Atriz e diretora Karine Teles, homenageada da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes ocupa um lugar de destaque no cinema brasileiro contemporâneo por sua capacidade de viver personagens do cotidiano comum, sejam elas trabalhadoras ou patroas, donas de casa ou estrelas de novela, com um tônus pessoal, um estilo. Seu rosto, sua voz e sua presença são marcantes. Sua trajetória é marcada por interpretações que se fazem menos pelo virtuosismo técnico e mais pela atenção a uma construção ao mesmo tempo delicada e enfática, com humor, mesmo nos registros mais melodramáticos.
Em Riscado (2010), estreia em longa-metragem de Gustavo Pizzi que concorreu ao prêmio de melhor filme da Mostra Aurora em 2011, Karine Teles interpreta Bianca, uma atriz que transita entre testes, trabalhos e relações com um certo grau de instabilidade, tentando sustentar simultaneamente a sobrevivência material e o desejo de de ser uma artista. O filme se faz entre ficção e alguma simulação autobiográfica, algo entre a fabulação construída e o efeito de espontaneidade, de improviso. A atuação de Karine foi, segunda ela própria, uma paradigma fundamental no seu trabalho. É um trabalho sofisticado e delicado que joga dramaticamente com os estados de espera, com o mínimo.
Quase uma década de meia depois, Salve Rosa (2025), dirigido por Susanna Lira, apresenta outro momento da carreira de Karine Teles. A trama acompanha Rosa (Klara Castanho), uma influenciadora digital de 13 anos com milhões de seguidores, cuja rotina é controlada pela mãe, Dora ( Karine Teles). Salve Rosa (#SalveRosa) é um suspense psicológico que aborda a mercantilização da infância nas redes sociais. Karine Teles é uma personagem hiper protetora e explora essa violência com uma sutileza que gera perplexidade e algum estranhamento.
Se em Riscado a personagem está em permanente deslocamento, em Salve Rosa o movimento é interno: trata-se de um enfrentamento mais denso. Vistos juntos, Riscado e Salve Rosa permitem deduzir a versatilidade do trabalho de Karine Teles. Ambos os filmes se inscrevem em tradições distintas do cinema brasileiro — o primeiro mais próximo do cinema independente urbano e autorreflexivo; o segundo, de uma crônica intimista em tom de thriller —, mas compartilham uma mesma atenção ao ordinário.
Karine Teles também é diretora e seu curta-metragem Romance (2019), está programado para a Mostra Homenagem. O trabalho tem como estrela Gilda Nomace e é o segundo filme dirigido por Karine depois de Otimismo (2015). Nele, a poética do melodrama serve a uma reflexão que pede, até certo ponto, um engajamento emocional do espectador: seria o romantismo uma armadilha, uma prisão para as mulheres?
Na Mostra Homenagem também contamos com os filmes disponíveis online como Quinze (2014), de Maurílio Martins (que estreou na Mostra Foco em Tiradentes), Otimismo, A Lama da Mãe Morta (2023), de Camilo Pellegrini, e o grande sucesso Que horas ela volta? (2015), de Anna Muylaert.
A atuação de Karine Teles, como atriz e diretora, atravessa distintos universos com uma sensibilidade rara que fazem de sua obra um ponto de referência para o cinema brasileiro contemporâneo.
Francis Vogner dos Reis
Coordenador curatorial