DIVERSA E POPULAR, A MOSTRA PRAÇA REFLETE O BRASIL

A pandemia trouxe grandes desafios para os festivais. Na última edição da Mostra de Tiradentes, realizada toda de forma online, a sessão Praça esteve presente, trazendo filmes mais populares e que dialogavam com um público mais amplo. Esse perfil de programação retorna este ano ao seu formato e energia original, com filmes de apelo para o público, complementado com um bate-papo ao final da sessão.

A Felicidade das Coisas(SP), de Thais Fujinaga, acompanha uma família de férias no litoral de São Paulo, um filme que se assenta nas sutilezas. O seu modo de observar a dinâmica de uma família e, principalmente, de uma mãe em plena gestão e seus dois filhos dá a ver o drama individual de cada personagem, ao mesmo tempo que constrói os elos profundos que unem mães e filhos.

Carro Rei (PE), de Renata Pinheiro, é também um investimento ficcional voltado para as conexões familiares, aqui pontuado pelo fantástico, por um carro tornado gente. A dimensão cotidiana-futurista de sua estética transforma esse mundo de intenso contato entre humanos e máquinas em um comentário incisivo sobre o nosso atual estado das coisas.

Três documentários complementam a programação. As Faces do Mao (SP), de Dellani Lima e Lucas Barbi, faz um apaixonante registro sobre a trajetória e vida de Mao, historiador, professor e vocalista da banda Garotos Podres, banda punk que retratou a vida do trabalhador, marcadamente a dinâmica fabril do ABC Paulista, também um enfrentamento direto à ditadura militar e à repressão de seu tempo.

Lavra (MG), de Lucas Bambozzi, une o desejo de documentação da devastação causada pela presença da indústria da mineração em Minas Gerais e o encontro de uma personagem com o seu lugar de origem, transformação e destruição da geografia humana e da natureza de um lugar.

Lutar, Lutar, Lutar (MG), de Sergio Borges e Helvécio Marins, conta a história do Clube Atlético Mineiro, o Galo, da sua fundação até a conquista da Taça Libertadores da América, em 2013. É um filme que garante um espetáculo sob medida para a Mostra Praça, pois tem o caráter ecumênico do futebol, o fascínio da camisa, a popularidade do clube e um histórico importante de preocupação com as questões da sociedade para além dos campos.

Francis Vogner dos Reis

Lila Foster

Curadores

TRAJETÓRIAS DE VIDA, RELAÇÕES FAMILIARES E PANDEMIA

Abrindo a primeira sessão da Mostra Praça, o curta potiguar Time de Dois, de André Santos, exibe, com rara delicadeza, um encontro entre o universo do futebol, cheio de índices masculinos e machistas, e a descoberta de uma sexualidade dissidente. Através de uma montagem imaginativa, o filme Central de Memórias, de Rayssa Coelho e Filipe Gama, relembra como a luta por moradia digna cruzou com uma produção cinematográfica na periferia de Vitória da Conquista (BA), nos anos 1990. A memória também é a linha central de Ansdionte, animação mineira dirigida por Gabriel Werneck, que olha com carinho para uma infância familiar e cheia de imaginação.

No intrigante filme sergipano Ímã de Geladeira, dirigido por Carolen Meneses e Sidjonathas Araújo, o estranho comportamento de um eletrodoméstico é o pano de fundo para uma narrativa que experimenta de maneira criativa os códigos do cinema de gênero. A sessão é encerrada com Magnético, um documentário de Cassemiro Vitorino e Ilka Goldschmidt que investiga os estranhos fenômenos acontecidos em Ipuaçu, pequena cidade no interior de Santa Catarina, a partir da perspectiva dos próprios moradores.

A segunda sessão da Mostra Praça inicia com o documentário baiano A Vida em meus Punhos, de Marília Hughes Guerreiro, sobre o cotidiano da pugilista Adriana Araújo, que almeja novas conquistas e títulos para seu devido reconhecimento no boxe. Montado com imagens do Google Maps e Earth, Acesso, de Julia Leite, traça uma cartografia afetiva de São Paulo a partir de lugares frequentados e rememorados por pessoas LGBTs, que falam sobre suas lembranças por meio de videoconferência.

A atriz Léa Garcia interpreta a avó de dois irmãos gêmeos que moram em um vilarejo pacato e silencioso na ficção carioca Ibeji Ibeji, de Victor Rodrigues, que constrói uma narrativa sobre descobertas e amadurecimento nas relações familiares. Montado com imagens de arquivo dos anos 1930, Margaridinha, uma Criança Antiga, de Caroline Chamusca e Karla Beck, imagina a vida de uma menina e suas vivências no bairro carioca do Méier no início do século XX.

A terceira sessão é composta por quatro documentários e inicia com um curta que aborda as consequências de um dos maiores crimes ambientais da história de Minas Gerais. Com direção e roteiro de Fernando Moreira, [O Vazio que Atravessa] revisita a tragédia e encara o luto de uma população a partir da história de Elias, um dos trabalhadores sobreviventes do rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Vale, em Brumadinho. Com direção de Carlos Henrique de Oliveira e Luís Ansorena Hervés, Deus me Livreé centrado na vivência de dois coveiros que atuaram durante os piores momentos da pandemia de covid-19 no cemitério de Vila Formosa, em São Paulo. Aliando observação da rotina de trabalho à automise-en-scène dos personagens, o curta ressalta a religião e a dignidade do trabalho como ancoragens possíveis para enfrentar as perdas e o medo do vírus.

Em A Represa É meu Quintal, dirigido por Bruna Carvalho Almeida,a velejadora Laís quer ser uma mulher negra a fazer história em sua região. No entanto, ela precisa enfrentar uma pandemia numa comunidade às margens do maior reservatório de água da Região Metropolitana de São Paulo. O documentário marajoara Meus Santos Saúdam teus Santos encerra a sessão. Dirigido por Rodrigo Antônio, o curta traz a experiência do diretor no reencontro com as tradições religiosas afro-indígenas de sua família e seu território, numa partilha de afetos e de esperança.

Camila Vieira

Felipe André Silva

Tatiana Carvalho Costa

Curadores

Curtas na Praça | Série 1

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