EM DEBATE, CINEASTAS APONTAM A PRESENÇA DO CORPO, FÍSICO OU VIRTUAL, COMO POSSIBILIDADE DE RECONSTRUÇÃO HISTÓRICA E MUDANÇAS POLÍTICAS E SOCIAIS

Com a proposta de elaborar reflexões a partir da ressonância do corpo no espaço fílmico – e, consequentemente, sua ocupação no mundo dentro e fora dos limites da tela -, a roda de conversa “Corpo, arte e resistência” foi realizada na tarde sessa segunda-feira (25) dentro da programação da 24a Mostra de Cinema de Tiradentes. Sob mediação da crítica e pesquisadora de artes cênicas Daniele Ávila Small, três realizadores com trabalhos em exibição no evento dividiram suas inquietações em relação ao tema.

Diretora de “Agora”, produção do Pernambuco, a cineasta Déa Ferraz descreveu o processo de feitura do documentário, que registra artistas e ativistas dentro de uma caixa num estúdio a performarem desejos, angústias e indagações. “A ideia nasceu de uma crise nas eleições de 2018 e do que a imagem é capaz de fazer. Essa crise me levou ao desejo de pensar a imagem como algo quase esvaziado, de retirar tudo da imagem e deixar só o que interessasse. E o que mais interessava era o corpo”, disse Déa.

Desses estímulos, ela bolou o dispositivo retratado em “Agora”, pelo qual a diretora convidou os participantes do filme a ocuparem a caixa isolada e deixarem que seus corpos se expressassem. Mal sabia ela que estava se adiantando ao concreto isolamento de corpos que se tornou ato de sobrevivência na pandemia de COVID-19. “Convidei artistas e ativistas que são recebidos (pelo filme) para acionar seus corpos ali naquela presença, e o filme caminha nesse desejo não só de resistir, mas de existir, à disposição daquele encontro. O corpo como espaço real e concreto de tudo que a gente é, de como a gente vive”.

A atriz Sara Antunes esteve no debate como diretora do curta-metragem “De Dora, por Sara”, que está na Mostra e trata de uma troca de cartas a partir do aprisionamento da guerrilheira mineira Maria Auxiliadora Lara Barcelos (1945-1976). A origem do projeto data de 2014, quanto Sara iniciou trabalhos na peça “Guerrilheiras ou para a terra não há desaparecidos”. Recém-mãe na ocasião, Sara diz ter ficado muito atenta à relação das mães com as guerrilheiras pesquisadas no processo. Tempos depois, participou de um documentário em que lia cartas de Maria Auxiliadora. Posteriormente, estendeu a experiência em projetos pessoais e desenvolveu o filme.

“Eu tentei travar um diálogo entre a Dora e a mãe dela e tentando traçar paralelos entre o meu corpo, a Maria Auxiliadora, o Brasil, nesse estado de coisas. Sobre a ditadura ouve-se muito que lembrar é resistir, mas já não acho isso, eu acho que é mais incorporar, é fazer o corpo reverberar alguma coisa, deixá-lo disponível”, refletiu Sara. “Na montagem (do filme), as minhas escolhas sempre foram aonde estava a vibração do corpo, numa reconstituição corporal e espiritual. A minha tentativa foi de transbordar o estudo para um grito da própria carne, na ideia de encarnar a História. Quando a encarnamos, percebemos que os recalques da História não são imóveis”.

Para Macca Ramos, diretor do curta “Negro em Mim”, a questão do corpo passa pelas suas possibilidades de ocupar os espaços. “Quando a gente vai falar de corpo, a gente vai falar de perdas, do jovem que está sendo assassinado, do indígena em Manaus sem oxigênio, pautas e lutas atuais e urgentes. A grande problemática agora é se os corpos podem estar presentes, pela falta de uma vacina. Como eles vão se unir? O corpo hoje é virtual”, questionou. “Devemos entender como aprimorar esse corpo virtual, como ele pode se fazer mais presença jurídica, mais presença política”.

Em seu documentário exibido na Mostra, Macca ouve diversos artistas e pensadores negros em seis cidades brasileiras discutindo a arte, a cultura e a política a partir da diáspora e do devir negro no mundo. “O corpo começa na epiderme”, resumiu ele. “O que ocasiona, socialmente, o brasileiro que nega o racismo? Isso tudo afeta esse grande corpo social chamado ‘brasileiro’. O filme fala disso, sobre a gênese desse corpo (no imaginário do cinema)”. Macca terminou sua fala dizendo que, depois da doença, o corpo possui mais potência e resistência – num paralelo possível com a atual situação pandêmica mundial, mas também como as mazelas sofridas pelas populações mais desfavorecidas socialmente. “Espero que a gente entre num momento de convalescença e recuperação da sociedade, de reflexão sobre nosso papel de ser humano nesse mundo. A recuperação é o momento de maior criatividade”.