No ano do Cinema em Transição, vários foram os transes pelos quais passou a Mostra de Cinema de Tiradentes. Celebrando 25 edições, o evento colocou em primeiro plano uma gama diversificada de possibilidades de “trans”, em filmes, debates, presenças, conversas e posições. Foi de fato um ano especial na pluralidade de corpos, afetos, olhares e representações – e, mesmo realizada virtualmente por motivos pandêmicos, conseguiu transmitir seus muitos calores a quem mergulhou junto.

A começar pela homenagem a Adirley Queirós, artista de trânsito constante, homem da Ceilândia, na periferia do poder de Brasília, que “invade” os espaços oficiais com suas criações provocativas e iluminadoras de um estado de mundo em constante convulsão. “Meus filmes não existem enquanto ideia de roteiro, de peça literária em que tudo é minuciosamente pensado. Os filmes existem só depois do encontro com as pessoas, com os espaços, com as histórias, na troca, na experiência”, diz Adirley, cuja obra atravessa circuitos de visibilidade sem preocupação em ocupar mercados, e sim em perturbar mentes e percepções, na sua ambição de refletir sobre sua comunidade e aquilo que a torna única. “Não penso meus filmes como trajetória de mercado ou carreira, e sim como a vontade de reinventar alguma coisa me apropriando de modelos de produção que estão por aí”.

Outra transição levada à Mostra de Tiradentes foi a de linguagens e formatos, num tempo histórico em que o misto de possibilidades e democratização tecnológica, somado às demandas por conteúdo (potencializadas pelos isolamentos da pandemia), fez artistas das mais variadas áreas de criação se moverem rumo ao audiovisual, ao mesmo tempo em que criadores do próprio audiovisual passaram a buscar possibilidades também em espaços hegemônicos de grandes conglomerados de produção.

Pesquisadora e crítica, Maria Bogado acredita que estamos num momento de alteração das percepções e recepções do que se faz para ver e ouvir. “Historicamente, vive-se uma mudança de paradigmas entre o que TV e cinema sempre fizeram (de filmarem ‘para fora’, de pensar num espectador que está longe do meio de produção) e o que as novas tecnologias permitem. Os atuais regimes tecnológicos criam suas próprias formas de visibilidade, em espaços autocriados pelas possibilidades do digital”, afirma, referindo-se às grandes plataformas de difusão de conteúdo manuseadas pelos próprios usuários, como Instagram, TikTok e YouTube.

A professora Ivana Bentes vê nesse fenômeno a ascensão da chamada “vida-linguagem”, em que cada criador de conteúdo passa a construir sua própria forma de difundir aquilo que faz, muitas vezes partindo de cotidianos relativamente simples que se apresentam como acontecimentos quando levados às redes. “São vidas que produzem linguagem e, para o melhor ou pior, é uma produção de crenças, de mundos próprios. Somos atropelados por uma quantidade de regimes muito distintos e muito novos, que não tem o mesmo repertório ao qual estávamos acostumados vindo do cinema”.

Na programação da Mostra, foi perceptível a presença de artistas que se apoiaram nos recursos emergenciais da Lei Aldir Blanc e, impossibilitados de criarem em seus nichos de linguagem, transitaram e se expandiram para o audiovisual, criando novas camadas de poéticas e trabalhos. A curadora Camila Vieira conta do impacto da LAB nos curtas inscritos e selecionados em 2022: “No processo de visionamento, percebemos a presença destes filmes e fizemos o levantamento. Dos inscritos, 19,5% foram realizados com recursos da Lei Aldir Blanc. Dos 97 selecionados, 17 estavam nessa categoria, o que representa 17.5%”.

Esses números – e os filmes contidos neles – fizeram desta Mostra a mais eclética de seus 25 anos, por agregar, na programação e nos debates, essa miríade de formas vindas das artes visuais, artes cênicas, música, performance e outras mais. Para o cineasta Tiago Mata Machado, essas conjugações entre as artes não só é bem-vinda como reflete a impossibilidade de o cinema existir por si só ou de se isolar do que é feito em outras áreas de criação – algo que, em alguns momentos históricos, parecia acontecer.

“Por ser uma arte coletiva, o cinema sempre está sujeito às crises históricas, políticas e sociais. Como vivemos o grau zero da sociedade brasileira, ele está passando por mais essa crise”, afirma Tiago Mata. E a solução, ao menos criativa, de um estado de calamidade cultural como a perpetrada pelo governo federal desde 2019, é permitir-se juntar a outros artistas que passam por dramas similares. “Essa ‘impureza’ faz muito bem ao cinema e é algo que ele sempre soube incorporar”, completa Tiago.

Os transes desse Cinema em Transição também passaram pela representatividade, que teve em 2022 momentos essenciais na trajetória do evento, tanto em filmes exibidos quanto em participações conceituais. A curadora Tatiana Carvalho Costa destaca que a pesquisa anualmente feita pela Universo Produção sobre gênero e raça de cineastas participantes ajuda a compreender essas questões dentro da própria Mostra. “. “A autodeclaração no formulário de inscrição é um ponto de destaque, é uma relevante fonte de produção de dados. Isso nos auxilia a compreender a realidade brasileira e o cinema nacional como lugar não hegemônico. A pluralidade contribui imensamente para o desenvolvimento do campo artístico e sua dimensão estética e ética”, diz ela.

A professora e pesquisadora Dodi Leal acredita que tensionar os corpos não-hegemônicos (pessoas negras, trans, não-binárias, entre outras) traz a possibilidade de novas narrativas, construção e legitimação na produção de imagens, ainda que ocasionalmente provoque oportunismos ainda a serem refletidos. “As instituições, coletivos, editais, festivais passam a assimilar cada vez mais, de um lado, a defasagem do não-reconhecimento das desobediências de gênero e sexuais em suas estruturas e programas curatoriais e, de outro lado, passam a captar  o ‘valor’ da diversidade. Em meio à multiplicidade que o fazer cinematográfico se difunde em múltiplos formatos e perspectivas de produção, interessa saber quais são as mudanças de paradigma que se vinculam a estes processos”, aponta ela.

A relação da autoralidade com o mercado do audiovisual foi outra das transições levadas às conversas da Mostra esse ano. A atriz, diretora, escritora e dramaturga Grace Passô, vinda de anos no teatro, passou a trabalhar também com cinema em 2016 e acumulou para essa nova experiência muita coisa que ela já tinha sentido no ofício dos palcos. “Naturalmente a linguagem do teatro me faz associar a um universo independente, pois tudo que se fala de cinema independente, em termos de repertório, está muito ligado ao teatro que eu faço, que é a ideia do experimento. E também ao risco em relação ao mercado, a determinadas rotas que definitivamente estão sempre em negociações muito críticas com esse mercado e com os governos, sobre a importância de entender a arte como poder simbólico dentro das políticas públicas”, conta Grace.

Diante da pandemia, os artistas precisaram se reinventar, mas sem ter que começar de novo. Muito já se sabe e muito sempre há de se aprender. “Se existe constrição, precarização e recuos nas políticas públicas de cultura, no aspecto criativo lidamos num cenário em que os intentos, as ideias e as práticas a partir do audiovisual são fortes em outros territórios de experimentação”, afirma Francis Vogner, coordenador curatorial da Mostra.

Daí que o Cinema em Transição acaba por ser não só a temática específica para o ano de 2022, e sim uma condição adquirida do audiovisual brasileiro – e, a julgar pelos desdobramentos recentes, condição incontornável e sem retorno. A Mostra de Tiradentes segue como o grande fórum dessas discussões, que certamente hão de reverberar nos meses por vir e, quem sabe, permitir novos abalos nesse fascinante processo cultural que é o audiovisual brasileiro.

SOBRE A MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES

PLATAFORMA DE LANÇAMENTO DO CINEMA BRASILEIRO

Maior evento do cinema brasileiro contemporâneo em formação, reflexão, exibição e difusão realizado no país, chega a sua 25a edição de 21 a 29 de janeiro de 2022, em formato online. Apresenta, exibe e debate, em edições anuais, o que há de mais inovador e promissor na produção audiovisual brasileira – em pré-estreias mundiais e nacionais -; uma trajetória rica e abrangente que ocupa lugar de destaque no centro da história do audiovisual e no circuito de festivais realizados no Brasil.

O evento exibe mais de 100 filmes brasileiros em pré-estreias nacionais e mostras temáticas, presta homenagem a personalidades do audiovisual, promove seminário, debates, a série “Encontro com os filmes”, oficinas, “Mostrinha de Cinema” e atrações artísticas. Toda a programação é gratuita. Maiores informações www.mostratiradentes.com.br.

TODA PROGRAMAÇÃO É OFERECIDA GRATUITAMENTE AO PÚBLICO.