INVESTIGAR A CONTRADIÇÃO DE UM PAÍS, PROGRAMAR O DISSENSO

Nesta 27ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, a Mostra Foco apresenta um conjunto de 13 filmes que, com fortes marcas de invenção e singularidade, arriscam-se a lançar perguntas sobre questões políticas, socioculturais e históricas que atravessam o Brasil. Ao observar a coexistência de pares tão díspares, decidimos coletivamente abraçar o dissenso e construir uma programação que amplifique as tensões e os impasses que circundam o país e o audiovisual brasileiro. Se não é mais o cenário de escassez que poderia, por vezes, determinar nossas escolhas, a pluralidade de identidades políticas no cinema brasileiro demanda um outro tipo de atenção para o visionamento e seleção dos filmes: assumir nossas potenciais fraquezas, ensaiar os riscos de discursos descompassados e lidar com modos de estar na tela que, muitas vezes, rejeitam coreografias estabelecidas. É dentro da contradição de cada um desses curtas-metragens que as possibilidades imaginativas ganham forças e nos convidam assertivamente a mergulhar na incerteza. No limite, quando vivenciados em conjunto, os títulos reinventam tendências da filmografia contemporânea e criam interrogações à própria história do cinema nacional.

A primeira sessão da Mostra Foco é iniciada com O Cavalo de Pedro, de Daniel Nolasco. Ao revisitar um caso de amor e tesão ocorrido entre um homem branco e um homem negro durante o século XIX, a partir da iconografia forjada pelo quadro Independência ou Morte (1888), de Pedro Américo, o filme nos leva a desconfiar sobre os modos como a historiografia narra tal período histórico, assim como deixa latente na tela as hierarquias de poder que fundam esse episódio, ou melhor, o país. Se, no filme anterior, a dimensão do toque pode, para além do prazer, figurar certo tipo de violência, as mãos, em Aguyjevete Avaxi’i, de Kerexu Martim, convocam sensibilidades que oscilam entre cuidado e labor, transmissão de saberes e reelaboração do olhar sobre a terra. Em Eu Não Nasci para Isso, de Erik Ely, o remix entre a história da Guerra do Paraguai, militarismo e videogames racializa os corpos em combate e chama a atenção aos que continuam sangrando de forma sistemática por conta da pátria. Entre panorâmicas e registros verticais, Garimpando Garimpeiros, de Tomás Tancredi, acumula imagens produzidas por trabalhadores da mineração que, ao mesmo tempo em que visibilizam e conferem agência a esses sujeitos, gritam o horror da exploração ininterrupta que assombra o solo brasileiro.

Em seguida, na Foco 2, iniciamos a sessão com O Canto, de Izabella Vitório e Isadora Magalhães. O documentário recria o cotidiano das destaladeiras de fumo de Arapiraca, mulheres alagoanas que comungam atividades laborais e festividades através da música, reacendendo a presença de personagens significativamente retratados no cinema brasileiro. Em Cassino, de Gianluca Cozza, um grupo de jovens brancos de um município do Rio Grande do Sul se reconhece na falta de perspectiva sobre o futuro. A introspecção masculina abre espaço para o lamento de um relacionamento que não deu muito certo. Causando uma fratura no programa, O Materialismo Histórico da Flecha contra o Relógio, de Carlos Adriano, traz o tempo como sua principal matéria. Palavras, imagens e corpos são contrastados em uma montagem que, mais do que suspender a linearidade da história, ensaia uma redistribuição da violência a partir do pensamento dialético e das tecnologias daqueles que já foram tidos como derrotados. Moventes, de Jefferson Cabral, desenha o retrato de uma família que está migrando de Natal para São Paulo. Entre vozes e quadros que mobilizam diferentes temporalidades narrativas, acessamos memórias que andam ao lado das dúvidas que transcorrem a hora da tão esperada partida. Por fim, Onde Está Mymme Mastroiagnne?, de Biarritzzz, retoma o clima de busca e deriva através de um caso de suspense, ficção científica e matação. Entre o bairro do Pina, em Recife, e o Second Life, acompanhamos personalidades-avatares que nos convocam a observar suas performances com um pleno estado de imaginação.

A terceira sessão inicia com a fantasmagoria de uma história contada por Allan Ribeiro, em Eu Fui Assistente do Eduardo Coutinho. A repetição de frases e imagens ameaçam o status de veracidade do acontecimento que, por outro lado, descortina o amor do diretor pela linguagem cinematográfica e, particularmente, pelo nosso cinema. Viventes, de Fabrício Basílio, joga com os registros temporais, desafiando a ideia de aqui-e-agora e as estruturas narrativas, referenciando à tradição experimental do cinema brasileiro, sobretudo àquela que se faz a partir dos eventos mais corriqueiros e ordinários. O terceiro e penúltimo filme da Foco 3, Se Eu Tô Aqui É por Mistério, de Clari Ribeiro, traz em sua lenda investigativa a aparição de vilãs e heroínas, um filme de gênero com uma estética queer, que homenageia, ainda, duas atrizes importantes para a história do cinema nacional. E faz apostas em rostinhos que aparecem no feed de nossas redes sociais e têm “cheirinho de sucesso”. Encerramos a Mostra Foco com Onde Judas Roubou as Botas, do Coletivo Pisquinhos, onde acompanhamos o processo de feitura de um filme por jovens e adolescentes majoritamente negros, com idade entre 15 a 23 anos. O desbunde e a irreverência da juventude aliam o olhar para a festa da malhação de Judas a uma cultura fílmica que passeia por Adélia Sampaio, Ana Carolina, Hermes e Renato, entre outras referências… e a brincadeira, então, transforma-se em radicalidade.

Camila Vieira
Leonardo Amaral
Lorenna Rocha
Mariana Queen Nwabasili
Pedro Guimarães
Curadores