O desafio da Mostra de Cinema de Tiradentes é o de conseguir a cada ano dar visibilidade à grande variedade criativa do cinema brasileiro, pois acreditamos que é necessário ver e pensar todas as formas expressivas do cinema realizado no país.O cinema de gênero (horror e ficção científica, sobretudo) tem experimentado uma regular frequência na programação da mostra nos últimos anos. Pensando nisso, neste ano, especificamente, criamos a Sessão da Meia-Noite, que pretende dar um destaque especial ao cinema de horror. Dois filmes compõem a mostra: Skull: a Máscara de Anhangá, de Armando Fonseca e KapelFurman, e O Cemitério das Almas Perdidas, de Rodrigo Aragão.

Skull: a Máscara de Anhangá conta a história de um objeto místico pré-colombiano da floresta, a máscara de Anhangá, que porta uma entidade que começa a cometer assassinatos na São Paulo contemporânea. É o segundo longa de Armando Fonseca e KapelFurman – o primeiro,A Percepção do Medo, é de 2017. Em O Cemitério das Almas Perdidas, um jesuíta, por influência do obscuro livro de São Cipriano, empreende com seus discípulos a violência e maldade no Brasil colonial. Amaldiçoados em um cemitério onde ficam presos, voltam séculos depois para espalhar o terror no mundo. É o sexto longa-metragem de Rodrigo Aragão.

Ambos os filmes têm diferenças e similaridades. As diferenças passam pelo estilo e pelo tom.O filme de Armando Fonseca e André Kapel é uma narrativa urbana de filme policial e com de ritmo amparado em uma montagem mais frenética, ação coreográfica em cenas de luta e um horror gráfico que remete aos quadrinhos. Feito com eficiência e profissionalismo, reflete a competência e talento da dupla de diretores que dedicam a sua carreira ao trabalho de exercitar a imaginação no refinamento da técnica no cinema fantástico. O filme de Rodrigo Aragão é uma narrativa de aventuras com gosto pelos cenários tradicionais do horror como castelos e cemitérios, e com um estilo que remonta à tradição do horror de estúdio (italiano, em especial) que se vale do artifício e do efeito plástico do gênero. O filme de Aragão mostra sua originalidade, o apuramento estilístico do cineasta e um aprofundamento vibrante nas fantasmagorias brasileiras.

As semelhanças: para além da dedicação dos diretores ao gênero, está o fato de que Furman e Aragão são os maiores e mais criativos técnicos de efeitos especiais e designers de monstros do Brasil. São artistas de cinema na totalidade da definição. Roteirizam, dirigem e modulam seus efeitos especiais. O cinema de efeito especial é uma arte singular, rara no Brasil, e deve ser considerada em todo seu profissionalismo e fascínio. Outra semelhança é que ambos os filmes se amparam em um repertório genuinamente brasileiro que se volta às fantasmagorias do passado brasileiro. Em Skull, uma maldição da Amazônia, liberada pela ambição do poder, arrasa com a metrópole contemporânea. Em O Cemitério das Almas Perdidas, é o passado colonial do Brasil (nossa maior fonte de horrores) que volta para assombrar. Ambos os filmes são entretenimentos de alta qualidade e confeccionam seus universos com assuntos brasileiros que remetem à herança da violência e à exploração do passado brasileiro. São filmes vivos e contemporâneos. Vida longa ao cinema de horror brasileiro.

Francis Vogner dos Reis
Coordenador curatorial