UMA MOSTRA HISTÓRICA

Muitos motivos para celebrar. 2022 é ano das Bodas de Prata da Mostra de Cinema de Tiradentes.

Um percurso, muitas descobertas, muitas histórias para contar. Uma Mostra arrojada, de vanguarda, que ocupa lugar de destaque no circuito de mostras e festivais do Brasil e do mundo –exemplo que já impulsionou novas iniciativas, gera desenvolvimento social, humano e econômico.

Foi planejada inicialmente para ser um programa de inauguração do Centro Cultural Yves Alves, e já em sua primeira edição, em janeiro de 1998, nasce também para ser a grande aliada do cinema brasileiro, unindo o propósito de dar uma destinação ao equipamento cultural da cidade, ao mesmo tempo que cria sua identidade de vanguarda no circuito de mostras e festivais do Brasil, ao propor uma programação abrangente para além da exibição de filmes; incluía ações de formação, reflexão e difusão do cinema brasileiro e da nossa cultura.

Olhando desde o início e, hoje, comemorando 25 anos de existência, podemos afirmar que a Mostra de Cinema de Tiradentes tornou-se um espaço rico e generoso de exibição, formação, apreensão e discussão do cinema brasileiro. Um trabalho coletivo, participativo, democrático que sempre esteve à frente de seu tempo, atento às mudanças do audiovisual, seja do ponto de vista tecnológico, seja pelo ponto de vista de quem pensa, vê e faz cinema. Um ambiente de encontros, de gestação de parcerias profissionais, de inovação e tendências, de interação crítica no cinema do país.

Lembranças, conquistas, desafios, transformações. Parece um filme que passa diante dos nossos olhos, quando revisitamos as edições da Mostra. Cenas da barroca Tiradentes se misturam às imagens e sons dos mais de 3.000 filmes exibidos nestes 25 anos. Emoldura pela Serra São José, a arte está em toda parte conectando o cinema com as outras manifestações artísticas, com as pessoas e a diversidade da nossa cultura. Nomes do cinema brasileiro foram celebrados nesta trajetória e revelam parte da história que a Mostra incontornavelmente ajudou a construir, chamando a atenção da mídia e apresentando ao público o trabalho de gênios realizadores, produtores, atores e atrizes da nossa cinematografia.

Em 2007, uma aposta da Universo amplia a atuação da Mostra e, de várias formas, da própria produção independente brasileira: o novo curador do evento, o crítico Cleber Eduardo, cria a Mostra Aurora, seção dedicada a filmes de cineastas com até três longas já realizados e que propusessem abordagens originais, instigantes e criativas, quase sempre de baixíssimo orçamento. Esses filmes seriam avaliados por um Júri Oficial, que selecionaria o que considerasse o melhor deles. O primeiro ganhador da Aurora foi Meu Nome ÉDindi, de Bruno Safadi.

Nos anos seguintes, a Aurora se tornou referência e atraiu centenas de realizadores para inscreverem seus filmes e tentarem uma das sete vagas do recorte, além de milhares de espectadores anualmente ávidos por conhecer os selecionados dessa Mostra. As sessões quase sempre foram marcadas por comoção, aplausos e fortes reações, tanto no Cine-Tenda quanto nos debates. O homenageado da edição de 2022, o diretor Adirley Queirós, é um dos nomes que venceu a Aurora, após uma sessão apoteótica de A Cidade É uma Só?em 2012.

A Mostra Tiradentes sempre investiu e valorizou o trabalho curatorial, que a cada edição atuou para apresentar uma temática central e o retrato instigante da produção contemporânea – e, ao mesmo tempo, radiografar o presente e apontar possibilidades de futuro no que se fazia em cinema brasileiro, reunindo em mostras temáticas longas e curtas-metragens com características diversas, sempre num conjunto cuidadosamente pensado para fazer pontes e diálogos e estimular o público a ter uma compreensão mais macro e contextual da produção.

No decorrer de sua trajetória, a Mostra Tiradentes presenciou avanços, transformações e continuidades no cinema brasileiro.A criação da Ancine, da Secretaria do Audiovisual, a implementação da Lei 12.485 e do Fundo Setorial do Audiovisual. Um impacto positivo em toda a cadeia produtiva do audiovisual. Um processo de expansão e crescimento acima de vários outros setores da economia brasileira.Viu as séries de televisão ocuparem o lugar antes do cinema. E as telas de TV e dos computadores tornaram as superfícies da imersão em uma narrativa.

Foi testemunha do surgimento de uma nova geração de realizadores e instrumento que favoreceu a visão de conjunto – um panorama que, se revela fragilidades, também permite vislumbrar novos rumos. Exibiu filmes com senso de provocação, deslocamento dos sentidos e das sensações, de culto do enigma e do estranhamento. Filmes de diretores que já estrearam no formato digital e se formaram na imagem e na internet. Filmes que se destacam pelo seu tempo, fortes na relação com seu tempo, pelo que mostram, por como mostram. O cinema brasileiro feito hoje no Brasil.

Nesta edição discute o Cinema em Transição, já percebendo que alguma nova movimentação histórica está novamente em curso. E o evento segue na vanguarda para apresentar ao público os nomes, os filmes, as conversas e os caminhos a serem percorridos nessa nova e estimulante trajetória que a produção deverá seguir na próxima década e evidencia a forte presença de filmes dirigidos por pessoas negras, trans e indígenas, a proliferação de coletivos criativos vindos de outras áreas artísticas para além do cinema, e a experimentação de formatos, linguagens e espaços de exibição serão fundamentais para se compreender a amplitude dos conceitos tratados nesta edição da Mostra.

A seleção de 169 filmes (entre longas, médias e curtas-metragens), de 19 estados brasileiros (AC, AM, BA, CE, DF, ES, GO, MG, MT, PA, PB, PE, PI, PR, RJ, RN, RJ, RS, SC, SE, SP), apresenta a força da cinematografia brasileira contemporânea, mesmo num momento de crise provocado pelos efeitos devastadores da pandemia e da inexistência ou paralisia de políticas públicas culturais. A coordenação curatorial do evento é assinada pelo crítico Francis Vogner dos Reis, que divide com a pesquisadora Lila Foster a seleção de longas-metragens. A curadoria de curtas-metragens foi feita por Camila Vieira, Tatiana Carvalho Costa e Felipe André Silva. Os filmes estarão distribuídos nas seguintes mostras: Aurora, Olhos Livres, Cinema em Transição, Homenagem, Autorias, Foco, Panorama, Foco Minas, Praça, Formação, À Meia-Noite Levarei sua Alma, Sessão Debate, Jovem, Valores, 25 anos, Regionale Mostrinha. Para ampliar a experiência, vários dos filmes contarão com debates nos Encontros com os Filmes, tendo a presença de diretores, equipes de produção e críticos convidados.

O 25ºSeminário do Cinema Brasileiro, novamente em formato presencial, volta a ser um dos ambientes mais intensos de debates e discussões sobre o cinema no país. Serãomais de 150 profissionais, entre críticos, realizadores, produtores, atores, acadêmicos, pesquisadores e jornalistas, no centro de 51 Debates, Rodas de Conversa e encontros,entre eles a série Encontros com os Filmes e os bate-papos após as sessões do Cine-Praça.

As ruas tricentenárias de Tiradentes serão embaladas por cores, música, artes cênicas, sons e imagens durante a 25ªMostra de Cinema de Tiradentes, que, nesta edição, adaptou sua programação para não gerar aglomeração de pessoas. O público vai poder assistir a três performancesaudiovisuais,conferir três exposições temáticas, participar de sete lançamentos de livros, três teatros de rua, cinco intervenções artísticas, fazendo a conexão do cinema com as outras artes, expressões artísticas da cultura brasileira.

A Mostra de Tiradentes mantém o compromisso de investir em novos talentos e promove o Programa de Formação com a oferta de 10 oficinas audiovisuais para o público jovem e adulto, visando à capacitação técnica para o mercado de cinema em diversas frentes possíveis de trabalho. Desde sua primeira edição, em 1998, já foram certificados quase 7.000 alunos, em aproximadamente 260 oficinas ministradas.

Esta edição representa um momento histórico em nossas realizações, porque, além de adaptar a programação e adequar as estruturas para este cenário pandêmico, planejamos uma série de ações comemorativas aos 25 anos da  Mostra de Cinema de Tiradentes– olançamento do livro O cinema brasileiro em resposta ao país (2016-2021), que lida com a multiplicidade de autorias, ideias, enfoques e naturezas, com especificidades e desdobramentos do contexto. Reúne 25 artigos inéditos e conta com a participação de 36 importantes teóricos, pesquisadores, curadores, acadêmicos, críticos e profissionais do audiovisual que têm conexão com os temas abordados.

A Mostra 25 anos foi organizada para apresentar ao público uma seleção de filmes que marcaram um tempo histórico do evento. Sob a coordenação curatorial do Francis Vogner dos Reis, foram escolhidos 26 filmes –um recorte especial de trabalhos, que nasce com o desejo de “organização de uma geração”, geração que começa a se configurar curatorialmente em 2007 na Mostra Tiradentes. Há muito a se ver, rever e entender neles: trabalhos diferentes, de cineastas que posteriormente teriam percursos distintos.

Duas exposições integram também as comemorações dos 25 anos da Mostra. A exposição 25 Anos de Homenagens poderá ser conferida no Cine-Tenda e apresenta os homenageados de cada edição da trajetória da Mostra de Cinema de Tiradentes – 1998 a 2022. Ícones de seus próprios tempos, por motivos e percursos distintos, tiveram reconhecimento publicamente e receberam o Troféu Barroco. Já a exposição Mostra Tiradentes 25 Anosapresenta a evolução das estruturas e temáticas centrais, evidenciando o tempo histórico de cada edição do evento. 

E, por fim, a Campanha #EuNaMostraTiradentesconvida o público a compartilhar lembranças, depoimentos e imagens que traduzem as histórias, vivências e singularidades de suas participações nas edições do evento em três categorias de participação: “Coleção”,”Histórias para Contar” e “Fotos”.  Os melhores trabalhos, em cada categoria do concurso, receberão uma premiação em dinheiro.

Uma das novidades desta ediçãoé a inauguração da edição itinerante do Brasil CineMundi, denominada Conexão Brasil CineMundi, que  introduz uma nova categoria para longas brasileiros – a Work In Progress (WIP), programa que reúne ações de difusão e internacionalização do cinema brasileiro, promovendo a visibilidade do cinema, apresentando ao mercado internacional a diversidade da cinematografia brasileira e o seu potencial criativo. Além de sessões e encontros WIP, integram o programa exibições dos filmes brasileiros em pré-estreia, debate e networking. Foram selecionados 14 filmes de longa-metragem, divididos em duas categorias WIP Exibição e WIP Meetings, que serão apresentados para uma plateia de profissionais da indústria audiovisual internacional e players nacionais.

Um olhar para o futuro que faz história. A Mostra Tiradentes, no anoem que comemora 25 anos de existência, aborda questões do cinema hoje, sem ter expectativas de respostas fáceis, únicas, consensuais e fechadas, mas com aposta na capacidade de uma reflexão franca e crítica das transformações, transições, influências, hibridizações que o cinema vive, resiste e permanece, com vitalidade e perseverança no mundo cada vez mais globalizado das telas.

A Mostra de Cinema de Tiradentes tem seu lugar no centro da história audiovisual do país,e seguimos obstinados a  trilhar caminhos que multiplicam, ressoam e se desdobram nos filmes, em gestos, palavras, depoimentos de diretores, críticos, atores, técnicos, pesquisadores, acadêmicos, jornalistas e público que constroem e fazem parte do nosso encontro anual pelo cinema brasileiro,que representa uma busca desenfreada pela possibilidade de criar o espetáculo e ver nascer, a cada edição, uma nova ideia, invenção, inspiração, concepção.

Esta imensa manifestação cultural conta com a atuação de uma equipe competente e dedicada, veículos de imprensa e decomunicação, com profissionais do audiovisual, realizadores e produtores –gênios incansáveis, talentos de memoráveis obras, conta com a participação decisiva de lideranças empresariais, empresas e parceiros que tornam possível esta celebração, em especial nossos patrocinadores –Instituto Cultural Vale, CBMM, Cedro Mineração, Itaú, CSN, Cimento Nacional, Copasa e Cemig|Governo de Minas Gerais, Sesc em Minas, Prefeitura de Tiradentes e com o público que nos inspira e nos faz mover, crescer, persistir, insistir, avançar, fomento para aprimorar sempre, em novos desafios.

A todos que compartilham dos nossos ideais, que somam esforços para a concretização desta edição, que renovam o compromisso com a cultura, que investem em Minas e no Brasil e aos curadores que atuam com profissionalismo e dedicação, nossa gratidão.

Viver a Mostra Tiradentes.Viver os 25 anos da Mostra Tiradentes.

Uma revolução da diversidade de novas possibilidades de expressão cinematográfica e artística. Caminhos independentes de entrega à nossa cultura que refletem a autêntica vontade de fazer bem ao mundo –questão vital e ação estratégica no desenvolvimento de uma nação.

Sejam bem-vindas e bem-vindos ao cinema de 2022,

 ao cinema de todos, de todos os tempos!

Aqui é o Brasil.

Raquel Hallak d’Angelo

Quintino Vargas Neto

Fernanda Hallak d’Angelo

Diretores da Universo Produção e Coordenadores da Mostra de Cinema de Tiradentes