Filmes no intervalo entre dois mundos

Em 2020, o mundo no qual nos assentamos teve uma rápida e inesperada mudança. Para o cinema brasileiro, que mergulhou mais profundamente em uma crise que destruiu quase por completo a estrutura de fomento estatal de produção, o ano foi desafiador também pela reinvenção de formas de filmar e de assistir filmes. Os festivais se tornaram online, o rito coletivo em torno do cinema deixou de ser o compartilhamento de um mesmo espaço e tempo e se dissipou nas lives, nos filmes disponíveis online e no encurtamento das distâncias entre os festivais e um público em potencial espalhado pelo país.  Não foi bom, não foi ruim, foi inaudito.

A experiência de curadoria também não passou incólume. O ato de olhar, de pensar em conexões entre os filmes e o que tomamos como a experiência – múltipla, contraditória, de viver no Brasil também foi permeado por um estranhamento nem bom, nem ruim, inaudito. Os filmes trazem a imagem de um mundo sem máscaras, de pessoas se abraçando, com uma circulação pelas cidades ainda não interrompida pelo vírus. A sensação era de que os filmes pareciam mostrar um mundo que não existe mais. Habitamos, neste ano de 2021, uma espécie de dobra no tempo e no espaço, na qual um ano atrás parece uma outra vida, na qual quase 10 meses de pandemia parecem uma eternidade, na qual as adaptações – do cinema, do mercado, da vida compartilhada – foram rápidas e o futuro já chegou.

Dentro dessa dobra de tempo denso e de espaço constrangido, o tempo do cinema (a montagem, a história, a duração dos planos) e o espaço (da cena, da natureza, das cidades) parecem ter se tornado mais perceptíveis ou sensorialmente tiveram outro impacto. O cinema pode construir um mundo sonoro e visual de experimentações e vivências ao ar livre e em contato com a natureza, como Oráculo, Kevin e Rosa Tirana. O cinema também pode ser clausura, como em A mesma parte de um homem e O cerco, nos quais os corpos de atrizes e atores se tornam eixo central. O cinema pode condensar uma experiência social e econômica de exploração perene, mas que não deixa de se transformar e se tornar mais aguda no tempo presente, como em Eu, empresa. O cinema pode construir uma outra temporalidade, uma forma de dar a ver o não visto e criar um novo gênero cinematográfico como o documentário-suspense Açucena.

A Mostra Aurora de 2021 nos mostra um outro tempo, outros espaços, não sem que possamos vislumbrar a abertura de caminhos nesses tempos de incerteza. No campo da criação ficcional, dois filmes trazem um forte investimento na dramaturgia, na construção de seus personagens e dos diálogos, filmes que intensificam, no seu trabalho artístico, um senso de isolamento. Nos dois filmes, duas personagens femininas incorporam um choque com o mundo tecendo resistências cotidianas. Em O Cerco, de Aurélio Aragão, Gustavo Bragança e Rafael Spínola,  a personagem principal é Ana. Dentro de uma casa que parece abrigar fantasmas, ela se vê espremida entre uma opressiva dinâmica da cidade do Rio de Janeiro – policiais e homens em fuga – e a presença de jovens vizinhos que a aterrorizam. As tensões da cidade e as tensões da história vão invadindo a sua casa, tensionamento que também se estende para o seu corpo dessa personagem que é atriz e mãe. Entre conversas sussurradas, dramas sugeridos, tudo parece estar a meio caminho. O que se instaura, porém, na construção espacial e temporal do filme é uma tensão perene, o cerco como um estado de sítio não declarado pela cidade do Rio de Janeiro, uma mulher que parece desprotegida.

A mesma parte de um homem, de Ana Johann, também opta por um espaço concentrado e forte investimento na construção cênica.   Aqui a atmosfera conferida ao drama de duas mulheres que vivem em um sítio isolado assume ares um pouco mais surreais com a chegada de um homem sem nome e sem história. O lado de fora também é uma ameaça e os corpos são os grandes portadores dos dramas e tensões vividos nesse embate entre o mundo externo e interno, entre o mundo dos homens e o mundo das mulheres. É na descoberta de uma outra forma de viver o desejo e o gozo que rearticula as formas de resistência de mãe e filha diante de um mundo que parece sempre ameaçador.

Entre uma ficção documentarizante ou um documentário com toques de ficção, Kevin, de Joana Oliveira, trata do reencontro da diretora, uma mulher branca, sem filhos e brasileira, e sua amiga Kevin, uma mulher negra, com dois filhos e recém instalada no seu país de origem, Uganda. Amigas desde o período em que moraram juntas durante a juventude, o documentário tece a fina trama que é uma conversa entre duas amigas: as histórias do passado, os desejos, os caminhos trilhados, os diferentes modos de encarar a matéria do vivido e um elo de amor e sororidade que resiste à distância e ao tempo. Filmado em Uganda, o choque cultural, as discussões sobre o racismo, a expectativa da maternidade e a realidade do cuidado com os filhos atravessam as longas conversas. A câmera que acompanha, de forma quase imperceptível, a dinâmica do cotidiano da vida de Kevin vira uma espécie de testemunho de um pequeno grande evento na vida dessas duas mulheres.

Grande destaque desse ano, a produção baiana traz três filmes com registros distintos, apontando para a riqueza da produção do Estado. Eu, empresa, de Marcus Curvelo e Leon Sampaio, é um filme radicalmente atento ao seu tempo. O longa traz novamente o personagem Joder, persona cinematográfica do diretor Marcus Curvelo, presente nos seus curtas anteriores. Joder é um sujeito espremido pelo seu tempo e que tenta sempre encontrar saídas para esse país inviável. Sem criar barreiras entre a performance, o registro documental e a encenação ficcionalizante, o filme é a síntese da precarização do trabalho, precarização da qual o mercado audiovisual parece ser vanguarda: nos tornamos empresas antes mesmo do processo violento de uberização do trabalho que testemunhamos nos últimos anos. O gesto político aqui se assenta em esmiuçar o aspecto tragicômico da exploração e como o setup contemporâneo do capitalismo infiltra de forma cada vez mais incisiva a nossa constituição subjetiva: eu, empresa.

Açucena, de Isaac Donato, é um documentário que dá a ver de forma fragmentar a personagem Açucena, uma mulher fascinada por bonecas, um gesto documental sutil e permeado de mistério. Com retratos parciais – a câmera que por vezes só enquadra parte dos corpo, detalhes de uma casa, pedaços de conversas – a montagem dá tempo ao olhar e aguça a intuição do espectador que vai construindo o sentido do ritual. É um filme que não constrói necessariamente um retrato de sua personagem principal, mas sim a potência da sua presença. O documentário instaura uma outra forma de fruir o tempo, um tempo de preparo e de busca espiritual.

No espectro fabular, o também baiano Rosa Tirana, de Rogério Sagui, é um mergulho mítico no sertão: a sua geografia, o assombro da fome, a religiosidade, os seus cantos e rezas. A menina Rosa é que guia o caminho na busca de Nossa Senhora Imaculada, rainha do sertão.  É a sua forma de perceber o mundo que a rodeia, uma imaginação permeada de medo e sonho, que produz imagens de fantasmagoria e encantamento. O sertão aqui se torna campo de experimentação visual e cênica e que foge do registro meramente realista.

Oráculo, da dupla Melissa Dullius e Gustavo Jahn, marca uma espécie de retorno dos diretores ao Brasil. Se Muito Romântico, primeiro longa do duo, é um filme que atravessa o oceano rumo a outras terras, em Oráculo, terra e paisagem são personagens, um olhar para a geografia brasileira, mais marcadamente a ilha de Florianópolis. Em seis planos sequências, o sentido da experimentação é multiforme já que cada sequência nos coloca diante de “objetos” diferentes. Com uma já ampla filmografia dedicada ao cinema de experimentação, com uma atenção à dimensão plástica e artesanal da produção de sons e imagens, mais uma vez se prescinde de uma construção de sentidos e sensações atrelada a uma lógica meramente narrativa.   Som e imagem pulsam, propondo ao corpo uma outra forma de fruir o cinema.

Todos esses sete filmes que compõem a Aurora marcam a virada de um período paradigmático. Esses são os primeiros filmes brasileiros lançados em um ano que, para além de todo o desmonte do país que segue em curso, está marcado pela dúvida, pela morte, pela melancolia, mas também por um desejo de mudança e liberdade que se torna mais intenso. Poderia se esperar desses filmes um mero diagnóstico do fracasso, elegias de uma dor incurável, mas esses sete filmes revelam uma outra coisa: o mundo não parou e não está marcado irremediavelmente pela fatalidade. Estão nessa dobra e a olham de frente. É possível entender que as tramas da vida, do mundo e da história seguem em sua dinâmica com uma complexidade que nos desafia.

Francis Vogner dos Reis
Lila Foster

Curadores