A Mostra Panorama de 2025 nasce do enfrentamento direto a um cenário paradoxal do cinema brasileiro contemporâneo: o crescimento expressivo da produção de curtas-metragens e a limitação dos espaços de exibição e diferenciação estética. Diante de um volume recorde de filmes inscritos, a curadoria aposta menos na ideia de “destaques da temporada” e mais na construção de um conjunto que tensiona repetições formais e narrativas recorrentes, valorizando obras que, em suas singularidades, abrem frestas de diferença. Os filmes selecionados articulam debates políticos, estéticos e territoriais, compondo um panorama que se afirma pela diversidade de gestos, linguagens e modos de fabulação.

Panorama 1 — Dramaturgias infinitas
A primeira sessão reúne filmes que expandem e tensionam as formas clássicas de narrar, entrelaçando mito, documentário, ficção e dramaturgia afetiva. As obras percorrem narrativas indígenas, geografias comunitárias, fabulações do cotidiano e construções sensoriais que deslocam o tempo linear. Ao apostar na oralidade, na escuta, no corpo e na memória como motores narrativos, a sessão propõe dramaturgias abertas, onde o gesto ancestral, o afeto cuir, o imaginário coletivo e a experiência negra se tornam forças estruturantes da cena cinematográfica.

Panorama 2 — Encontros e desvios pelo tempo
Na segunda sessão, os filmes investigam o tempo como experiência compartilhada, atravessada por memória, afeto, história e pertencimento. Entre encontros íntimos, arquivos reencontrados, relatos familiares e conversas aparentemente banais, as obras constroem narrativas que desviam do testemunho convencional para acessar zonas de comunhão, fantasmagoria e escuta sensível. A sessão articula diferentes gerações, espacialidades e vivências negras, propondo um cinema que se faz no intervalo entre o passado vivido, o presente observado e os futuros imaginados.

Panorama 3 — Em busca da paisagem
Encerrando a mostra, a terceira sessão é atravessada pela ideia de percurso, deslocamento e paisagem como força narrativa. Os filmes operam entre o documental, a ficção e o híbrido para refletir sobre território, memória histórica, espiritualidade e conflito social. Caminhos indígenas, retiros existenciais, arquivos de tragédias urbanas, fabulações literárias e reinvenções de gêneros cinematográficos compõem um mosaico onde o espaço não é cenário, mas agente ativo da narrativa. A sessão afirma a paisagem como campo político, simbólico e sensorial, em constante disputa de sentidos.