ENTRE A PULSÃO DA INVENÇÃO E A IMERSÃO DOS CORPOS NAS IMAGENS, CRIADORAS FALAM SOBRE COMO A EXPRESSÃO ARTÍSTICA É UMA CONEXÃO COM O MUNDO QUE NOS RODEIA

Ecoando a temática de 2020 da Mostra, “A Imaginação como Potência”, e rearticulando as ideias a partir da proposição de 2021, “Vertentes da Criação”, a mesa de quinta-feira (28) “Processos e fundamentos da criação” reuniu três fortes reflexões sobre o ato de criar e de que maneira isso se dá diante das contradições e dos constrangimentos e inquietações do mundo. Com mediação da crítica e pesquisadora Kênia Freitas, o debate contou com a escritora e roteirista Ana Maria Gonçalves, com a dramaturga, diretora e atriz Grace Passô e com a cineasta Lívia de Paiva.

Citando o roteirista mexicano Guillermo Arriaga, Ana Maria descreveu a criação como a alegoria do desconhecido. “O Arriaga fala desse conceito do artista como aquele que entra no mais profundo de uma floresta que ninguém nunca entrou, encontra alguém que ninguém nunca encontrou e volta para contar uma história que ninguém nunca contou. Essa é a imagem do processo criativo pra mim. A floresta sou eu entrando no interior de mim mesma, ouvindo um eu com quem nunca conversei e, disso, juntar as indagações num determinado enredo numa forma de questionamento que vou levar à sociedade na qual estou inserida”, detalhou ela. “Acredito no processo artístico como algo em que estamos o tempo todo se questionando a partir do que se faz e como se faz”.

Grace Passô apontou a materialidade do corpo como elemento essencial nesse mesmo processo, que se complementa ao mental e racional para levar o pensamento diretamente à epiderme. “O corpo vivo, o ser-atriz, obriga a lidar com as questões, as grandes reflexões, as filosofias do nosso tempo, os grandes paradigmas, através da ação. Esse dado, que tem a ver com a carne, sempre foi muito definitivo pras coisas que sucederam na minha vida em relação à arte eu quero fazer”, contou Grace, cuja trajetória de atriz se firmou entre o teatro e o cinema ao longo dos últimos anos. “Existe sempre um corpo que precisa fazer acontecer, e isso me ajudou na noção de que, para além de tantas referências, métodos ou criatividade, é preciso criar modos objetivos pra que aquilo caiba num corpo, é preciso dialogar com o corpo”. 

Com o curta “República” na programação da 24a Mostra de Tiradentes, Grace afirmou que essas ideias do corpo como propulsor da criação não é só relacionado à presença física imediata, como o teatro, e sim se expande também às imagens ou a quaisquer circunstâncias em que o ser-atriz que ela cita se manifeste. “É a ideia da atriz como aquela pessoa que media uma série de funções e processos criativos com seu corpo tendo a ideia de um público. Tem um conceito que eu gosto muito: um ator ou uma atriz é aquele que transforma o que já existe”.

Pegando a formulação do próprio debate como ponto de reflexão (“O que a imaginação tem sedimentado em termos de uma forma e uma ética das imagens?”), Lívia de Paiva, diretora de “Tremor Iê”, propôs uma inversão na pergunta: como a ética e a forma sedimenta a imaginação? “Me interessa pensar nessa inversão porque desejo, gosto, comportamento, autoestima, a forma como a gente se relaciona com as pessoas, com os filmes e com os lugares, tudo isso são também fruto das imagens que chegam até nós. Não apenas fruto de uma conformação ou delimitação delas, mas elas compõem isso tudo”, afirmou. Lívia se referia a imagens em sentido amplo, não só a filmes, e sim “àquilo que o olho vê, que a gente ouve, que a gente vive e que se expande pras narrativas”.

Lívia acredita que, ainda que sejam as mesmas imagens a chegarem a toda uma gama de pessoas, cada indivíduo recebe esse estímulo à sua maneira, formando as subjetividades. E, dessas subjetividades formadas, tem-se um certo retrato social baseado naquilo que foi, de certa forma, propagandeado por imagens desenvolvidas historicamente de formas muitas vezes conservadoras, pouco diversas e pouco inclusivas. “Tenho cada vez mais pensado em como representar a frustração, em como a falha aparece nas narrativas e como elas lidam com isso, sendo elas composição e influência sobre a gente. Pensando no ‘perigo da história única’ de que trata a Chimamanda Adichie, se essas imagens não fossem hegemônicas, o mundo ia ser outro. Se elas não aderissem a cartilhas, receitas, modelos, limitações – que, no fim, são a falta de relação com o real -, elas já poderiam transformar alguma coisa, pois seriam sobre outras formas de ser”. 

Uma fala de Grace Passô se relacionou aos apontamentos de Lívia a partir de sua maneira pessoal de se relacionar com a criação: “Fazer arte é um sistema de escape das situações aprisionantes que a gente vive. E o tempo que a gente vive é indissociável do que a gente cria. (A criação) Tem a ver com uma revolta muito grande, é direcionar um ódio particular que a vida nos gera, de criar formas de amor, de olhar outros lugares, tem a ver com a ideia mais comum da poesia, de ler as coisas para além do que já esteja dado”. 

No caso de Ana Maria Gonçalves, esse caminho tem ainda a ver com construção de identidade e com a formação de um quebra-cabeça sobre quem somos no mundo. “Não quero trabalhar respostas com a arte que eu faço, e sim perguntas. Faço isso através de enredos e personagens que incomodam na construção ética do mundo que me rodeia e em como isso pode ser transferido para a vida e adquirir significado social”. 

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