Criação em movimento. Conceito e prática

Paula Gaitán é um tipo de artista rara no cinema contemporâneo, pois investe, tal como preconizado pelo cinema de vanguarda do século XX, uma radicalidade de alteração da percepção, por meio das imagens e sons estimula outros vetores da experiência cognitiva e sensorial. Mas se em alguma medida a obra de Paula Gaitán está no lastro das invenções e da prática das vanguardas, ela é uma artista do século XXI, que leva na sua criação e no seu trabalho todas as implicações da imagem que habitam a realidade sensível da nossa época, ao mesmo tempo que é o avesso da economia da atenção contemporânea: seus filmes possuem um tempo próprio, fazem sentir a duração dos eventos, do “tempo da forma”. Gaitán faz imagens que são a renúncia do tempo célere da informação, da ansiedade sistêmica à qual aos circuitos de imagem hoje respondem com imensa violência. Esse é também seu aspecto mais fortemente político, não porque trate de “temas” ou “assuntos” politizados, mas porque faz uma intervenção aguda na nossa experiência com as imagens, nos propõe outro modo de viver e interagir com as imagens. Faz proposições, dá escolhas (incluindo a de recusá-la). 

Os filmes da Mostra Homenagem são exemplares. Luz nos Trópicos e Exilados do Vulcãoconstroem uma relação entre os tempos em transições temporais e dissoluções narrativas na própria imagem. Memória e passado, não como representação mimética, mas como criações que só fazem sentido redimensionas na relação: relação entre presente e passado, entre espaços distintos, entre memória e consciência, entre matéria fluida e matéria concreta. Essa dinâmica busca encontrar percepções inéditas para imagens que se recusam a significações imediatas em uma espécie de geologia das imagens. É como se cada imagem, cada memória, cada fragmento de história fosse a evidência possível de um rio caudaloso de sentidos e experiências que passam por debaixo delas, muitas vezes por brechas e rachaduras, vindo à tona com energia e mudando a paisagem mental e/ou histórica. Não é levantar questões e discuti-las com repertórios e ferramentas da reflexão tradicionais do pensamento (ciência social, política ou histórica), mas acessar o sensível, sem abrir mão dos elementos concretos, e vivos, que constituem o mundo. É um outro tipo de prospecção sobre as imagens, por isso “patologia” e “geologia” talvez sejam mais eficazes para entender os esforços da imaginação da diretora do que categorias narrativas e de pensamento às quais estamos mais acostumados.

É assim também com Diário de Sintra, Noite eo videoclipe de Elza Soares Mulher do Fim do Mundo. Em Diário de Sintra Paula Gaitán faz uma cartografia afetiva que, para acessar certos sentimentos inauditos, precisar recriar uma paisagem da memória com espaços e imagens que não tem relação concreta com os originais (que jazem no passado), mas que evocam e presentificam sentimentos e experiências irreprodutíveis na representação que busca a estreita repetição e a similaridade. Como não é possível repetir, reproduzir e representar a experiência de Sintra no fim dos anos 1970 com Glauber Rocha e filhos, é necessário encontrar outros caminhos, outros materiais para elaborar memória por sentimentos que são vivos. Não é nostalgia (que repete pela lembrança ou por recursos de representação o que se foi), mas é memória que é algo vivo e presente, não é passado ressurecto.

Noite é um dos seus filmes mais sortidos de imagens distintas entre si e realizadas com variados suportes, no corpo a corpo com espaços, pessoas e aparatos de imagem que orientam com intensidade o que se vê. É um filme físico, da Paula Gaitáncamerawoman, mas que também se dirige aos olhos e ao corpo de quem vê. As sonoridades de Noite têm um efeito físico, as imagens reorientam a relação do(a) espectador(a), do seu corpo, com o tempo. Como também em Mulher do Fim do Mundo, Noite é um filme de presença e gratuidade total em que música e imagem criam fusões e atritos em um filme de arquetipia feminina muitíssimo forte.

A matéria de trabalho de Paula Gaitán varia da variedade e da quantidade generosa de imagens e sons à economia radical, a um minimalismo expansivo, se assim podemos dizer. Dois dos seus três filmes inéditos e que estreiam na Mostra, HaceCamino al Andar, e Ópera dos Cachorros, tomam esse caminho. HaceCaminoal Andar é um trabalho com o artista Paulo Nazareth que tem uma construção musical de tema e variação. Paula trabalha poucos fragmentos em plano sequência. Os espaços são somente uma estrada e um campo. Dois corpos: Paulo Nazareth que avança em direção à câmera e volta, corre de encontro a um trator moderno que avança contra a câmera vorazmente. Um plano com variações de tempo. Em seguida, Paulo Nazareth em um campo. O trabalho sonoro, na construção diegética e muscial, também promove deslocamentos.

Ópera dos Cachorros é um filme em tela preta com tramas poéticas e sonoras que criam imagens muito vivas, robustas, que ao mesmo tempo delineiam uma solidão imaginativa e uma imaginação povoada. Segundo Gaitán, a base são áudios que fez em SãoPaulo e que traduzem sua experiência da cidade onde vive hoje. Como os outros filmes da cineasta, é uma experiência com distintas naturezas de imagem.

Por fim, Ostinato, filme com Arrigo Barnabé e que abre a 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes, é um retrato que Paula faz do artista. A começar pelo título: o termo ostinato se refere a uma ideia, um padrão rítmico de repetição. Tema de Arrigo Barnabé, mas também de Paula Gaitán. E o retrato do Arrigo é também o retrato do trabalho. Arrigo fala de música, de seus processos, toca e anda por São Paulo, cidade atonal na qual sua música se consolidou como uma de suas principais expressões. Mas é um trabalho de Paula Gaitán e por isso o filme não vai se contentar com uma construção carinhosa do personagem (ainda que aja afeto), no fascínio pelo artista (ainda que seja evidente a admiração) e nem pela construção biográfica do personagem. Interessa à cineasta questões criativas em ação: o espaço, as ideias que sedimentam as práticas, a execução das músicas, a discussão sobre conceitos. Em um certo ponto a cineasta intervém. Até então “invisível”, ela se torna interlocutora. Mas Ostinato não é uma entrevista: é uma dramaturgia das ideias e do processo de criação. A obra de Arrigo Barnabé e seu processo são a matéria.

A Mostra Homenagem é a oportunidade de ver em conjunto os filmes dessa que é uma das nossas principais cineastas. De um cinema de exercício radical e intransigente da inquietação e beleza. Como já dito aqui, um cinema político longe do cinema que se convencionou chamar de político. Dizer que Paula Gaitán é uma cineasta que faz um cinema político não é uma invenção curatorial de uma política conceitual e abstrata, meramente intelectual e formalista. As obras da diretora são gestos políticos reais, se considerarmos que as imagens – as imagens em geral – não estão pairando num mundo à parte, mas compõem com muita ênfase e consequências concretas o nosso mundo hoje. Há tantas (ou mais) imagens quanto há seres humanos. Não dá para separar mundo e cinema, realidade e imagem, fazer essa cisão (ou oposição) é declarar que a imagem é um mundo à parte. Isso não é só impossível hoje, mas é anacrônico e antipolítico.

Francis Vogner dos Reis
Curador