O CINEMA, PARA SER POLÍTICO, DEVE MOBILIZAR AS PESSOAS DESDE O PROCESSO DE PRODUÇÃO DOS FILMES, DEFENDEM DIRETORES EM DEBATE NA MOSTRA

O que é o cinema e o que é a política? A questão, que se desdobra em duas, norteou o debate realizado na tarde dessa quarta-feira na 24a Mostra de Tiradentes “O cinema como intervenção política”. A base da conversa, mediada pelo crítico Juliano Gomes, foram os filmes “Sementes: Mulheres Pretas no Poder”, de Julia Mariano, “Entre Nós Talvez Estejam Multidões”, de Aiano Bemfica e Pedro Maia de Brito, e “#eagoraoque”, de Rubens Rewald e Jean-Claude Bernardet, todos em exibição no site do evento. 

Juliano Gomes abriu a mesa apontando questões consideradas urgentes na constatação dos rumos desse começo de século 21: a ideia da intervenção política e da mudança social tratadas pelo capitalismo como commodities e mercadoria simbólica de alto valor; e como fazer uma organização de pessoas, um senso de coletividade, que tenham ação e lastro no tecido social. “A indústria de entretenimento tem recorrido a esses valores nos seus grandes produtos, como um ‘Pantera Negra’, por exemplo, e quando o grande capitalismo fala de intervenção política e transforma isso em slogan, existe um desafio a filmes como os de vocês e as diferenças que se pode ter no nível do discurso”, provocou o crítico. “Esse capitalismo que vende a mudança social ainda não se interessa pela questão do coletivo e da agremiação”.

Para comentar as questões do mediador, Julia Mariano descreveu a concepção de “Sementes – Mulheres Pretas no Poder”, que documenta as diversas candidatas negras do Rio de Janeiro que buscaram espaço no cenário político local depois do assassinato da vereadora Marielle Franco, em março de 2018. “A forma como a gente realiza o filme, quem a gente escolhe pra contar a história, já é política e se diferencia de propostas comerciais. Se não fosse a coletividade e a consciência de muitas mulheres do audiovisual no Rio de Janeiro ao cenário que se desenhou nas eleições depois da morte da Marielle, não teríamos esse filme”, contou Julia. “Começamos a filmar sem nenhuma verba de produção, todo o trabalho e todo o equipamento foi colocado a partir do entendimento coletivo da importância daquele projeto, e ele se tornou um filme do possível. A experiência do ‘Sementes’ me faz pensar que existe uma forma de cinema político no abrir espaço a outras pessoas que não têm os mesmos acessos aos meios de produção, permitindo outros olhares e outras formas no ato de contar suas histórias”.

Rubens Rewald, codiretor de “#eagoraoque”, contou que o gesto de fazer o filme partiu da inquietação de encarar a urgência das questões que mexiam com ele e o parceiro de direção, Jean-Claude Bernardet. “O que levou cada um de nós a este filme não passa pelos mesmos interesses, mas nós dois nos incomodamos há muito tempo com a forma de produção de filme baseada no tempo da concepção, da captação de recursos, da realização e da distribuição. Quando fica pronto, o filme pode estar obsoleto, ou sua pulsão inicial já morreu, e essa é a falência de um projeto artístico’, pontuou. 

O convite aos participantes de “#eagoraoque” – entre eles o filósofo e professor Vladimir Safatle – partia dos diretores como chamada a uma ação política através do filme. “Quem se agregou ao projeto tinha em mente que não seria só uma aventura artística, mas também a necessidade de expressão política de todos os envolvidos. Não queríamos mostrar um ideário, e sim abrir discussões, debater o papel do intelectual e das perplexidade da esquerda nos últimos anos”, disse Rewald. Ao seu lado, Bernardet reforçou que “o político de um filme não é o tema, não é a mensagem, não é a escolha dos diretores, e sim está em como a sociedade vai se relacionar com esse filme”. Para ele, há um forte acento político no filme porque muitas pessoas têm reagido a ele desde quando passou a ser exibido.

Em seu quarto filme dentro de um contexto de militância, que parte de ambientes e contextos onde ele e o parceiro Pedro Maia se fincam nas lutas sociais, Aiano Bemfica falou sobre alianças de coletividade como essenciais à produção de um cinema dito político. “Quando se organizam imagens de processos como as eleições de 2018, seja no filme da Julia ou no nosso filme, e você olha aquelas imagens para organizar e trabalhar nelas dentro de uma forma complexa de montagem, a gente está tecendo significado, tecendo comentários, devolvendo aquelas imagens pro mundo carregadas de sentidos de outras lutas e reconstruindo possibilidades narrativas históricas”, disse Aiano.

Em “Entre Nós Talvez Estejam Multidões”, Aiano e Pedro propõem uma jornada através da Ocupação Eliana Silva ao longo da campanha que elegeu Jair Bolsonaro em 2018, dando voz à comunidade através de seus sonhos, desejos, contradições e lembranças. “Não existem respostas fáceis pro cenário em que estamos. Todas as perguntas nos colocam em situações de instabilidade, nas quais os filmes aparecem como espaço de reflexão e organização das ideias, de experimentação de outras alianças políticas. Para Aiano, o cinema, quando pensado para participar, intervir e modificar a política, também deve modificar seus próprios processos de realização.

Diferenciando esse cinema político das produções comerciais que tratam a política como produto, Julia Mariano acredita que os parâmetros são diferentes, pelo tempo e lógica de cada um e pelas constituições de imaginários possíveis do real. “O cinema que me proponho a fazer é o do risco, no limiar de não dar certo, e essa insegurança me ajuda a pensar sobre as formas”.

***

ATENÇÃO:

Como o formato do evento é digital, convidamos você a seguir a Universo Produção/Mostra Tiradentes nas redes sociais para ficar por dentro de tudo o que vai acontecer nos bastidores, acompanhar a evolução e notícias do evento e também receber conteúdos exclusivos sobre a 24ª edição da Mostra Tiradentes. Canais e endereços:

Na Web: www.mostratiradentes.com.br

No Instagram@universoproducao

No YoutubeUniverso Produção

No Twitter@universoprod

No Facebookmostratiradentes / universoproducao

No LinkedInuniverso-produção

Acompanhe o programa Cinema Sem Fronteiras 2021. 

Participe da Campanha #EufaçoaMostra

Serviço

24a MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES | 22 a 30 de janeiro de 2021

LEI FEDERAL DE INCENTIVO À CULTURA

LEI ESTADUAL DE INCENTIVO À CULTURA

Patrocínio: CBMM, ITAÚ, CSN, CEDRO MINERAÇÃO, CIMENTO NACIONAL, COPASA|GOVERNO DE MINAS GERAIS

Parceria Cultural: SESC EM MINAS 

Apoio: CAFÉ TRÊS CORAÇÕES, INSTITUTO UNIVERSO CULTURAL, DOT, MISTIKA, CTAV, CIARIO/NAYMAR, CINECOLOR, THE END, BUCARESTE ATELIÊ DE CINEMA, CANAL BRASIL, REDE MINAS, RÁDIO INCONFIDÊNCIA

Idealização e realização: UNIVERSO PRODUÇÃO

SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA E TURISMO | GOVERNO DE MINAS GERAIS

SECRETARIA ESPECIAL DE CULTURA, MINISTÉRIO DO TURISMO – GOVERNO FEDERAL| PÁTRIA AMADA BRASIL