SOBRE PERDAS, AMORES, DESCOBERTAS E RESISTÊNCIAS

A Mostra Jovem reúne experimentos e narrativas sobre e com adolescentes e jovens adultos que lidam com o cotidiano e inventam possibilidades de (re)existência. Em Luazul, dirigido por Letícia Batista e Vitoria Liz, Riva volta da Europa e precisa dar conta de seu passado recente enquanto Flávia lida com sua rotina cheia de responsabilidades. Em Campo Limpo, periferia de São Paulo, futebol, família e amor unem as duas. Realizado pelo coletivo Cidade Baixa, o curta A Realidade Não Tira Férias traz a volta às aulas de adolescentes que, em primeira pessoa, relatam seus cotidianos e sonhos atravessados pelos efeitos da pandemia e das desigualdades sociais em Salvador.

O documentário Ladeira Não É Rampa é apresentado como “um filme belfor-roxense”.  Antônio Ribeiro e Sandro Garcia assinam a direção, mas a criação é coletiva e traz o olhar de jovens que, depois de perderem as pistas de skate públicas –e as salas de cinema –, inventam espaços e um filme possíveis para suas existências. Realizado nas cidades de Santa Cruz do Sul e Cruzeiro do Sul (RS), Cacicus cria momentos de leveza para a vida de Laura, que vive com o pai religioso e trabalha na lavanderia da família em uma vida dura e cheia de incertezas. O curta tem direção de Bruno Cabral e Gabriela Dullius. A sessão termina com o Ano 2020, do coletivo Olhares (Im)Possíveis, que reúne a energia e inventividade da quebrada, do funk e do “grau” num experimento documental sobre a rotina de adolescentes da periferia de Ouro Preto durante a quarentena.

Camila Vieira

Felipe André Silva

Tatiana Carvalho Costa

Curadores

CURTAS

VIAGENS E IMAGINÁRIOS

Os Dragões é baseado em conto homônimo do escrito mineiro Murilo Rubião. No filme os dragões são um grupo de cinco adolescentes da cidade de Cotiporã, no interior do Rio Grande do Sul, que estão às voltas com os ensaios de um grupo de teatro da cidade, no qual se sentem hostilizados. Proscritos, começam a desenvolver no corpo a condição de “diferença” dentro de uma comunidade conservadora: ganham capacidades de dragão no fogo que soltam pela boca, um rapaz desenvolve pequenos chifres e uma menina ganha escamas. O conto de Rubião começa com uma frase que pode ser entendida como uma síntese do filme, mas também do Brasil contemporâneo: “Os primeiros dragões que apareceram na cidade muito sofreram com o atraso dos nossos costumes”. O filme tem uma concepção visual ao mesmo tempo hipergráfica e sutil e conta com atores de um grupo de teatro da própria cidade de Cotiporã, onde anos atrás Spolidoro filmou Morro do Céu.

Os Dragões é uma oportunidade não só das crianças e adolescentes, mas também dos adultos entrarem em contato com as belezas, as diferenças e o imaginários de dois extremos do Brasil. Se fosse só por essas características já valeria uma olhada, mas o filme elabora a partir de suas condições poéticas muito particulares. É aí que a experiência rica que pode oferecer tem a sua força junto ao público.

Francis Vogner dos Reis

Coordenador Curatorial

LONGAS