VARIAÇÕES POÉTICAS

Neste ano três dos seis integrantes da Mostra Olhos Livres já passaram pela Mostra Aurora: Allan Ribeiro (Mais do que Eu Possa me Reconhecer, vencedor do Aurora em 2015) chega com O Dia da Posse (RJ); Caetano Gotardo (Seus Ossos, seus Olhos, 2019), com Você nos Queima (SP); e Rodrigo de Oliveira (As Horas Vulgares, 2012, e Teobaldo Morto, Romeu Exilado, 2015) com Os Primeiros Soldados (ES). A seleção da Mostra Olhos Livres ainda conta com Germino Pétalas no Asfalto, de Coraci Ruiz e Julio Matos (SP), Manguebit, de Jura Capela (PE, SP e RJ) e Avá – Até que os Ventos Aterrem, de Camila Mota (SP).

Em O Dia da Posse (RJ), Brendo Washington sonha em ser presidente do Brasil, estuda Direito, discursa e performa como se estivesse em um reality show. A construção de uma performance na imagem em um cotidiano/intimidade que se tornou produção ininterrupta de imagens, ainda mais em um contexto de pandemia, não toma forma de mero registro, mas dá a ver os mecanismos das encenações, mesmo aquelas que parecem cenas da “vida real”.O filme também nos permite escapes poéticos, quando a mão no mar e a poesia recitada é respiro diante das desafiadoras restrições dos últimos anos. 

Assim como o filme de Allan Ribeiro, Você nos Queima (SP) é um filme que nos expande, nos faz respirar, que abre espaços no corpo, no tempo e no tecido da cidade. Através de coreografia dos corpos, das palavras e das coisas, a observação poética da cidade é um desdobramento das pesquisas de coreografia e teatralidade de Caetano Gotardo.  As pedras e a circunvoluções das águas, as pernas no metrô, a coreografia do próprio diretor no quarto, o jogo dialético entre palavra e imagem, tudo isso tem uma sinuosidade raramente vista no cinema.

Os Primeiros Soldados se passa em Vitória no início dos anos 1980 quando dos primeiros casos de HIV na comunidade Lgbtqia+. Filme de beleza plástica e com um tempo de montagem absolutamente singular, a performance das atrizes e atores se sedimenta em uma emoção eminentemente física no estado dos corpos, na imagem dos corpos e na relação entre esses corpos. A fatalidade do HIV à época, o contexto político e cultura, atravessados pela experiência do amor e da morte.

Documentário que também vai ser atravessado pelas rupturas da ordem da vida e do cotidiano que vivenciamos nos últimos anos, Germino Pétalas no Asfalto (SP) acompanha e testemunha mudanças da vida de Jack e de outros jovens que vivenciam a transição sexual. A câmera “observadora” tem estratégias de aproximação que redimensionam a noção de personagem por ter, por um lado, uma clara adesão, e por outro uma relativa distância para preservar a força própria das circunstâncias e situações filmadas. Um arco temporal e um arco de vida politicamente muito intensos.

Manguebit é um filme que faz um inventário do mangue beat a partir de fascinantes imagens de arquivo e narrativas que nos localizam em Recife e no restante do Brasil nos anos 1990. A forma do documentário, seu ritmo de montagem e seu entusiasmo metabolizam a intensidade das sonoridades do mangue beat, tangencia as polêmicas com os tradicionalistas, a reedição particularíssima e sob outra esfera de influência da modernidade antropófoga da arte brasileira e suas polêmicas com os tradicionalistas do movimento armorial, mais precisamente Ariano Suassuna. Os arquivos também dão a ver uma cena musical riquíssima – Cumadre Florzinha, Karina Buhr, Eddie, Mundo Livre S.A., Devotos, entre outros – e ampliam o imaginário do movimento para além da figura central e icônica de Chico Science.Atriz e diretora importante do Teatro Oficina, Camila Mota é diretora de Avá – Até que os Ventos Aterrem,que mobiliza uma cosmogonia ao mesmo tempo originária e derradeira para agenciar o caos do mundo desde a perspectiva dos trópicos. Avá cruza o teatro, imagens audiovisuais em um trabalho de montagem e som que experimenta tempos e texturas que não estão distantes do cinema e do vídeo que herdou a antropofagia dos modernos nos anos 1970 e 1980.

Esses seis títulos são exemplares da diversidade de enfoques da Mostra Olhos Livres, que tem revelado a cada ano uma variação de olhares de cineastas que em sua maioria já possuem um percurso mais ou menos consolidado e outros que fazem proposições de experimento, abordagem e estilo que consideramos que devem ser vistos e colocados em debate por sua singularidade ou radicalidade.

Francis Vogner dos Reis

Lila Foster

Curadores