também receber conteúdos exclusivos sobre a 24ª edição da Mostra Tiradentes. Canais e endereços:

Na Web: www.mostratiradentes.com.br

No Instagram: @universoproducao

No Youtube: Universo Produção

No Twitter: @universoprod

No Facebook: mostratiradentes / universoproducao

No LinkedIn: universo-produção

Acompanhe o programa Cinema Sem Fronteiras 2021. 

Participe da Campanha #EufaçoaMostra

Serviço

24a MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES | 22 a 30 de janeiro de 2021

LEI FEDERAL DE INCENTIVO À CULTURA

LEI ESTADUAL DE INCENTIVO À CULTURA

Patrocínio: CBMM, ITAÚ, CSN, CEDRO MINERAÇÃO, CIMENTO NACIONAL, COPASA|GOVERNO DE MINAS GERAIS

Parceria Cultural: SESC EM MINAS 

Apoio: CAFÉ TRÊS CORAÇÕES, INSTITUTO UNIVERSO CULTURAL, DOT, MISTIKA, CTAV, CIARIO/NAYMAR, CINECOLOR, THE END, BUCARESTE ATELIÊ DE CINEMA, CANAL BRASIL, REDE MINAS, RÁDIO INCONFIDÊNCIA

Idealização e realização: UNIVERSO PRODUÇÃO

SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA E TURISMO | GOVERNO DE MINAS GERAIS

SECRETARIA ESPECIAL DE CULTURA, MINISTÉRIO DO TURISMO – GOVERNO FEDERAL| PÁTRIA AMADA BRASIL