Atravessamentos subjetivos e presentes assombros do passado

As duas sessões Foco Minas trazem um sobrevôo na vigorosa produção contemporânea no estado. Realizadores iniciantes e experientes elaboram traumas individuais e coletivos, subjetividades e identidades em gestos que vão da representação direta à dimensão fabuladora, apontando possíveis saídas pelos caminhos do imaginário.

MOSTRA FOCO MINAS | Sessão 1

Com registros numa montagem que alterna o calor de acontecimentos e as digressões de lembranças recentes, videomemoria condensa o tempo e as dimensões da luta por moradia a partir das vivências de trabalhadoras e trabalhadores na ocupação Eliana Silva, na periferia de Belo Horizonte. O documentário é dirigido por Aiano Bemfica e Pedro Maia de Brito. 23 minutos tem direção de Rodrigo Beetz e Wesley Figueiredo e traz, no título, a medida do intervalo de tempo entre os assassinatos diários de negros no Brasil, numa história de jovens negros vivos com a consciência dos perigos que cercam sua existência. No experimento-manifesto SAPATÃO: uma racha/dura no sistema, dirigido por dévora mc, uma entregadora de aplicativo desabafa e performa em um videodiário que expõe as incongruências das normas sociais. Com direção de Pink Molotov, Pietá articula elementos da simbologia judaico-cristã ocidental e da cultura midiática popular numa performance sobre mitos. Encerrando a sessão Foco Minas 1 e dirigido por Guerreiro do Divino Amor, O Mundo Mineral incorpora os delírios do progresso extrativista e as hipérboles de uma colonialidade ainda presente à contemporânea falência ético-estética dos poderes institucionais e simbólicos no Brasil.

MOSTRA FOCO MINAS | Sessão 2

Em Mineiros, dirigido por Amanda Dias, a cada plano estático se adensam as sensações de devastação e abandono que assombram uma cidade, um país e, sobretudo as pessoas vítimas de um crime ambiental que parece não ter fim. O som da sirene, o silêncio-ausência e uma síntese em palavras reiteram as consequências materiais e subjetivas da presença histórica da mineração no estado. Com direção de Rafael dos Santos Rocha, Vigília apresenta a complexidade da ideia de isolamento em tempos de pandemia observando sujeitos anônimos e invisíveis que precisam ou só podem estar nas ruas da cidade. Crua tem direção de Clara Vilas Boas e Emanuele Sales e aborda as angústias e inseguranças de uma adolescente que tem de lidar com as consequências de um assédio, num movimento subjetivo pendular em espaços – íntimos e públicos – de opressão e de partilha. Também centrado na experiência de uma adolescente, Lençol Branco aborda o aflorar de múltiplas percepções de sexualidade e descobertas de si a partir de uma aparentemente frustrada primeira vez. O curta dirigido por Rebecca Moreno encerra a sessão Foco Minas 2.

Assinam o texto:
Camila Vieira
Felipe André Silva
Tatiana Carvalho Costa
Curadores