CONSTRUÇÃO DE CENA, PERCURSOS E AFETIVIDADES

A Mostra Foco abre com a produção paulista A Morte de Lázaro, dirigida por Bertô, uma encenação da história bíblica de Lázaro contada com forte rigor formal e estético, que surge como uma interessante provocação no atual panorama do cinema. Também paulista, o curta Ingra!, realizado por Nicolas Thomé Zetune, é outro ousado experimento maneirista que combina e reimagina os universos do filme de assalto e da distopia fantástica numa mistura hipnotizante. Também de caráter experimental, o carioca Bicho Azul, de Rafael Spínola, é um monólogo direto e cortante, porém bastante afetuoso, sobre memória, imagem e o mistério que envolve o luto.

No também carioca Iceberg, o diretor Will Domingos, propõe pensar a realidade pandêmica através de outros códigos e, a partir do mal-estar que assombra uma cooperativa de costura para pessoas LGBT+, faz um comentário contundente sobre nosso tempo. A sessão é concluída com o curta Prosopopeia, um surpreendente jogo de cores, vozes e vidas realizado pela cearense Andreia Pires, que flerta com o teatro e o musical para pintar o panorama de um grupo mambembe tão heterogêneo quanto unido.

A segunda sessão da Foco abre com Madrugada, de Leonardo da Rosa e GianlucaCozza. Feito na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul, o documentário acompanha o percurso de homens que trabalham seguindo as linhas férreas antes do amanhecer. O ensaio cearense Rumo ao Desvio, de Linga Acácio, pensa a noção de desvio por meio de um corpo que se desloca em uma paisagem alterada pela transposição das águas do Rio São Francisco.

Produzido no curso de Realização em Audiovisual da Vila das Artes, em Fortaleza, e com recursos da Lei Aldir Blanc, Na Estrada sem Fim Há Lampejos de Esplendor, de Liv Costa e Sunny Maia, é atravessado por encontros entre jovens em uma viagem de noite de lua cheia por Jaguaretama, no Ceará. A sessão finaliza com Prata, de Lucas Melo, realizado na AIC do Rio de Janeiro. A trama parte dos anseios de um grupo de garotos que vivem no bairro que dá título ao curta, localizado em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Dirigido por Anália Alencar, Bege Euforia foi filmado em três municípios no interior do Rio Grande do Norte. No experimento ficcional, territórios escorregadios da experiência do feminino e do amor se reorganizam com o retorno do sagrado de um passado e de uma missão que precisa ser cumprida. Numa deriva sobre a experiência do êxodo, Eu te Amo É no Solé realizado em Minas Gerais, tem direção de Yasmin Guimarães e traz o reencontro de namoradas que precisam lidar com as (im)possibilidades de reconexões.

O Nascimento de Helena, também do Rio Grande do Norte, tem direção de Rodrigo Almeida (Surto&Deslumbramento). Em parte novelesco, o experimento caricato elabora uma fantasia de destruição. A sessão é encerrada com o filme-tese de Érica Sarmet, Uma Paciência Selvagem me Trouxe até Aqui. A produção de São Paulo articula vivências intergeracionais de mulheres sob um “gaze” lésbico que imprime um senso de liberdade às modulações de corpos e desejos.

Camila Vieira

Felipe André Silva

Tatiana Carvalho Costa

Curadores

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