CINEMA EM TRANSIÇÃO

É  fato que a atividade cinematográfica – entre recuos e novos arranjos – passa por mudanças intensas. Nos últimos anos em virtude do contexto político e das mudanças de paradigma da indústria e do mercado, os produtos de televisão e de plataformas de streaming ganharam uma centralidade inédita. Por outro lado, a produção independente que contou com parcos recursos do Estado ou que se fez sem auxílio de editais, pode indicar um outro modo de criar, trabalhar e fazer circular obras audiovisuais. O cinema atravessa uma transição complexa em três dimensões: econômica, técnica e estética. É na relação mutável dessa trinca que a atividade profissional e a própria cultura tradicional do cinema se reconfiguram, desenhando um novo cenário para os próximos anos.A temática CINEMA EM TRANSIÇÃO investiga o que se afigura no presente de futuros possíveis no cinema brasileiro.

Uma transição técnica e econômica

Dentro dessa nova configuração profissional e das circunstâncias extraordinárias de isolamento na pandemia nos últimos dois anos, vivemos o  aceleramento de um processo de transição da difusão de filmes no seu formato tradicional – a sala de cinema e a televisão -, para as plataformas digitais, trazem desafios para as salas do circuito exibidor, para distribuidores e festivais de cinema. Essa mudança não é uma transição “lenta, gradual e segura”, mas são novos arranjos profissionais e artísticos tendo em vista uma realidade econômica e criativa complexa e uma movimentação cultural que não pode se  restringir mais aos antigos modelos de produção e circulação de obras.

Do ponto de vista econômico, a suspensão – provisória, parcial e/ou definitiva – das políticas públicas para o audiovisual afetou diretamente o cinema independente, que nos últimos anos vinha produzindo com mais dinheiro e estrutura, permitindo a existência e a manutenção de um mercado do cinema independente entendido aqui não somente como a produção de filmes, mas a manutenção de um campo profissional que permitiu que técnicos e profissionais de toda a cadeia audiovisual pudessem viver de cinema, incluindo nesse processo uma crescente presença de produções distantes do eixo Rio-SP pessoas negras, mulheres, cineastas de condição social fora do espectro da classe média e alta e, em número mais tímido, pessoas trans.

Hoje, a ocupação de espaços de produção, antes pouco acessíveis, ampliaram a noção de público para uma produção audiovisual que estava restrita ao circuito de cinema independente (sobretudo o de festivais), trazendo novas possibilidades para o trabalho criativo de equipes de cinema que passam a produzir em outros moldes e atingir novos públicos.  

Se por um lado esses novos vetores de mercado absorveram alguns profissionais, por outro muita gente tem pensado e atuado no possível das circunstâncias seja por meio do dinheiro disponível por leis de emergência (como a Aldir Blanc), seja na reorganização do modo de trabalho. Ninguém quer e nem pode parar. Se existe muita constrição, precarização e recuos nesse processo, no aspecto criativo lidamos com um cenário em que os intentos, as ideias e as práticas a partir do audiovisual são fortes em outros territórios de experimentação. Territórios que não são novos e já estão ai há um tempo, mas que nos chama atenção por serem paradigmas exemplares de um processo de produção audiovisual e criativa foram do mainstream e que se afiguram como paradigmas interessantes desse processo de  transformações do cinema.

Uma transição cultural

O trabalho com imagens e sons que entendem as telas como instrumento de investigação expressiva na música, no teatro e nas artes visuais e performativas  não aproveitam só o aspecto tecnológico da difusão de suas plataformas, mas também relacionam suas matérias e pressupostos particulares às possibilidades de invenção nas dimensões visuais da tela e na sua dinâmica de tempo, som e imagem entre o campo e o extra-campo. O audiovisual é parte fundamental de “cenas” alternativas ligadas à música e ao cenário midiático das redes sociais e internet que promovem intercâmbios com diferentes áreas de experimentação como o audiovisual e a performance, juntando artistas em uma dinâmica colaborativa e experimental.

A dinâmica dos coletivos também ampliam sua atuação para cenas culturais que ultrapassam a fruição convencional dos filmes e lançam suas criações diretamente no youtube ou projetados em ambiente clubber ou conjugados a projetos, por exemplo, teatrais. Os filmes, aqui no caso desses coletivos, fazem parte de uma cena mais ampla, que envolve teatro, performance, moda e mesmo o material da vida cotidiana transfigurado em estéticas, como por exemplo a queer (de coletivos como Chorumex, Translebixa e Anarca Filmes) e em um modo de recepção distante do tradicional, ou seja: filmes projetados na rua, em festas, não em salas escuras com cadeiras e espectadores silencioso. Esses trabalhos desafiam as definições básicas do que nos acostumamos a chamar de cinema enquanto fruição, mas também, muitas vezes enquanto divisão de trabalho dentro da hierarquia de set.

As mudanças não são, portanto, somente na cultura do cinema e na sua economia e desenvolvimento tecnológico, mas também na transformação do seu regime de percepção e de sensibilidade, no experimento estético de quem faz e na experiência estética de quem vê (e ouve). Se pensarmos o cinema menos como um objeto formatado e delimitado por sua identidade tradicional (a sala e a grande tela, os formatos tradicionais de curta e longa-metragem), e mais como um terreno de imagens e sons que conta com instrumentos diferentes – ciência, televisão, internet, cinema tradicional, apropriação do audiovisual por outras artes – nos deparamos, na verdade, com algo que não é novo: uma atividade técnica e estética que não é específica ou apartada de um amplo contexto artístico, midiático, social e político. E, em certos momentos, as transformações de suas bases se vêem desafiadas e transformadas de forma mais intensa.

Hoje, o cinema brasileiro brasileiro, tão frágil em sua estrutura, mas resistente e persistente, está em transição, a maior desde a popularização do aparelho televisor. E o que seria uma transição? Uma pesquisa rápida sobre o conceito de transição nos diz: “a transição é uma espécie de etapa não permanente entre dois estados”.

Entender que o cinema (o audiovisual) passa por uma reconfiguração é a ideia lançada pela temática da Mostra de Tiradentes 2022, um evento que também se situa em um intenso período de transição. Entre o online e o presencial, buscamos trazer esse cenário intenso de transformações para o centro das nossas discussões, sem querer delimitá-las por conceitos, mas trazendo essa intensidade para o centro de nossa vivências e debates.

Francis Vogner dos Reis – Coordenador curatorial

Colaboração:
Felipe André Silva
Lila Foster
Tatiana Carvalho Costa