ENTRE A SOBERANIA IMAGINATIVA E A PRODUÇÃO DO FUTURO, 29ª MOSTRA TIRADENTES REVELA URGÊNCIAS DO AUDIOVISUAL NUM MOMENTO DEFINIDOR E DE PROJEÇÃO MUNDIAL
Publicado em 31 jan 2026Ao longo de nove dias de debates, exibições, encontros e diversas outras atividades a ocupar as ruas da cidade histórica, a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes seguiu sua vocação de ser o espaço do audiovisual brasileiro, tanto em termos estéticos quanto políticos. Num contexto de avanço das decisões do Estado e a apreensão por novas eleições que podem definir os rumos da produção no país, a edição do evento articulou de modo transversal a noção de “Soberania Imaginativa”, adotada como temática, às condições materiais de realização, circulação e permanência dos filmes.
A relação se deu entre o direito de imaginar e o direito de produzir, existir e disputar sentidos no espaço público e poético. Entre a reconstrução de um ecossistema de continuidades e a defesa de formas não domesticadas de criação, a Mostra pôs em diálogo Estado, mercado e criadores para pensar como o estímulo à produção é caminho para sustentar volume, diversidade, autonomia simbólica, risco formal e capacidade crítica, mesmo e inclusive diante de pressões econômicas e industriais que têm moldado o audiovisual.
O 4o Fórum de Tiradentes – Encontros pelo Audiovisual Brasileiro representou um novo marco ao reunir profissionais e representantes do Estado e da classe para debater a reconstrução democrática e a sustentabilidade de uma cadeia produtiva que enfrenta desafios estruturais e tecnológicos. Debates buscaram identificar caminhos para fortalecer a identidade nacional e a projeção internacional do Brasil num cenário globalizado e bem no momento em que um filme como “O Agente Secreto” concorre em quatro indicações ao Oscar. “Temos um cinema vivo e propositivo”, disse a pesquisadora Tatiana Carvalho Costa.
No campo das políticas públicas, apresentou-se a inclusão do audiovisual no programa Nova Indústria Brasil (NIB), o que coloca o setor como estratégico para o desenvolvimento econômico e industrial dentro da economia criativa. Paralelamente, discutiu-se a formulação do novo Plano de Diretrizes e Metas (PDM) para o período de 2026 a 2035, que visa orientar as políticas de Estado para cinema, TV, games e streaming na década que vem. A construção desse plano envolveu uma metodologia participativa, com a escuta de centenas de pessoas em todas as regiões, buscando reduzir burocracias e valorizar as diversidades regionais e étnico-raciais. A secretária do Audiovisual Joelma Gonzaga, disse que a essência desse movimento é a construção de uma política de Estado perene. Citando a ministra da Cultura, Margareth Menezes, Joelma afirmou que “o audiovisual é maior do que a indústria automobilística e farmacêutica” em termos de relevância e dados econômicos.
A estratégia de internacionalização do cinema brasileiro também esteve no centro de muitas conversas, embalada pela vitória de “Ainda Estou Aqui” no Oscar 2025 e a campanha bem-sucedida de “O Agente Secreto” nos circuitos pelo mundo. Contudo, esse contexto recente foi visto com cautela em relação à continuidade. O produtor Rodrigo Teixeira foi enfático ao declarar que não vê o cinema brasileiro retornando ao Oscar nos próximos dois ou três anos, e argumentou que os sucessos atuais são frutos de diretores consagrados que “têm o mesmo peso da bandeira de um país”.
Ele apontou um hiato geracional e estrutural causado por anos de desmonte das políticas culturais no Brasil entre 2016 e 2022. Rodrigo ressaltou que “a continuidade não vai existir num primeiro momento” e que o reconhecimento internacional exige uma política que valorize também o técnico brasileiro e a capacidade de diálogo com vizinhos da América Latina. Ele exaltou, porém, os grandes talentos brasileiros e disse que a Mostra de Tiradentes é um cenário vivo disso. Só é preciso, para ele, que esses talentos consigam superar os obstáculos do mercado e construam carreiras bem orientadas.
Pauta urgente no cenário cultural brasileiro, a regulamentação das plataformas de streaming e do VOD (video on demand) foi um dos pontos mais sensíveis e discutidos na Mostra. As divergências e convergências entre os projetos de lei no Senado (PL 2331) e na Câmara (PL 8889) foram apresentadas e debatidas, a partir de pontos como a alíquota da Condecine, a preservação da propriedade intelectual e a cota de catálogo para produções independentes. A deputada Jandira Feghali foi uma das mais ferrenhas defensoras da regulação e reforçou que o mais importante agora é votar algum projeto de lei, sob risco de o ano eleitoral travar a pauta e manter o audiovisual brasileiro desguarnecido diante dos ganhos das plataformas estrangeiras.
A complexidade regulatória revelou alguns pontos de tensão, convocados a serem discutidos dentro das possibilidades dos projetos de lei. Um dos pontos de discórdia é o repasse de fomento para uso particular das plataformas. A produtora Mariza Leão manifestou ceticismo quanto à gestão do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) para recursos próprios e alertou que, sem uma política de distribuição e exibição atrelada à produção, muitos filmes continuarão sem alcançar grandes plateias. Por outro lado, Thiago de Aragão, da Associação dos Produtores Independentes, criticou o modelo que ele chamou de renúncia fiscal disfarçada de investimento. Para ele, é importante que grandes valores fiquem atrelados ao Estado e distribuídos por editais e concursos.
Ainda no campo da circulação e da articulação internacional, a 29ª Mostra de Tiradentes também incorporou reflexões estratégicas a partir da Conexão Brasil CineMundi, extensão do programa de coprodução promovido pela Universo nas edições da Mostra CineBH, realizada no segundo semestre em Belo Horizonte. Críticos e curadores apresentaram impasses e ideias para tensionar o papel dos festivais num cenário atravessado pela crise das salas de cinema, pela disputa desigual por atenção nas plataformas digitais, pela concentração do mercado audiovisual e pelo enfraquecimento dos modelos tradicionais de financiamento.
Em diálogo com a temática da soberania imaginativa, participantes da Conexão Brasil CineMundi destacaram os festivais como espaços de curadoria crítica, formação de público e resistência cultural frente à saturação de imagens e à crescente mediação algorítmica. As análises tratadas em algumas mesas de debate apontaram que a sustentabilidade dos festivais não pode ser pensada apenas em termos econômicos, mas também simbólicos e institucionais, exigindo estratégias de longo prazo capazes de manter sua relevância cultural e política.
Outro eixo da Conexão Brasil CineMundi em relação à presença do Brasil em festivais foi a compreensão dos eventos como agentes ativos do ecossistema da difusão cinematográfica. Mais do que espaços para estreias ou consagração pontual de filmes, os encontros realizados durante mostras como Tiradentes mostram a capacidade dos festivais de influenciar diretamente a trajetória dos filmes, especialmente em um contexto de redução das janelas de exibição e de forte concentração da distribuição comercial.
A reflexão se voltou para a criação de novas rotas de circulação, parcerias sustentáveis e redes de colaboração entre realizadores, distribuidores e instituições, ampliando a vida das obras para além do tempo dos eventos, apontado como grande desafio. Nesse sentido, a Conexão Brasil CineMundi dialogou com a ideia de que pensar soberania no audiovisual passa também por disputar os modos de circulação, permanência e encontro entre filmes e seus vários públicos.
A temática da soberania imaginativa conduziu ainda reflexões sobre como o cinema pode retomar a autonomia de sentir e conceber o improvável frente ao domínio das big techs. Francis Vogner dos Reis, coordenador curatorial, definiu o cinema brasileiro como “um arquipélago de diversidades radicais que resiste à uniformização cognitiva imposta pelos algoritmos de streaming”. A ideia de soberania foi vinculada à autodeterminação dos povos e dos artistas sobre seus próprios desejos, extrapolando a mera dimensão geopolítica para atingir o campo simbólico. Como sugeriu o pesquisador Hernani Heffner, “você só é chamado a imaginar quando vive uma crise”. Nesse sentido, a imaginação é ferramenta para propor possibilidades de novas premissas na realidade.
No conceito de soberania apareceu também a liberdade de atuar criativamente dentro de seus territórios e entendê-los como uma construção de futuro. O cineasta Lincoln Péricles disse ver o cinema como “uma feitura de arquivo”, algo ainda mais específico no caso dele, que filma na periferia de São Paulo. “Minha força artística veio de fazer os filmes que eu queria, e não os filmes que eu via”. Essa visão dialogou com a crítica à ”plataformização do imaginário”, que tende a pasteurizar narrativas em prol de padrões técnicos e dramatúrgicos rígidos. A artista e debatedora Alana Falcão questionou, por exemplo, o “paradigma da literalidade” e as armadilhas de uma representatividade que muitas vezes se torna apenas uma categoria de consumo mercantilizada. Ou seja: a imaginação é também uma forma de escapar das obviedades sem, jamais, deixar de ter relevância.
Em termos de curadoria para esta edição, a mostra revelou uma produção brasileira vasta, mas que precisa, em certa medida, expandir suas aproximações estéticas. Dos 1.458 curtas e 293 longas inscritos, grande parte dos filmes selecionados foi realizada com recursos da Lei Paulo Gustavo. Se por um lado isso evidencia o impacto direto das políticas públicas na produção e diversidade territorial, muitos filmes inscritos, segundo a curadora Lorenna Rocha, pareciam replicar formas estéticas e narrativas pré-estabelecidas pelo mercado, o que, para ela, torna o “desejo pelo estranho” e pelo “disforme” uma necessidade para o cinema de invenção. A curadora destacou a importância de ver o cinema como “pessoas ao redor de uma fogueira”, onde as comunidades se reúnem para trocar saberes e projetar suas próprias identidades.
“Encerramos esta edição com a certeza de que o evento cumpriu seu papel de fortalecer o audiovisual, promover encontros qualificados e ampliar diálogos fundamentais para o setor. Os resultados alcançados refletem o trabalho coletivo e o compromisso com a construção de um ecossistema cada vez mais diverso e sustentável”, afirmou Raquel Hallak, diretora da Universo Produção e coordenadora geral da Mostra de Cinema de Tiradentes.
Percebe-se que a situação do cinema brasileiro está intrinsecamente ligada à situação política do país. O balanço das discussões aponta para a urgência de consolidar um Sistema Nacional do Audiovisual que integre educação, cultura e indústria de forma soberana. Mais do que contabilizar ingressos ou prêmios, o setor se vê na missão de construir documentos audiovisuais que registrem o tempo presente e garanta a democracia e que políticas públicas cuidadosamente pensadas pelo setor avancem e tragam de volta a garantia das continuidades. A meta é fazer com que “o Brasil continue em cartaz interna e mundialmente”, nas palavras de Joelma Gonzaga. Rumo aos 30 anos, a Mostra de Tiradentes seguirá na missão de abrir e facilitar caminhos para um cinema brasileiro sempre necessário e pulsante.
SOBRE A MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES
PLATAFORMA DE LANÇAMENTO DO CINEMA BRASILEIRO
Maior evento do cinema brasileiro contemporâneo em formação, reflexão, exibição e difusão realizado no país e chega a sua 29ª edição de 23 a 31 de janeiro de 2026, em formato online e presencial. Apresenta, exibe e debate, em edições anuais, o que há de mais inovador e promissor na produção audiovisual brasileira, em pré-estreias mundiais e nacionais – uma trajetória rica e abrangente que ocupa lugar de destaque no centro da história do audiovisual e no circuito de festivais realizados no Brasil.
O evento exibe mais de 137 filmes brasileiros em pré-estreias nacionais e mostras temáticas, presta homenagem a personalidades do audiovisual, promove seminário, debates, a série Encontro com os filmes, oficinas, Mostrinha de Cinema, Fórum de Tiradentes, Conexão Brasil CineMundi e atrações artísticas. Toda a programação é gratuita. Mais informações www.mostratiradentes.com.br.
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SERVIÇO
29ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES | 23 a 31 de janeiro de 2026 | PROGRAMAÇÃO GRATUITA
LEI FEDERAL DE INCENTIVO À CULTURA
LEI ESTADUAL DE INCENTIVO À CULTURA
Patrocínio máster: PETROBRAS
Patrocínio: CAIXA, EMBRATUR, CIMENTO NACIONAL, ITAÚ, CSN, CODEMGE / GOVERNO DE MINAS GERAIS
Parceria Cultural e Educacional: SISTEMA FECOMÉRCIO MG POR MEIO DO SESC E DO SENAC EM MINAS, CASA DA MOSTRA, TCE MG CULTURAL
Apoio: PREFEITURA DE TIRADENTES, EMBAIXADA DA FRANÇA, INSTITUTO GOETHE, CONECTA, CANAL BRASIL, CINECOLOR, DOT, 02 PÓS, THE END, FESTIVAL SCOPE, FESTIVAL DE MÁLAGA, MÍSTIKA, NAYMOVIE, CTAV
Parceria: MINISTÉRIO PÚBLICO DE MINAS GERAIS, BH FILM COMMISSION/PREFEITURA DE BELO HORIZONTE
Correalização: INSTITUTO UNIVERSO CULTURAL
Realização: UNIVERSO PRODUÇÃO, SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA E TURISMO DE MINAS GERAIS/GOVERNO DE MINAS GERAIS, MINISTÉRIO DA CULTURA, GOVERNO DO BRASIL – DO LADO DO POVO BRASILEIRO
