UMA ABERTURA PARA O MUNDO

Desde a sua criação, em 2008, a Mostra Aurora teve como o seu guia principal a atenção para realizadoras e realizadores que iniciavam suas carreiras no longa-metragem. No decorrer dos anos, os critérios se ampliaram e passaram a incorporar trabalhos de artistas com até três longas no currículo. Dessa forma, passamos a acompanhar não somente a estreia de diretoras e diretores, mas um percurso artístico, a forja de um estilo, as mudanças a partir de cada desafio de criação. Nos últimos anos a Aurora foi, portanto, um espaço de estreias, mas também de visibilidade de certos percursos artísticos.

A Mostra Aurora de 2022 talvez sinalize para um ponto de retorno à sua primeira configuração. Todas as diretoras e diretores farão a sua estreia no longa-metragem e muitos passaram os seus curtas-metragens em Tiradentes. Existe um trajeto a ser pensado a partir dessas primeiras experiências com o cinema e o trabalho realizado no longa-metragem, caminhos que apontam para uma continuidade de pesquisa ou a abertura para outras formulações estéticas.

Indo aos filmes, Bem-Vindos de Novo (SP), de Marcos Yoshi, é um documentário autobiográfico que, se valendo da força dos arquivos pessoais e de filmes de família em VHS, vai mergulhar na história familiar do próprio diretor, uma que está atrelada a percursos de migração entre o Brasil e o Japão. Tal pesquisa se inicia com o curta-metragem Aos Cuidados dela (2020),que integrou a Mostra Foco de 2020, curta-metragem dedicado à história de sua avó, filha de imigrantes japoneses, e os esforços na constituição de uma história comum entre gerações. Nesse mergulho na história familiar, o pessoal ultrapassa a fronteira da mera biografia e da intensidade das dinâmicas familiares para apontar para a história de trabalhadores e trabalhadoras que atravessam fronteiras e têm a sua narrativa de vida atrelada ao mundo do trabalho.

Também numa chave autobiográfica, mas com outros contornos estéticos, Seguindo Todos os Protocolos (PE), de Fábio Leal, coloca o diretor-ator no centro de uma trama de sobrevivência física e amorosa na pandemia, com um gesto que flerta com a autobiografia, sem deixar de também compor um registro do estado das coisas — do flerte, das relações, dos índices de contaminação dacovid, das paranoias pandêmicas. Se pensarmos nos outros filmes do diretor como Reforma, que integrou a Mostra Panorama em 2018, seutrabalho vai dar forma ao erotismo e à neurose nossa de cada dia, afetos misturados e resolvidos, nunca plenamente, na intensidade do sexo e da troca amorosa. Nas modulações dos dramas representados, tem performance, tem dramaturgia, tem autorretrato, tem documentário sobre a geografia dos corpos.

Sessão Bruta (MG), do coletivo independente As Talavistas – com Pink Molotov, Darlene Valentim, Marli Ferreira, Cafézin – e ela.ltda (Gabrela Luíza) intensifica a performance em uma casa transformada em cenário e palco para dança, conversas, ensaios em cena. Na banda sonora, as cenas são entremeadas por falas, depoimentos que surgem em meio aarranjos cênicos, mostrando também o imaginário, as lutas e as intensidades da vida de um grupo de artistas de Belo Horizonte. Como em Pietá, produzidopor As Talavistas e ela.ltda, e Drama Queen, de ela.ltda, curtas que também passaram por outras edições de Tiradentes, a mídia também performa, a textura do vídeo sendo desmanchada, as cores esgarçam o esquema RGB e o cenário de mídia contemporâneo – redes sociais, memes, posts, confessionários em sinal aberto – é matéria e meio de criação.

No pêndulo entre fabulação e documentário, entre observação e intervenção na ordem do mundo visível, Grade (MG), de Lucas Andrade, acompanha a vida de detentos em uma prisão com um esquema de reclusão alternativa. O gesto de conhecer o espaço, conhecer os detentos e a dinâmica de trabalho em um espaço de autogestão, se dá pelo olhar atento às dinâmicas de um espaço, mas também por um olhar colado a seus personagens. Desta forma, o que se dá a ver e o que se cria é também uma abertura, um olhar pela fresta de desejos, imaginários e criações audiovisuais que interrompem o fluxo usual da observação para dar vazão a um outro tipo de imagem/imaginário.

A Colônia (CE), de Virgínia Pinho e Mozart Freire, também entrelaça observação e gestos ficcionais ao registrar a dinâmica do bairro de Colônia, em Maracanaú (CE), zona estabelecida nos anos 1940 como área restrita aos portadores de hanseníase. A segregação do passado vai se tornando um outro tipo de segregação no cenário contemporâneo, uma que vai esquecendo das pessoas e suas histórias, onde o poder público chega somente com a força da expulsão. Com uma história que caminha em paralelo, uma personagem busca um lugar para morar, ao mesmo tempo que nos convida a conhecer pessoas que ali habitam, reconstruindo aquele por meio de conversas, passeios pela cidade, na visita pelas casas. A ideia de reconstrução e observação também marca o trabalho anterior dos diretores, que também passaram por Tiradentes. Miragem, de Virgínia Pinho, cria uma narrativa de vida através do arquivo, imagens e dispositivos encontrados em feiras, e Cinemão, de Mozart Freire, que observa a intensidade de um antigo cinema pornô. Ambos foram produzidos pela Escola Pública de Audiovisual Vila das Artes.

Alexandre Wahrhaftig, ganhador de Melhor Curta com E, na 17ª Mostra de Tiradentes, feito em codireção com Miguel Antunes Ramos e Helena Ungaretti, volta a sua atenção novamente à dinâmica espaço-social da cidade de São Paulo.  Em Panorama (SP), o diretor mergulha no passado e no futuro incerto da comunidade do Jardim Panorama, favela que vai sendo demolida com a invasão de vultosos projetos imobiliários. A memória do lugar, o mapa das suas ruas e as histórias de resistência vão sendo construídos pelos depoimentos, imagens de arquivo, caminhadas que reconstroem os antigos limites da comunidade, as casas que se foram, as moradias que permanecem. Os arquivos, os filmes amadores, as fotografias, são peças-chaves nesse mapeamento, dando a ver também a força do trabalho comunitário de outras micro-histórias ali presentes, como a história do rap na cidade de São Paulo, as mutações dos bairros, as formas do transitar pela precariedade dessa cidade em eterno movimento de construção e destruição.

Também atenta à geografia, Ariadine Zampaulo, em Maputo Nakurandza (RJ), faz uma crônica, uma incursão poética pelas ruas de Maputo, Moçambique, com uma modernidade narrativa (intensa e fragmentária) como raramente vemos no cinema atual. A câmera vai mapeando a cidade e criando vínculos com os personagens que atravessam o filme, criando sutis narrativas, nesse filme que se faz em um gesto de conhecer um lugar e suas pessoas, sua luz e seus sons, sua ordenação possível e seu caos. O seu trabalho documental-narrativo é uma fina linha que vai sendo tecida entre diferentes núcleos de interesse, as ondas do rádio que conectam seus personagens imersos em um cotidiano fabular, espectral e poético. Nessa miríade narrativa a diretora faz intervenções performáticas que evocam a ancestralidade como a dimensão do invisível que sustenta o imaginário daquele lugar ainda em embate com a violência colonial.

Uma abertura para o mundo que observa e fabula, registra e cria espaços, os filmes da Mostra Aurora apontam para essas linhas borradas entre, por falta de melhores palavras, a documentação e a ficcionalização, entre o registro e a fabulação, entre a biografia e o estado das coisas do mundo no qual os seus personagens habitam. São estreias em um Brasil que, se não podemos de forma alguma chamar de novo diante de uma situação marcada por enorme devastação, de alguma forma nos sentimos renovados por trazer a reafirmação de que a força do cinema está aqui e permanece, agora novamente com a possibilidade do encontro entre nós, o público, o vigoroso trabalho das realizadoras e realizadores aqui presentes.

Francis Vogner dos Reis

Lila Foster

Curadores