À CINEASTA PAULA GAITÁN

Foto: Leo Lara

A cineasta Paula Gaitán é a nossa homenageada na 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Ela, na sua ousadia expressiva e na variedade criativa, é uma artista incontornável do cinema brasileiro contemporâneo no que ele pode ter de mais livre. Faz longas, curtas, filmes com dinheiro, filmes sem dinheiro, filme caseiro, filme de performance, musical de memória, filme híbrido, documentário especulativo, ficção poética, cine retrato abstrato, além de ser uma artista que realiza trânsitos entre arte e cinema há muitos anos. Ela usa a câmera como uma pintora usa o pincel, tem um ouvido atento, dá cores à música (tudo pra ela é música, os ruídos , as cores).

Sua obra responde de maneira abrangente ao emblema da experimentação estética e da experiência poética. Usar esse termo ‘experimentação’ para definir sua obra não é um atalho terminológico e genérico, mas uma chave eficaz e que sugere necessária complexidade na aproximação de imagens que desafiam as definições e categorias mais convencionais do cinema contemporâneo.

Não interessa a ela exercitar as mesmas formas estilísticas ou os mesmos modos de produção formal. Atenta às circunstâncias, seu ofício e pulsão artística se adaptam às condições em que se encontra.  De qualquer modo, reconhecemos uma personalidade artística grave em cada um de seus trabalhos. Mas isso não se dá por um estilo específico, mas sim por um temperamento experimental.

12ª Mostra de Cinema de Tiradentes | Paula em debate da série Encontro com a critica, o diretor e o publico | Foto: Netun Lima

Cada um de seus filmes se empenha em buscas distintas, sempre novas, abrindo caminhos inexplorados, sobretudo por ela mesma nas suas obras anteriores: Vida, Agreste, Exilados do Vulcão, Memória da Memória, Noite, o videoclipe Mulher do Fim do Mundo da Elza Soares, É Rocha e Rio, Negro Léo, Sutis Interferências…a lista é grande. A cada filme ela refaz, repensa, redescobre e reinterpreta a dimensão do personagem, do tempo, do plano, da montagem (ela faz os cortes mais desconcertantes do cinema atualmente) e, sobretudo, do som.

Ainda há de ser avaliado com justeza (e justiça) o trabalho que Paula Gaitán realiza com o som no cinema contemporâneo. Ao lidar com o cinema de Paula Gaitán, a crítica precisa conquistar – ou inventar – ferramentas, conceitos e palavras tão novas quanto as imagens que ela elabora com o cuidado minucioso de artesã e com a coragem de poeta. Ela não se repete, não por vaidade, mas sim porque o imperativo da arte é um trabalho contínuo e renovado em busca daquilo que ainda não tem nome e nem palavra para definir, assim como em Mallarmé, Borges, Coltrane e Lygia Pape.

Paula Gaitán | Foto: Carlos Issa

Homenagear Paula Gaitán não é só reconhecer a dimensão de uma obra já consolidada, mas também é uma proposta para investigar as imagens de um trabalho misterioso e inquieto, de uma independência e uma singularidade radicais que possuem poucos paralelos na produção artística contemporânea. É investigar a verve criativa de uma artista que cria um caminho criativo a cada filme, a cada obra. Rever os seus filmes, investigar os seus processos é dar o ver desejo intenso e radical que guia o trabalho de uma artista.

Francis Vogner dos Reis
Lila Foster
Curadores

FILMES | Mostra Homenagem