VERTENTES DA CRIAÇÃO

A Mostra de Tiradentes marca a cada ano um ciclo. Um ciclo de filmes produzidos no ano que antecede o mês de janeiro quando a mostra é realizada, um ciclo de questões que ecoam a partir dos debates do ano anterior, um ciclo de eventos sociais, econômicos, culturais indissociáveis do que podemos chamar de ‘campo do cinema brasileiro’.

A verdade é que se nos últimos anos temos vivenciado um ritmo acelerado na roda da história — manifestações sociais, golpe parlamentar, cortes cada vez mais profundos nas políticas sociais e no financiamento do cinema brasileiro –, nada nos preparou para o que vivenciamos desde Março de 2020 quando se deu o início do isolamento social devido a pandemia do coronavírus. Em um primeiro momento, foi um tempo de suspensão: reaprender a viver o cotidiano no espaço doméstico fechado, lidar com outras medidas de tempo, administrar a angústia de uma economia que para sem poder parar e aceitar a nebulosidade do horizonte de expectativas. Nessa experiência individual, comunitária e social, a materialidade da realidade é incontornável: revela de um lado os privilégios dos que podem parar e se recolher e do outro lado aqueles que não podem parar nunca.

Esse “tempo da suspensão”  parece ter propiciado um campo de reavaliação e processamento de experiências. Neste tempo é preciso estabelecer, reorientar ou formular outros e novos fundamentos para o mundo em que vivemos. Onde se pisa, afinal? O que a imaginação tem sedimentado em termos de uma forma e uma ética das imagens? Mais do que produtos, as imagens são desdobramentos de quais desejos? Nos últimos anos em Tiradentes, os filmes e, principalmente, a fala de diretoras, diretores de fotografia, atrizes, atores, montadores, diretores de arte, roteiristas, tem trazido relatos de experiências que apontam para ricas e múltiplas vertentes de processos criativos do cinema brasileiro contemporâneo. Esses processos criativos não são simplesmente novos modos de produção, mas uma reconfiguração de ideias, procedimentos, motivos e desejos. É o  desejo de filmar que se encontra com a necessidade de filmar. Esses processos revelam relações inauditas da imaginação com o real, em intervenções que não só questionam, mas se descolam de modos e procedimentos criativos e de produção mais normativos do ponto de vista técnico e estético.

Até um tempo atrás o conceito de “cinema de processo” era aquele que confiava o elã criativo ao imponderável da dinâmica entre técnica e real se libertando do roteiro e da hierarquia de produção. Hoje para falar em processo é preciso entender a variedade de métodos e questões  que passam por desejos e circunstâncias muito diferentes entre si. Falar de processo hoje é entender as novas epistemologias, os novos pontos de partida que orientam um cinema voltado não somente à intensidade do presente, mas sobretudo a uma atenção às temporalidades diversas que atravessam e coexistem nisso que chamamos de presente.

A trama dos exercícios criativos é complexa, porque diversificada na sua empiria e nos seus olhares ativos. Um cineasta índigena que faz um traveling sozinho com a câmera na mão enquanto guia um barco tem motivos e conquista sentidos diferentes na imagem daquele cineasta que, com uma equipe pequena, faz o traveling em meio a um ritual ou uma diretora que executa um traveling em espaço fechado numa cena que fora ensaiada anteriormente. Uma fala improvisada pode ser um achado circunstancial em método aberto, como também pode mostrar uma alternativa, uma fissura necessária, dentro de um processo cênico hipercontrolado.

Vemos nos filmes uma reconfiguração intelectual e empírica dos processos de criação. É claro essa reconfiguração vem de longe e não é uma novidade, mas hoje toda essas novas elaborações de processos singulares são condicionadas por elementos variados, sejam eles universos simbólicos, uma nova ética das imagens que nasce dos espaços, personagens e dos territórios, uma estética amparada em uma perspectiva crítica do automatismo das práticas da expressão audiovisual do mercado e, principalmente, uma economia do tempo que resiste ao modelo célere de velocidade da circulação do capital.

Quais são os desejos que guiam/dão origem os filmes? O que, afinal, dá forma ao filme? Como se criam métodos particulares para liberar experiências particulares? Como pensar os processos de artesania– a construção dos personagens, do espaço, a escrita, a montagem?  O que se faz com as mãos, os olhos, os corpos e o coração quando se está criando uma imagem? O convite a esse exercício de pensar esses caminhos do cinema pode criar (ou não) um léxico, novas palavras, acionar o campo de expressão das experiências particulares do trabalho de criação, um trabalho que não está isolado dos processos mais amplos do mundo (econômicos, técnicos, políticos), mas dele toma parte ativa com mais proximidade ou com uma calculada (e necessária) distância.

Vertentes da criação não busca enquadrar, não procura dar respostas ou tecer conclusões mais categóricas sobre o cinema brasileiro contemporâneo. Mas indica o desejo de entender, de dar a ver, de botar na roda o que leva, guia e movimenta quando se cria imagens e sons.

Francis Vogner dos Reis
Lila Foster

Curadores – 24ª Mostra Tiradentes