Olhos Livres – os territórios do cinema brasileiro como um arquipélago continental

A Mostra Olhos Livres desde seu início se notabilizou pela  diversidade de olhares e formas e, por abrir mão de um conceito fechado e critérios uniformizantes, ela se consolidou como uma mostra competitiva que esboça um panorama mais amplo, apresentando algumas das proposições mais instigantes do cinema contemporâneo brasileiro.

Se a Aurora dá visibilidade a filmes e cineastas em seus primeiros trabalhos, a Olhos Livres consolidou um perfil de filmes e cineastas que já contaram com alguma visibilidade e possuem carreiras mais consolidadas, mas que em Tiradentes encontram um debate e uma janela muito especial. O conjunto de filmes selecionados se afigura como uma síntese do que há de mais forte no cinema brasileiro da temporada.

Neste ano a mostra conta com filmes de práticas, processos criativos distintos e  perspectivas contrastantes. Neles encontramos ideias e fundamentos singulares e que possuem meios materiais e esforços expressivos completamente diferentes uns dos outros. O conjunto dos filmes, mais do que um país (o que poderia sugerir uma unidade e uma identidade) revelam, na sua diversidade, um arquipélago continental: ilhas que dividem a mesma origem geológica, mas que desprendidas de território continental se dividiram em pequenos territórios que podem se comunicar com mais ou menos intensidade, com diferenças de forma, de dimensão, de linguagem.

Pensar o país como um arquipélago continental não é fragmentar e particularizar os imaginários e os constrangimentos históricos do Brasil, mas é estabelecer pontos de vista e fundamentos distintos para sentimentos, narrativas, territórios, culturas e discursos que possuem intensidades únicas ainda que seja importante tecer um fio que possa unir as tramas políticas e temporais de cada filme: a presença dos ancestrais na terra demarcada e delimitada dos maxakali em Nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa!, de Isael Maxakali, Sueli Maxakali, Carolina Ganguçu e Roberto Romero,  passando pelas histórias e pelas lendas na demolição do morro do castelo no Rio de Janeiro em Subterrânea, de Pedro Urano, pela imanência de um artista que vive radicalmente o presente em Amador, de Cris Ventura, pelo país de hoje visto desde o futuro em Voltei!, de Ary Rosa e Glenda Nicácio e  Rodson ou (Onde o Sol Não Tem Dó), de Cleyton Xavier, Clara Chroma, Orlok Sombra, e chegando a uma narrativa em que o mundo chega aos seus estertores na eminência de um apocalipse em Irmã, de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes.

Nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa!, filme que traz pelo segundo ano consecutivo à Olhos Livres os realizadores Isael e Sueli Maxakali,  olha para o presente e a ancestralidade Maxakali no Vale do Mucurí revelando os desdobramentos do processo histórico colonial juntamente a uma dimensão do tempo vivido em que os espíritos dos antepassados possuem um papel ativo junto à terra e ao povo. O cinema como um instrumento de confluência entre tempos, entre testemunho e narrativa e de confronto direto com os seus algozes. Aqui, o cinema se torna uma incisão profunda nas disputas territoriais e simbólicas de um território.

Subterrânea olha para a origem do Rio de Janeiro que conhecemos hoje a partir de seu arrasamento em 1922 pelo prefeito Carlos Sampaio com a desculpa de ser um espaço decadente no centro da cidade e a lendas das galerias subterrâneas dos jesuítas que escondiam tesouros. O caso do Morro do Castelo, além de ser um paradigma da cidade do Rio como conhecemos, é também exemplar do modelo de modernização brasileiro que expulsa os pobres das capitais a partir de intervenções violentas. O filme de Pedro Urano é uma investigação narrativa e imagética, mistura de fábula com documentário das fantasmagorias que se escondem sob uma cidade que a um só tempo ruína e monumento. Em Subterrânea com em  Nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa!, o presente é repleto de passado.

Há filmes, no entanto, que se deslocam do presente para o futuro, ou na sua impossibilidade, como é o caso de Irmã, de Luciana Mazeto e Vinicius Lopes. Aqui há um outro tipo de reconhecimento de território (as personagens vão de Porto Alegre ao interior do Rio Grande do Sul) quando duas filhas buscam o reencontro com o pai. Duas situações limite emolduram essa narrativa que tem tons fantásticos e experimentam com cores e texturas nesse trânsito entre a narrativa dramática e o contato com os filmes de ficção científica: de um lado, o drama pessoal de uma morte iminente, de outro a chegada de um meteoro que pode significar o fim do mundo. Com uma trajetória tecida através da produção de curtas-metragens experimentais, muitos deles se valendo da artesania cinematográfica e a filmagem analógica, aqui os dois diretores experimentam com a construção de um filme mais narrativo.

Por sua vez, Rodson ou (Onde o Sol Não Tem Dó), de Cleyton Xavier, Clara Chroma, Orlok Sombra e Voltei, de Ary Rosa e Glenda Nicácio vêem o perecimento do nosso momento histórico desde o futuro. Rodson se situa no ano 3000,  Voltei em 2030. Em Rodson, o protagonista artista se lança em uma aventura em um mundo lisérgico, anarcototalitário e consumista onde, como diz o título, o “sol não tem dó”. A radicalidade está na forma: o próprio filme é um híbrido de geringonça tecnológica, videografia, artesanato, performance e viagem de cogumelo ou chá de trombeta. Em Voltei, é um futuro precário, em uma casa imersa na escuridão e sem energia elétrica, que duas irmãs recebem a visita de um fantasma. Como em Até o Fim (filme em que Nicácio e Rosa concorreram ano passado na Olhos Livres) há uma dinâmica de desconcertante agilidade cênica, com uma câmera atenta à vibração física na intensidade das atrizes, cortes inusuais e uma economia de espaço radical, em um huis clo de fundo escuro de onde emerge, de maneira espectral, o passado. A casa, as roupas, as notícias ouvidas pelo rádio de pilha, nada parece nos diferenciar: o passado, no caso, é o nosso presente e o futuro não está tão distante assim. 

O presente, sua força, sua imanência, é o vetor de Amador. No documentário de Cris Ventura o precocemente falecido artista, poeta, performer e pintor  Vidigal, uma das mais criativas e luminosas expressões do underground belorizontino, é mostrado com uma beleza que não se aparta da sua radicalidade poética, que por sua vez não é separada da sua própria aventura existencial. Vidigal viveu a intensidade do presente, sua fala e sua obra refletem essa qualidade de presença que é da rua, que é do mundo, que é da noite.

A imagem do arquipélago continental para o cinema brasileiro, e para esses filmes de modo mais pontual, não é a ideal. De certa forma, a imagem responde à complexidade do cinema brasileiro contemporâneo partindo da diferença, mas sem abrir mão de entender um lastro comum que aponta para a experiência de viver um tempo em que o passado se faz presente e o futuro parece inviável. Mais do que uma visão ou uma afinidade de perspectiva, os seis filmes da Olhos Livres possuem um espírito de época que os atravessa e que cada um deles se encarrega de fazer suas proposições. Todos esses filmes recuperam o passado de alguma forma, vivem seu tensionamento no provisório convulsivo do presente e se indagam quanto ao futuro.

Francis Vogner dos Reis
Lila Foster

Curadores