EM DEFESA DA BARBÁRIE

Vivendo numa era de morte da esperança e proliferação de devaneios impotentes, não é simples a tarefa de imaginar um filme de estreia, de iniciar um trajeto numa metragem mais extensa e colocar o pé numa história que de alguma maneira pressupõe e sugere alguma forma de continuidade. Na Mostra Aurora, um dos desejos do trabalho é justo esse apontamento duplo: comunidade, olhem para esses filmes, artistas, continuem. De certa maneira estão sugeridos aqui começos, meios de trabalhos, formando uma imagem incompleta e (desejamos que) instigante, do que o cinema brasileiro é e pode ser, e, além disso, sugestões de “como começar”.

Nos filmes Obeso Mórbido (Diego Bauer), Para os Guardados (desali e Rafael Rocha), Politiktok (Álvaro Andrade), Sabes de mim, agora esqueça (Denise Vieira), A Voz da Virgem (Pedro Almeida) e Vulgo Jenny (Viviane Goulart) se apresenta uma clara e multiforme disposição para pertencer e trair seu próprio tempo histórico. A atual morte do futuro empurra os começos de carreira para um moedor de trajetórias, produtor de assimilação uniformizante. Cada vez mais a força das fórmulas e subfórmulas, plásticas e ideológicas, se plasma nos filmes que buscam uma tela ao sol. O que esse conjunto faz é buscar preservar sua barbaridade, sua inadequação – de formas bastante distintas – e este é portanto o trabalho político prioritário do nosso tempo.

No filme de Bauer, o exercício de autoficção vai se dissolvendo, trafegando lâminas morais com invenção e desconforto, organizando erotismos singulares e constrangimentos produtivos, tendo ao fundo uma Manaus não vista com frequência  em longa-metragem. Já Vulgo Jenny tem um centro mais difuso em relação a sua protagonista, dedicando grande atenção a uma viva geografia de uma Goiânia comum e escondida, que nos mostra cores, sabores, desencontros, próximos a uma matriz do cinema brasileiro que baliza nosso trabalho, erigida por figuras como Ozualdo Candeias e Carlos Reichenbach, num lirismo popular sem soluções fáceis, extremamente imune às armadilhas do bom gosto burguês. 

Neste sentido, A Voz da Virgem aponta para um tipo de experiência de ambições frontalmente anacrônicas em que a dimensão irônica permanecerá no lugar em que é realmente produtiva: o da dúvida. A superfície religiosa do enredo funciona como mote para uma exploração de um erotismo fora de moda e firme numa tradição gauche do cinema do Rio de Janeiro. A energia multiforme das estratégias de Pedro Almeida aqui encontra outra empreitada caleidoscópica, com desali e Rafael Rocha no bairro Nacional, em Contagem (MG). Também aqui, o próximo capítulo tem sempre a forma de uma surpresa, de um novo registro, tom e pegada. A estabilidade geográfica permite que a paleta de formas de ataque se amplie neste singular ensaio sobre o encarceramento chamado Para os guardados.

Sabes de mim, agora esqueça trabalha também a chave enclausuramento-movimento, cujas variações entre o íntimo do claustro e vastidão do exterior de um singular DF são sempre de uma expressividade incomum. Muitas são as formas de ser, de se relacionar, de se encaixar, desencaixar, mostrar e esconder, e igualmente muitas são as caras do desejo – e aqui observamos o cuidado em mantê-las “inadequadas”. De Salvador, vem um metaensaio trazendo para o “lugar errado” um retângulo ereto que ocupa nossas vidas muito mais que as telas dos cinemas. Estas, se tornaram não um espaço de exclusividade das imagens, mas um ritual de um possível duração mais resistente da atenção. O que significa o reflexo de um processo eleitoral visto pelo teatro de variedades digital de uma rede de vídeos curtos, que deixa a maioria da tela do cinema em preto total? Quais zonas de não-visto este regime de estimulação contínua nos permite experimentar quando deslocado? A pergunta interessa e está posta em Politiktok.

Um dos ensaios mais importantes do crítico e ensaísta André Bazin se chama justamente “O que é o cinema?” e sua pertinência reside em grande parte na presença inquietante da pergunta. Enquanto ela estiver viva nos filmes, enquanto sobreviver a incerteza criativa que nos faz perguntar “isso é um filme?”, haverá trabalho margem de trabalho crítico. Quando tudo se torna produto e propaganda, a presença da interrogação é o indicador ético de que critérios de não assimilação são possíveis. Através desses filmes persiste uma pirraça, uma vontade de não deixar desidratar a energia do acinte, sinalizador de que estamos portanto vivos. Seguimos.

Francis Vogner dos Reis
Juliana Costa 
Juliano Gomes
Curadores

Colaboração: Bárbara Bello – assistente curatorial