CEILÂNDIA: O PASSADO HOJE, O FUTURO AGORA

OS FILMES DE ADIRLEY QUEIRÓS

Com uma obra relativamente pequena, Adirley Queirós é uma referência internacional da geração do cinema brasileiro que ascendeu na última década. Seu conjunto de filmes é emblemático de um modo de produção e de um imaginário incisivo na perspectiva histórica, radical na criação de imagens e preocupado em exercitar novas possibilidade de ficção a partir da imersão em um território até então ausente no cinema brasileiro, no caso a Ceilândia, cidade próxima e ao mesmo tempo tão distante de Brasília.

Toda a sua obra se fez na Ceilândia, com atores e cores locais. Criou junto a seus parceiros e parceiras um modo de olhar para a cidade e viu nela o choque do passado (do seu trauma original e de um processo que constituiu a cidade e seus habitantes) com a urgência e a mudança célere do presente que pode ser um já-futuro distópico ou uma miragem do capitalismo contemporâneo que avança sem promessas de mudança coletiva. Segundo o diretor, ele faz uma etnografia da ficção, ou seja, um olhar especulativo para uma realidade observada.

O seu primeiro filme, o curtaRap, o Canto da Ceilândia (2005), tem a presença dos rappers X, Jamaika, Marquim e Japão, que narram sua poesia e sua história em consonância com a trajetória da própria cidade nas décadas anteriores. Aqui Adirley Queirós dá o pontapé inicial em uma obra que teria como tema e imagem a Ceilândia, sua diferença e oposição aBrasília, assim como a opressão real e simbólica da capital sobre a cidade-satélite, como também elege personagens que são ao mesmo tempo heróis, poetas e narradores.Ponto de partida avançado e sólido.

Em Dias de Greve (2009), seu filme posterior e primeiro curta de ficção, temos uma greve de trabalhadores em uma pequena serralheria. A suspensão provisória do trabalho coloca os personagens em uma relação diferente com o cotidiano, entre o lazer e a experiência de um tempo não produtivo. A contradição: reféns do trabalho, percebem que esse tempo “livre” é estranho às suas necessidades materiais, às suas responsabilidades e demandas. A poesia do filme está em encontrar na cena, na montagem e na presença desses personagensesse sentimento de tempo e sua contradição.

O documentário de média-metragem Fora de Campo (2010), realizado com recursos do edital DocTV, e codirigido pelo seu parceiro em outros trabalhos, Thiago Mendonça, e o curta Meu Nome É Maninho (2014), dirigido somente por Queirós como parte da série A Copa Passou por Aqui, do canal SporTV, são filmes sobre o proletariado do futebol, especificamente jogadores da segunda divisão do DF. Um dos personagens principais de Fora de Campo e protagonista de Meu Nome É Maninho, que tinha o sonho de jogar na Copa do Mundo, jogou na segunda divisão e se tornou vendedor ambulante. Em Fora de Campo ele está em relação a outros personagens, mais velhos e mais novos, todos atravessados pela memória ou pelo sonho de ir jogar em clubes maiores. No curta, acompanhamos seu cotidiano de memórias. São filmes sobre um futebol pobre, sobre sua realidade material e os seus sonhos e personagens que perderam o compasso da história. São filmes tristes que lembram um pouco a dicotomia entre desejo e realidade de muitos sambas.

A Cidade É uma Só?, vencedor da Mostra Aurora em 2012, mistura documento e história a partir de uma reflexão sobre a Campanha de Erradicação de Invasões (CEI), realizada em 1971, que removeu os barracos que ocupavam os arredores de Brasília e levou seus moradores, entre eles parte considerável dos trabalhadores que edificaram o plano piloto, para um território nos arredores da capital. O cruzamento entre documentário e ficção potencializa tanto o documento histórico quanto a ficção criada para entender a Ceilândia contemporânea. Os personagens são Nancy, Dildu e Zé Roberto. Nancy viveu esse processo de remoção no início dos anos 1970, Zé Roberto vende terrenos loteados e Dildu é um faxineiro de Brasília que se lança como candidato a deputado distrital pelo fictício Partido da Correria Nacional. Essa relação entre tempos, passado e presente, já estabelece uma dinâmica de confronto (da narrativa histórica oficial com o presente) que estará presente nos longas posteriores de Adirley. O filme traz os atores Dilmar Durães, Marquim da Tropa e Wellington Abreu, presentes em outros filmes do diretor.

Branco Sai, Preto Fica participou da Mostra Aurora em 2014 e é uma ficção científica que se passa em um futuro próximo na Ceilândia, já apartada radical e oficialmente do DF como território estrangeiro, em que dois personagens interpretados por Marquim da Tropa e Shockito foram mutilados no passado em uma invasão da polícia em um baile. Um viajante do tempo, interpretado por Dilmar Durães, vem do futuro para investigar a história e encontrar os personagens. Filme noturno, com humor e estilização que faz da sucata alta e fascinante tecnologia, com uma dramaturgia que investe em uma temporalidade particular, Queirós faz da imaginação um gesto radical de rebelião ao destruir, por fim, Brasília.

Seu terceiro filme de longa-metragem,Era uma Vez Brasília (2017), tem como alvo a capital do Brasil como emblema histórico espectral, paisagem distópica e realidade. O viajante do espaço WA4, interpretado por Wellington Abreu, preso no seu mundo por lotear terra ilegalmente, é condenado aviajar ao planeta Terra para matar Juscelino Kubitschek no dia da inauguração de Brasília. Mas um erro de cálculo temporal faz com que ele aterrisse na cidade durante o golpe parlamentar que retirou Dilma Rousseff do poder. Se nos filmes anteriores os eventos históricos desencadeadores da fábula se localizavam no passado, aqui o episódio histórico paradigmático está em andamento. Uma diferença fundamental dos longas anteriores do diretor é que nesse o tempo desacelera drasticamente, a noite predomina e a distopia se instala em uma suspensão provisória (ou total) do futuro. O entediante e violento imbróglio político se arrasta na noite em que toda narrativa dos fatos está em extracampo. WA4, Andréa e Marquim esperam algo ou alguém ou conspiram e arregimentam forças para agir contra os inimigos de Brasília. Impotência ou conspiração? Ambos?

Como todo ano, o filme de abertura da Mostra de Tiradentes é um trabalho inédito do homenageado. Neste ano não será diferente, mas em diálogo com a temática da 25ªedição, serão exibidos dois episódios da série Fantasmas da Casa Própria, que Adirley realizou com codireção de Cássio Oliveira a partir de um edital para TV pública entre os anos de 2016 e 2017. Serão exibidos os episódios 3 e 5. No episódio 3, Drica (Drica Mendonça), Agostinho (Agostinho Reis) e Barbosa (Renan Rovida) são apresentadores do programa Ecos da Noite, as Notícias que Brotam de Brasília, realizado em uma rádio comunitária. O trio faz uma performance de contrainformação em oposição à mídia corporativa na época do processo do golpe parlamentar de 2016. Agostinho é trabalhador sem terra, Barbosa trabalha como corretor de imóveis em Águas Claras e Drica se dedica mais exclusivamente ao rádio. O episódio 3 é ao mesmo tempo documento histórico das movimentações coletivas e políticas desse momento e reflexão sobre o direito à moradia e à terra. Termina em guerra.

No episódio 5 a câmera acompanha o cotidiano de trabalhadores rurais do MST em luta pela reforma agrária em Brasília e no acampamento Dom Thomas Balduíno. Mais do que um registro prosaico do dia a dia, o episódio faz uma espécie de ensaio musical da mística do MST, seus cantos em uníssono, sua imagem numerosa de militantes que são voz e imagem desse corpo coletivo. A sequência final, fascinante: crianças do acampamento à noite no escuro e com lanternas cantam dentro de barraca de lona. O que liga essa cena a um expediente comum da obra do diretor é aquilo que liga o presente a um outro tempo. No caso aqui não se vai pro passado como geralmente vemos nos filmes de Adirley, mas se avança, se faz uma elaboração sobre o futuro. As crianças cantam o futuro de uma “pátria operária e camponesa, livre e forte, construída pelo poder popular”. É nesse ponto, em que crianças cantam um futuro livre, que vemos uma nota diferente de seus outros filmes nos quais o confronto ao fim se impõe. Aqui, na profecia coletiva das crianças, há a possibilidade de um outro mundo porvir.

Francis Vogner dos Reis

Coordenador curatorial