PARADOXAL CORAÇÃO DA HISTÓRIA
Vivemos um paradoxo: ao mesmo tempo que as mediações do presente nos empurram para sermos um só, um perfil, um consumidor unificado, uma identidade identificável, o fluxo da vida nos divide, e se oferece diante de nosso corpo em mil variações, épocas e pedaços. A história do mundo pisca para nós e a história do cinema rola aleatória sob nosso feed. No conflito entre unificação radical versus dispersão absoluta, resta ao corpo do cinema uma tarefa essencial e quase invisível: remontar. Rearranjar o mundo, refazer conexões e acima de tudo reimaginar as ligações e as frequências. Entretanto, os brilhantes frangalhos do rolo compressor da vida não permitem que as coisas sejam remontadas seguindo seu modelo original: é preciso refazer o mosaico do que restou do passado e justo esse fazer engendra a intuição do futuro.
No segundo ano sendo o coração, a medula e o fígado da Mostra de Cinema de Tiradentes, a Mostra Olhos Livres traz um conjunto que não é possível resumir em unificação, entretanto, como teia, produz uma imagem fractal do que o cinema brasileiro é e, simultaneamente, do que ainda pode ser. Diante do terrorismo plataformista que nos acostuma as pupilas e os intestinos a estímulos medianamente pobres, a microdoses de satisfação e indignação, o que esses filmes querem é justamente se aventurar por variadas desmedidas e pulsações. E diante do apetite pela instabilidade, subjazem costuras que são, no horizonte da nossa equipe, fios invisíveis de um futuro que se esgueira nos becos ainda não dominados por corporações e pelos lobbys que desertificam a elasticidade do nosso desejo.
Usando a imagem deste corpo, dizemos fígado ao experimentarmos um trabalho como o de Vinicius Romero em Tannhäuser, em que a tarefa da alquimia, de uma espécie de misterioso laboratório químico e ótico, desenha uma linha entre o ínfimo e o operístico-maximalista, criando uma literatura semiletrada dos sentidos, que conjuga os afetos da presença e da ausência. De certa forma, o tônus atmosférico de Florestas da Noite (Priscyla Bettim e Renato Coelho) nos apresenta um certo apetite pela noite como substância, uma sede do veneno do desconhecido, materializada num delírio sedutor e de uma plasticidade igualmente ímpar, igualmente de tesão inventariante.
O trabalho de Anita Leandro talvez esteja no corpo da programação no espectro da medula: ele diz respeito às reações e ao tutano, ao interior dos ossos e ao reflexo. Difícil encontrarmos no cinema investigações dos porões dos regimes autoritários com esse tipo de sensibilidade formal que permite ao mesmo tempo que o material funcione como evidência revelada e, ao mesmo tempo, plasticidade ativa. Diante de um ambiente político que tende ao moralismo e à metafísica das virtudes, Anistia 79 se apresenta como proposição robusta de uma política das imagens inseparável de um regime de imagens da política. Simultaneamente, o capixaba Bernard Lessa, com Meu tio da câmera, em mergulha no âmbito dos gestos mínimos da domesticidade para formar um retrato necessariamente falhado de um personagem cuja proximidade e distância, oscilam formando um hífen entre décadas, que conjuga familiaridade e opacidade numa espécie oposto complementar em termos de tom e escopo ao filme de Anita Leandro, cuja energia é igualmente externa e interna, visível e invisível, falada, falida e calada.
O paralelo entre imagem remontada e vínculos afetivos está presente em Ao Sabor das Cinzas (Taciano Valério) e O Enigma de S. (Gustavo Jahn), em atmosferas quase opostas entre si. Algo precisa ser restituído, algo está quebrado, e como usualmente no mundo das narrativas, o principal está na jornada, em percorrer os caminhos, colando os fotogramas. Os porões morais das relações familiares dão lugar a irrupção inesperada do lúdico, em que as ligações serão estabelecidas em patamares diferentes, em temporalidades e registros distintos, tacando o tempo regular na brasa incandescente. A imagem, em ambos os filmes, não é representação do todo, mas justamente da falha, da incompletude que move, que balança os ódios e os desejos, uma superfície propulsora de movimentos múltiplos e imprevisíveis, sujeitos aos variados impulsos do coração.
O trabalho da MBVideo tem representado um sopro de vida no ambiente dos grupos de cinema no Brasil recente, recuperando uma dimensão que se tornou tabu no ciclo histórico da última década no cinema independente: o prazer. Amante difícil (João Pedro Faro) é mais um passo de uma filmografia que rearranja a história do cinema de maneira amplamente onívora, fazendo do modo de produção artesanal uma oficina de imaginação provocadora, bem humorada, igualmente desesperada por vínculo e inundada por uma espécie de excesso de história, que vaza por todos os lados, de formas inesperadas.
Portanto, o que queremos final: a força do coração, como usina do bombeamento do sangue, de uma economia dos recursos e dos sentidos se nunca estagne em grandes concentrações e acumulações avaras. E igualmente como fábrica de polirritmias para desafiar a regularidade mortífera dos fluxos das adicções digitais. Um coração paradoxal, bifurcado, desconfortável, um cinema que seja bomba e que seja fluxo, que quando parece que vai parar transforme sua aparente pausa final num intervalo de mil compassos, em que dançam todos os caquinhos do que foi, animados agora pelos batimentos suspensos do que ainda pode ser.
Francis Vogner dos Reis
Juliana Costa
Juliano Gomes
Curadores