Temática

CORPOS ADIANTE

O corpo no cinema é inevitabilidade. E também escolha. Primeiramente, quais corpos ganham imagens, narrativas, diálogos e subjetividades? .E de que modo? Personagens são frutos de escolhas. Intérpretes se adaptam ou se reinventam em corpos propostos pelas dramaturgias, pelos roteiros e pelas direções, nem sempre com controle sobre os modos como seus corpos estão em cena. Podem materializar na pele e nas vozes os reflexos de dinâmicas sociais e culturais observadas, podem acentuar estigmas e reproduzir sofrimentos, mas também podem partir destas dinâmicas para propor outras. O cinema, mesmo o mais social, mesmo o mais declaradamente político, não é espelhamento. Pode intervir nos reflexos e reconfigurar imagens pressupostas.

Corpos Adiante é o mote das discussões e da programação da 22ª Mostra de Tiradentes em 2019. Adiante se refere aos corpos à frente das lentes de cinema e de nossos olhares durante as sessões, com distâncias variadas entre câmeras e os seres diante delas, com relações com outros corpos e com os espaços por onde transitam e onde habitam, com campo visual variável em relação às partes dos corpos. Algumas distâncias são maiores. Outras, pura proximidade. Adiante também é o futuro imediato.  Logo ali à frente. No cinema, isso é condição, a princípio. Escreve-se para uma futura filmagem, filma-se para uma futura montagem e monta-se para uma futura exibição. São corpos não apenas do presente, para o presente, com suas dores de várias naturezas e opressões de várias intensidades, mas também corpos para um futuro, resistentes em seus lugares, persistentes em seus desejos, urgentes em suas lutas de afirmação.

Há corpos a representar e há corpos a repropor ou a inventar. Quando as liberdades dos corpos são vigiadas e ameaçadas de retrocessos em suas conquistas (a base de muitas mortes e violências), quando determinados segmentos da população passam a ser hostilizados e agredidos por conta parcialmente ou completamente de seus corpos, a arte também tende a responder com corpos desviantes, ameaçadores dos preconceitos e agressores do senso comum de conservação da normalidade. O normal sempre é “normacológico”. Em um mundo onde corpos expostos em quadros ou em performance são julgados, punidos e perseguidos pela sociedade civil e pelas forças oficiais, alguns corpos precisam se impor como estratégia de sobrevivência e de reafirmação da diferença.

Há uma ameaça concreta e cada vez mais presente aos corpos que não se sentiam ameaçados. O estágio da biopolítica se evidencia e tem se transmutado na evidência da necropolítica:  a dinâmica estruturante, sistêmica, que estabelece corpos matáveis. Para além do controle dos corpos – sobre como devem existir – há uma ameaça à existência de certos corpos, que insistem em resistir. Porque, antes dos corpos no cinema, há os corpos fora da tela e dos sets, alguns ausentes ou secundários nas telas, ainda fruto de uma concentração de filmes sob direção de homens brancos. São o centro de quase todas as dinâmicas da política, do mercado e das resistências. Se a pluralidade dos corpos é em parte homogeneizada pelo capital investido, consumido e lucrado com suas superfícies e com seus organismos, com a moda, com a indústria dos cosméticos, com a medicina, com as intervenções estéticas e com as metodologias de saúde, os corpos também mobilizam, em outras frentes da sociedade,  alguns dos principais debates e embates em torno das identidades, das perseguições e das conquistas étnicas/raciais, assim estão no cerne das questões de gênero, de sexualidades, de propostas legislativas (aborto, educação, drogas) e fobias sociais em geral.

O deslocamento de milhões de corpos de um país para outro, por ameaças concretas à continuidade da vida, é um dos grandes problemas políticos e sociais do momento, embora o exílio e as correntes migratórias sempre tenham existido na humanidade, com preconceitos e agressões em migrações por dentro do próprio país. A questão é que nunca tantos, em nome de suas sobrevivências, se deslocaram entre países e culturas. Isso afeta legislações, acentua os mecanismos estatais de controle dos corpos e cria perseguições aos de fora. O que está em disputa, mais uma vez, é o lugar de direito dos corpos, o direito dos corpos aos lugares, colocando sobre as superfícies muros, cercas, grades e cancelas para organizar quem pode ou não passar de um lugar a outro. Os novos imigrantes no Brasil são já protagonistas de filmes, ainda mais evidentes nos curtas metragens.

Se o corpo é controlado, seduzido pelos consumos e também consumido, pode ser ainda uma potência subversiva em relação às regulações sociais, um campo de disputas no qual não é somente determinado e regido por ordens superiores, mas também as dribla e se esquiva delas. O que podem os corpos? A quê e a quem servem? Quais corpos podem o quê? A quem pertencem? Os corpos sempre tiveram visibilidades e invisibilidades na arte, em suas versões idealizadas, deformadas, reformadas, maquínicas, coreografadas e metafóricas. A questão sempre a se colocar é: que corpos para este momento, para o cinema e para esta sociedade? Que corpos para o futuro que já começou?

No cinema, desde o início, os corpos sofreram tanto estigmas pela forma de visibilidade quanto pelas ausências na construção de narrativas e imaginários. No campo do simbólico, como na carnalidade, cada corpo é um, único e ao mesmo tempo social, parte de um grupo, de uma origem, de afinidades. Também é uma presença material, com interioridade, com gestos, com ritmos, com cores, formas, vozes e investimentos, agentes, caixas de ressonância e proposição para o futuro.

Os corpos visíveis na programação de curtas e longas são gordos e magros, de brancos, negros, indígenas, de sexualidades variadas, jovens e idosos, mulheres, homens, cis e trans, binários ou não binários, brasileiros de diferentes regiões e estrangeiros de diferentes países, intensificados em suas presenças e em seus desejos, com ritualizações e performances nos modos de ocupar as cenas, mas também descritos, impressos e expressos por meio do naturalismo. São corpos também ausentes ou conscientes das ausências, corpos perseguidos, torturados, desaparecidos, mas potentes em suas dores e em suas faltas. E ainda são corpos que mobilizam mundos e imaginários, que revelam energia vital e estética, que não aceitam a ordem das coisas ou lidam com essa ordem de maneira pouco conciliatória.

Se uma imagem é um enigma, menos ou mais ciente, que carrega rastros de um passado e uma sinalização para o futuro, no raciocínio de Paul Ricoeur em “Tempo e Narrativa”, então os corpos são, também, construções compartilháveis de memórias e apontamentos para o porvir, mas cujas marcas já são vislumbráveis. O presente dos corpos seria sempre um retorno e uma gestação, uma re(a)presentação e uma proposição. O desafio em jogo é, justamente, pensar em corpos para o futuro, tanto quanto um futuro para os corpos. 

 

Cleber Eduardo
Coordenador Curatorial

Lila Foster, Victor Guimarães, Camila Vieira, Pedro Maciel Guimarães e Tatiana Carvalho Costa
Equipe Curadores