Ao cineasta ADIRLEY QUEIRÓS

            O homenageado da 25a Mostra de Cinema de Tiradentes possui uma obra que reúne características emblemáticas do cinema da última década: o cotejo da matéria documental pela ficção, a imaginação como elemento primordial de uma perspectiva histórica, a paisagem e a etnografia de territórios periféricos, a invenção de métodos de trabalho e de dramaturgia distintos da produção mais tradicional.

            Adirley Queirós e a Ceicine (Coletivo de Cinema da Ceilândia) tomam parte historicamente em um panorama de obras e cineastas brasileiros contemporâneos que nos últimos dezesseis anos se fizeram entre a independência radical dos coletivos e o estímulo das políticas públicas para o audiovisual em nível federal e estadual. Em nível federal nos governos Lula e Dilma, a descentralização, e em nível estadual e municipal de fomento às pequenas produções e aos coletivos.

Na Imagem: Ardiley Queirós. Foto por: Léo Lara

De Rap, o Canto da Ceilândia (2005), passando por Dias de Greve (2009), Fora de Campo (2010), A Cidade é Uma Só (2012) e chegando à Branco Sai, Preto Fica (2014) e Era Uma Vez Brasília (2017), é possível traçar uma trajetória que reflete um processo político que parte de um passado de violência traumática que determina o presente e influencia os rumos do futuro. Não é a violência positivista, o mito fundador da nação, mas uma violência determinada pelo negativo: “aqui não verá país nenhum”. Por outro lado, é desse território que reconhece personagens, músicas e narrativas fascinantes. Bem demarcado, o espaço de criação é a Ceilândia, território de vivência e construção do que Adirley chama de etnografia da ficção, um princípio prático e estético que situa não somente o corpo do cineasta, mas o corpo de uma equipe inteira, uma imersão de onde emerge a ficção. A afirmação desse lugar é também a formulação de uma contradição explicitada sem maniqueísmos desse espaço denominado Brasília, capital do país, sede do poder, futuro projetado de uma nação que se funda e permanece situada num regime de violência.

Na Imagem: Ardiley Queirós. Foto por: Léo Lara

            Muito dentro do seu lugar, mas sempre denunciando as fronteiras, essa disputa será central em seu cinema. A Cidade é uma Só, recorre ao passado para traçar a origem da Ceilândia e o projeto de expulsão daqueles que construíram uma cidade que não podia lhes pertencer. O filme venceu a Aurora na Mostra de Cinema de Tiradentes, em 2012, e foi representante de algumas linhas de força do cinema daquele momento, sobretudo na relação dinâmica de documentário e ficção. Tal paradigma gerou forte influência em uma geração de cineastas em um momento em que a visada política dos filmes ganhava tônus.

Branco Sai, Preto Fica estreou em Tiradentes em 2014 na mostra Aurora em um ano importante em que teve Batguano, de Tavinho Teixeira e venceu A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa. Branco Sai, Preto Fica com seu final apoteótico ligou o passado e o futuro em um gesto simbólico radical que nos diz muito do que viria a seguir no país.

Na imagem: Branco Sai, Preto Fica (2014).

            O nosso homenageado Adirley Queirós é um dos cineastas que marcaram a história recente da Mostra de Cinema Tiradentes e o cinema brasileiro que traz em sua obra características que ajudam a elaborar o que foi o cinema da última década e nos dá elementos para pensar o futuro.

Francis Vogner dos Reis – Curador

MOSTRA HOMENAGEM

Na imagem: A cidade é Uma Só (2012).
  • De Rap, o Canto da Ceilândia (2005)
  • Dias de Greve (2009)
  • Fora de Campo (2010)
  • A Cidade é Uma Só (2012)
  • Branco Sai, Preto Fica (2014)
  • Era Uma Vez Brasília (2017)
  • Meu Nome é Maninho