Diversidade estética, modulações de subjetividades e crises

Com maior número de sessões – seis ao todo -, a Mostra Panorama apresenta um conjunto amplo e diversificado da produção de curtas-metragens realizados em 2020. Propostas experimentais, construções ficcionais e olhares documentais são lançados por realizadores de diferentes territórios do país.

MOSTRA PANORAMA | Sessão 1

Abrindo a sessão Panorama 1, Levantado do Chão, curta de Gustavo Jahn e Melissa Dullius criado entre Brasil e Alemanha, é um experimento onírico que usa a textura granulada do 16mm e a falta de som para potencializar as imagens de um homem perdido por entre os lugares e as pessoas que compõem uma cidade. Também de caráter experimental, porém mais caótico e fragmentado, o filme Minha bateria está fraca e está ficando tarde, de Rubiane Maia e Tom Nóbrega, captura, através da tela sempre viva de um computador, a relação entre dois amigos num exílio forçado por conta da pandemia. Ilha do Sol, de Lucas Parente, Rodrigo Lima e Walter Reis, homenageia a figura mítica de Luz Del Fuego através de uma breve e poética performance. Vindo de João Pessoa, o curta Animais na Pista, de Otto Cabral, faz uma investida ousada no cinema de gênero, ao acomodar todo o desenrolar de um acidente, e suas consequências, numa sequência de planos longos e inquietantes. Usando o ambiente da noite de forma diversa, o carioca Vagalumes, de Léo Bittencourt, explora de forma sensual e insidiosa as cenas e personagens que se desenrolam durante a madrugada no Parque do Flamengo.

MOSTRA PANORAMA | Sessão 2

O curta manauara Seiva Bruta tem direção de Gustavo Milan e se conecta a um cinema narrativo contemporâneo na América Latina para abordar questões como imigração, gênero e violência. No paulista Mangue-branco, dirigido por Flávia K. Ventura,  a resignação de uma mulher com sua vida monótona – dedicada ao trabalho e a um casamento empalidecido – é abalada por um acontecimento trágico num curta ficcional de narrativa rarefeita. Opy’i Regua, documentário gaúcho co-dirigido por Júlia Gimenes e Sérgio Guidoux, acompanha e descreve o processo de construção de uma casa de reza (Opy) para um ritual mbya-guarani, numa imersão espaço-temporal em gestos – civilizatórios – de partilha. O também gaúcho Construção depura a persistência de uma mulher e seus filhos que, despejados, precisam erguer, com as próprias mãos, uma nova casa. O documentário dirigido por Leonardo da Rosa encerra a sessão Panorama 2.

MOSTRA PANORAMA | Sessão 3

A realizadora paulista Julia Katharine propõe em Won’t you come out to play? um tipo raro de filme, um delicado melodrama caseiro sobre as complexas relações de uma filha com sua mãe, pai e meia-irmã. Uma proposta ficcional mais tradicional também norteia Três Graças, curta capixaba dirigido por Luana Laux, que observa a ciranda de sonhos e desejos de três irmãs, moradoras de uma fazenda que abriga uma fábrica de cachaça. Dirigido por Bruna Barros e Bruna Castro, o documentário baiano à beira do planeta mainha soprou a gente utiliza a mescla entre imagens de arquivo e observação direta para investigar a complexa e por vezes difícil relação entre mães e suas filhas lésbicas. Já no curta paulista O Jardim Fantástico, de Fábio Baldo e Tico Dias e que encerra a sessão Panorama 3, uma professora utiliza Ayahuasca com seus alunos e vê as crianças se conectarem com os poderes ancestrais da floresta.

MOSTRA PANORAMA | Sessão 4

Fora de Época e Adelaide, aqui não há segunda vez para o erro trazem, cada um à sua maneira, escritoras malditas pouco abordadas no Cinema Brasileiro. O primeiro filme da sessão Panorama 4 – toda composta por filmes realizados em São Paulo – é co-dirigido por Drica Czech e Laís Catalano Aranha e se utiliza da obra de Cassandra Rios para revelar a uma filha lésbica o que sua falecida mãe precisou esconder sobre o passado.  No segundo curta, que tem direção de Anna Zêpa, é Adelaide Carraro que tem a obra rememorada por sua persona articulada ao imaginário de leitores em torno da própria sexualidade. Realizado por Sara Antunes, De Dora, por Sara conecta duas gerações de mulheres para revisitar a “Represa de Dora”, recriando a comunicação entre as militantes Maria Auxiliadora Lara Barcelos e Clélia Lara Barcelos no período da Ditadura Militar, fabulando possibilidades de lida com traumas individuais e coletivos. Encerrando a sessão, Menarca, de Lillah Halla, acompanha as estratégias de defesa de crianças que convivem com abusos sexuais em um ambiente embrutecido e habitado pelo fantástico.

MOSTRA PANORAMA | Sessão 5

Na Mostra Panorama 5, o documentário carioca Milton Freire, um grito além da história, de Victor Abreu, é um perfil do poeta que dá título ao curta. Diagnosticado com esquizofrenia e com histórico longo de internações, o escritor integrou o movimento antimanicomial no Brasil e lutou pela aprovação da Lei de Reforma Psiquiátrica, aprovada em 2001. O curta paranaense Você já tentou olhar nos meus olhos?, de Tiago Felipe, monta com imagens fotográficas um ensaio sobre o corpo de um jovem negro. Na ficção paraibana A pontualidade dos tubarões, a diretora Raysa Prado parte de uma alusão à literatura de Gabriel Garcia Márquez para fabular sobre um jovem que sobrevive de pequenos bicos e aguarda ligações telefônicas em seu apartamento. A ficção científica paulista Babelon, de Leon Barbero, apresenta um homem comum – interpretado por Caetano Gotardo – que está imerso por aparatos tecnológicos e precisa lidar com o excesso de comunicação mediado por uma voz. No flerte com o cinema de ação, Enterrado no quintal, de Diego Bauer, encerra a sessão 5. O curta narra a história de uma mulher que busca se vingar do padrasto que agredia sua mãe. No papel da protagonista, a atriz Isabela Catão também integra o elenco do curta O barco e o rio, que está na programação da Mostra Praça.

MOSTRA PANORAMA | Sessão 6

A animação mineira Vida dentro de um melão, de Helena Frade, abre a sessão Panorama 6 com fragmentos cotidianos do espaço familiar da realizadora e suas memórias de infância, ao lado da avó, mãe, pai e irmã. De Goiás, o curta Choveu há pouco na montanha deserta, de Rei Souza, parte do drama de um jovem ex-detento que busca retomar sua vida cotidiana, quando volta à cidade natal. No documentário paulista Caminhos Encobertos, de Beatriz Macruz e Maria Clara Guiral, duas lideranças da etnia Guarani Mbya sobem o Pico do Jaraguá e recordam a história do seu povo em meio à reconfiguração urbana do local. Interpretada pela atriz Rejane Faria, uma operária de uma fábrica têxtil organiza uma greve junto com suas colegas de trabalho, na ficção mineira Vitória, de Ricardo Alves Júnior, que encerra a Mostra Panorama 6.

Assinam o texto:
Camila Vieira
Felipe André Silva
Tatiana Carvalho Costa
Curadores