ENTRE MUITOS PÚBLICOS: A TRAJETÓRIA DE KARINE TELES
Karine Teles é um rosto e um nome conhecido em vários segmentos do público brasileiro. A motoqueira sudestina de Bacurau (2019) e a patroa de Que horas ela volta? (2015) são personagens tão conhecidos do espectador de cinema quanto Madeleine de Pantanal (2022) e Aldeíde de Vale tudo (2025) são conhecidas dos espectadores da televisão. Em princípio essas personagens nada teriam em comum. No entanto, Karine Teles traz a elas uma espessura própria que ao mesmo tempo delineia a singularidade do seu trabalho de atriz e constroem a identificação dessas personagens com tipos proeminentes no imaginário do Brasil contemporâneo. Suas personagens podem ser ricas, mas são sobretudo emergentes, são trabalhadoras, mães e suburbanas em atrito com um mundo hostil a elas, podem ser também desventurosas personagens que desejam além daquilo que lhes é dado, o que podem se fazer no registro cômico ou melodramático (ou aderindo aos dois ao mesmo tempo). Entre a crônica social, o melodrama e o cômico, Karine Teles cria personagens que se identificam profundamente com a complexidade do Brasil atual e dá a isso graça, um rosto, uma voz, um tom.


Entre tantos trabalhos, o filme que a própria Karine Teles considera uma mudança de paradigmas na sua carreira, Riscado (2010), de Gustavo Pizzi, foi um dos selecionados para a Mostra Aurora da 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes (2011). Ela repetiria a parceria com Pizzi em Benzinho (2018) e na minissérie realizada para o Canal Brasil Os últimos dias de Gilda (2020).
Karine Teles é um dos exemplos mais flagrantes de um talento que se afirma com igual força na obra dos diretores brasileiros contemporâneos de cariz mais autoral como Gustavo Pizzi, Kléber Mendonça Filho, Gabriel Martins e Maurílio Martins e na produção audiovisual de repercussão popular e de grande alcance midiático, tendo nos remakes de Pantanal (2022) e Vale Tudo (2025) dois dos casos mais exemplares.
Nossa homenagem à Karine Teles vem do reconhecimento de sua força e talento, mas também porque identificamos nela um compromisso com a criação exigente e com o cinema brasileiro na sua expressão mais original e fértil. Se a Mostra de Cinema de Tiradentes a cada ano faz um esforço de homenagear os artistas do cinema brasileiro a partir imperativo de criação, busca reconhecer também a capacidade de seus trabalhos em alcançar ampla repercussão pública. Karine Teles faz essa síntese de modo deslumbrante.
Francis Vogner dos Reis
Coordenador curatorial
